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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Fev12

Os bons e os maos

Maria do Rosário Pedreira

A minha irmã, que foi sempre a mais original no contexto familiar, conheceu de perto a mulher de Arnaldo de Matos na escola secundária e tornou-se simpatizante do MRPP, obrigando até a minha mãe a acompanhá-la em actividades da Associação de Amizade Portugal-China. Na altura, eu era demasiado miúda para perceber fosse o que fosse dessa espécie de militância, mas agora posso vingar-me da ignorância lendo uma obra de Miguel Cardina intitulada Margem de Certa Maneira – O Maoismo em Portugal de 1964-1974, dada recentemente à estampa pela Tinta-da-China. Trata-se de um estudo que ainda não tinha sido feito sobre os movimentos de extrema-esquerda de inspiração maoísta nos dez anos que antecederam o 25 de Abril, movimentos que foram muito críticos em relação às acções do Partido Comunista (ou à falta delas), ao colonialismo, à guerra em África (apelando à deserção) e ao capitalismo. Nascidos no meio estudantil, mas estendendo-se mais tarde a alguns sectores do proletariado, estes grupos constituíram uma oposição diferente e fizeram nascer para a política muitas figuras conhecidas que aí iniciaram o seu percurso.

4 comentários

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    António Luiz Pacheco 09.02.2012

    Meu Caro e Extraordinário Amigo:

    Creia que muito bem entendo e respeito aquilo que diz! Se me permite... pois nunca tive nem de perto esse tipo de experiência.

    Julgo que faz muita falta ao entendimento da história recente, esse tipo de abordagem que faz de forma absolutamente esclarecida e sem os habituais tiques da esquerda que se recusa a reconhecer a sua desilusão, como da direita que continua a viver uma ilusão... não falo do centro pois desse não se faz nem fará história, são os que mandam e pronto! O centro não exige nem militância nem sacrifício... é como a água morna.

    Os jovens têm de ser rebeldes, de se rebelar e de ser do contra, seja qual for. Faz parte de ser ou ter sido jovem... não acha?

    O que eu sinto é que é pena não haver (pelo menos que eu saiba...) romances dessa época
    gloriosa, e digo gloriosa em homenagem a essa juventude, generosa, que viveu as ilusões. Romances que contem o que se vivia, pensava, e fazia, não apenas para dizer que o regime era mau, os pides brutos, etc. É que isso já nós sabemos e normalmente é o que todos dizem!
    Romanceia-se acerca dos tais ícones, dos tais mártires fabricados. E dos outros? Dos que eram a maioria, que trabalhavam e viviam na sombra e no anonimato, que cresceram e nunca subiram ao palco, que hoje são pessoas comuns? Pois a esses é que era interessante ler, saber o que passaram. Os que se chamam Saramago, Lobo qualquer coisa... esses já se sabe!

    Um grande abraço aí para Amarante!
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    Joaquim Jordão 10.02.2012

    Caro Pacheco

    Grato pelo seu incentivo, permita-me duas ou três observações:

    – “Ser rebelde (…) faz parte de (…) ter sido jovem”.
    Cá para mim, faz parte, simplesmente – naturalmente (prefiro assim).

    Creio que as pessoas como aquele seu amigo que, em jovem, foi da extrema-esquerda e, mais tarde, mudou para a extrema-direita, abusam do conceito de rebeldia, porque o interpretam de maneira apenas literal.

    Também conheço pessoas nesse drama, e já percebi que o raciocínio delas é o seguinte: – “Rebelde em jovem, rebelde para toda a vida! Quando o que está a dar é a esquerda, vou para a direita. Está a dar a direita? Pois vou ainda mais para a direita, que na esquerda já me lixei que chega”.

    O penoso desta postura é que ela é meramente formal, auto-desculpabilizante, é redutora, não é redentora, apenas vai adiando, sem a resolver, a questão pessoal de fundo, adiando, adiando, complicando, complicando, até ao desespero final.

    – “Romances (…) não apenas para dizer que o regime era mau (…)”
    Entendo o que quer dizer, mas sinto necessidade de esclarecer que, se escrevesse um romance que não se destinasse apenas a repisar que o regime antigo era mau, teria talvez o cuidado de tornar claro, ou pelo menos deixar claramente implícito, que, na minha opinião, o regime actual não é, afinal, muito melhor.

    E avaliar o actual é o que, verdadeiramente, interessa para o futuro, não?

    Isto, evidentemente, seria trabalhado de maneira cuidada, sem entrar por aquela via da rebeldia meramente literal, sistemática, contra o que está porque é o que está (… até porque isso, no negócio dos romances, é chão que não dá uvas,,,)

    Mas lá que o actual não é, afinal, melhor… isso é motivo de muita da minha preocupação – sinto como que uma responsabilidade pessoal por, quando andei colectivamente empenhado em mudar o mundo, haver(mos) sido apenas imediatista(s), não ter(mos) sido clarividente(s) na preparação do que então era o futuro e agora é o, afinal penoso, presente.

    Isto pode parecer um lugar-comum cultural, geracional, de um velhote a falar dos desvios da geração seguinte – mas, cá para mim, desta vez o caso é sério.
    O que nos vai valer é que, desta vez, as mulheres estão a substituir-nos a todos os níveis nos lugares do saber, nos comandos do mundo e da civilização (a Merkel, porém, que se ponha a pau!), e, entretanto, nós viveremos até mais tarde, cá estaremos para assistir à – e colaborar na – profunda mudança civilizacional.

    – “(…) Saramago, Lobo qualquer coisa(…)”
    Desculpe lá, mas isso talvez não seja bem assim – dá-me a impressão que está aí um bocadito de impensada rebeldia a mais, não?

    Tanto quanto conheço – e ainda que talvez superficialmente, que não é fácil conhecer a fundo as vastas obras em causa – as literaturas deles são essencialmente intemporais, não me parece que sejam assim tão datadas, tão referenciadas a esses martírios do anterior regime, etc.

    Se me permite, recomendo que (re)leia, por exemplo: “Todos os nomes”, de Saramago. À primeira vista até pode parecer uma coisa sobre o fascismo, a Pide, etc. Mas depois, vai-se a ver, e é sobre algo muito mais vasto, que é a civilização que construímos mas não dominamos.
    E aquelas personagens paranóicas de Lobo Antunes não são, também elas, figurantes desta civilização kafkiana que a nossa rebeldia não soube evitar?

    Para terminar, que já são horas, brindo-lhe a minha última gota de whisky, que eu não sou cá de gins tonics!

    E brindo também a quem – antes que Maria do Rosário, brindada que também fica, passe a outra questão – ainda vai prestar alguma atenção a este mini-debate sobre o futuro:

    – À nossa!

    Vosso,
    Joaquim
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    António Luiz Pacheco 10.02.2012

    Meu Caro, é pena alguma limitação aqui, pois vai interessante o tema e teríamos conversa séria e brava, para muito tempo!
    E certamente que para uns bons goles de aguardente velha ou de scotch ... eheheh !

    Concordo na generalidade com aquilo que diz!
    E por isso gostava de saber mais da sua experiência porque me parece que pensou nela
    e é uma pessoa esclarecida, não formatada!
    Aquilo em que não concordo, seria para lhe dizer pessoalmente, mas não é tanto consigo, e tem a ver com Saramago/Lobo Antunes...mas são opiniões que guardo para mim ou para dar em privado a uma ou outra pessoa.
    Isto repito, há quem goste de Bach ou Wagner, eu não... prefiro Joaquin Roderigo ... ou Vivaldi
    Repare que quando se escreve sobre o "logo antes", sobre o "durante" ou o "logo depois" do 25/4 é sempre a mesma coisa, e já sabemos o que vai ser, dependendo da sensibilidade política e social de quem escreve. O que nem sempre retrata fielmente as coisas. E, NUNCA se admite o que você referiu: a desilusão, o sentir que o caminho não era aquele, nem o da repressão, nem o de impôr idéias (de esquerda ou de direita).
    Porque o que sempre faltou, falta e faltará é que as pessoas que pensam, que mandam, que de alguma forma veiculem idéias , deixem de dividir o Mundo em esquerda-direita , o que é redutor e acima de tudo impede de compreender a maior maravilha do ser humano: a diversidade do seu pensamento! Que para ser apreciada não pode ser adstrita a facções políticas ou sociais. Porque a única diferença entre os humanos é a forma como eles se adaptaram à sua forma de vida.
    Isso não tem sido entendido, e está à vista nas
    guerras e opressão que são o resultado... ou nas políticas que hoje se seguem na Europa e no nosso país.
    Você fala da sua desilusão à esquerda... que ninguém admite, e daí eu achar patético e até quase criminoso Saramago persistir em dizer que Cuba é uma democracia, ignorando ostensivamente os presos por delito de opinião que morrem nas cadeias.
    Já Henrique Galvão (com que me identifico) admitiu a sua desilusão à direita. Mas este não renegou nunca os seus valores humanistas que aliás conduziram a essa desilusão, se bem que seguisse a odiar os comunistas!

    Por isso o meu interesse quer neste tema quer na nossa conversa, e certamente que com outros dos nossos Extraordinários frequentadores deste blog.

    Um abraço e perdoe alguma tolice!
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