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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Dez11

Contradições

Maria do Rosário Pedreira

Estive há poucos dias em Cabo Verde numa feira do livro – a Festa da Palavra – em representação da Leya e a convite do Ministério da Cultura de Cabo Verde. Era uma feira relativamente pequena numa rua do centro da Cidade da Praia, o chamado Plateau; e, apesar de haver bastantes alunos de escolas secundárias nos colóquios que paralelamente se realizavam na Biblioteca Nacional, a verdade é que no recinto da feira não se via muita gente a comprar (nem mesmo a ver) e a quantidade de títulos disponíveis de livros «locais» era bastante reduzida (havia sobretudo autores considerados clássicos, muitos deles também publicados em Portugal, e livros de ensaio apoiados por organismos oficiais, mas nada de realmente novo). E, porém, 98% da população do arquipélago é alfabetizada, o que podia significar muitos potenciais leitores. Mas não: ou porque os livros são caros, ou porque não há ainda uma cultura da leitura, nem sequer na escola, os cabo-verdianos não compram nem lêem livros com regularidade. Aparentemente uma contradição, esta situação mostra que ter os instrumentos não chega para ser leitor. Porventura, faltam ainda incentivos – como o do preço acessível e a constituição de bibliotecas escolares – e o estímulo que as famílias de não leitores e os professores sem hábitos de leitura ainda não conseguiram dar.

2 comentários

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    Cristina Torrão 29.12.2011

    Não desfazendo da tradição oral, importantíssima, uma grande marca da cultura africana (nunca esquecerei aquelas cenas da série "Raízes"), talvez ela seja precisamente o "problema".
    A nossa cultura "ocidental" aprendeu a respeitar a palavra escrita há milénios. Trata-se de uma tradição que começou com as tábuas dos Dez Mandamentos. Aliás, os muçulmanos consideram as religiões judaica, cristã e a própria como "religiões do livro". Mesmo que se tivessem passado muitos séculos em que o analfabetismo rondava os 98%, sempre se respeitaram aqueles que sabiam ler e escrever e lidavam com livros (ou rolos de papiro, na Antiguidade).

    Claro que a tudo isto, há a acrescentar, no caso africano, a era do consumismo e da "cultura fácil e pindérica". Os africanos passaram directamente da tradição oral para o consumismo dos nossos dias.
    Poder-se-á dizer que isto representa mais um dos estragos do colonialismo?
    E, por muito que amemos os livros, tentar convencer os africanos a ler não será mais uma atitude de tipo colonial, ou seja: "nós é que sabemos e compete-nos missionar-vos"?
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