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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Mar12

Bons ventos do México

Maria do Rosário Pedreira

É bom quando nos passa pela mão o livro de um jovem – neste caso, uma jovem – especialmente dotado. O romance de estreia de Valeria Luiselli, mexicana a doutorar-se nos Estados Unidos, é um bom exemplo da obra de um escritor que já se vê que vai ser alguém no mundo das letras. Embora a sua intervenção nas Correntes d'Escritas não tenha sido extraordinariamente brilhante (foi, apesar de tudo, bastante aceitável), Rostos na Multidão é um livro de respeito, não só profundamente original na sua estrutura – que segue, a par e passo, narrativas distintas que se vão confundindo à medida que as páginas avançam – como profundamente informado sobre uma época (a que antecede imediatamente a Grande Depressão nos Estados Unidos) e alguns dos seus poetas: Ezra Pound, William Carlos Williams, o mexicano Gilberto Owen e o espanhol García Lorca, os dois últimos a residirem nesse tempo na Grande Maçã. Cruzando a história de uma rapariga mexicana que trabalha numa editora de Brooklyn e convence o chefe a publicar a obra de Gilberto Owen, cujo fantasma vê várias vezes no metro, a história do próprio Owen, que vê no metro uma rapariga que deve ser aquela no futuro, a história da mulher que escreve a história de Owen e pode ser a rapariga que trabalhou em jovem na editora de Brooklyn, enfim, este romance, muito elogiado por Vila-Matas, vai certamente dar que falar e agradará aos leitores que apreciam livros com alguma exigência e nos quais há qualquer coisa de duro e cruel sem que o tom e a linguagem percam beleza e contenção. Uma descoberta, em suma, muito feliz.

5 comentários

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    Cláudia 20.03.2012


    Em um segundo momento poderia citar que a cultura mexicana é exibida também, através de novelas que são bem açucaradas, o que não deixa de ser a expressão da força literária, contribuindo com o movimento do romantismo de carteirinha, sul americano.

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    António Luiz Pacheco 20.03.2012

    Atrevo-me a fazer uma pergunta, e espero bem que no âmbito do tema - burra, pois corro o risco que seja:

    - As telenovelas exprimirão de facto uma realidade e a cultura do país?
    Ou exprimem aquilo que é o imaginário e o que se gostaria que fosse, ou até se compõe assim por uma questão de enredo?

    Agora a minha habitual tergiversação:
    - Vejam as nossas telenovelas portuguesas... eu não consumo, mas dou uma ou outra eventual espreitadela por curiosidade crítica e para aferir essa tal expressão da realidade.
    E digo apenas: ridículo! Se aquilo é a sociedade portuguesa eu devo viver em Yakutsk ... até me cheguei a horrorizar com "Espírito indomável", só de pensar que podia ser visto ou tomado como aqueles inacreditáveis personagens de ficção social!!!
    Penso que uma coisa são as novelas baseadas em autores como Jorge Amado... outra as dos autores que nem sei quem são (salvo o Manuel Arouca que francamente devia ficar pela Costa do Sol, ou de Tozés Martinhos que também...)

    Por isso pergunto-me e por comparação:
    Se aquilo não é Portugal, nem perto nem longe, é o Brasil? É o México?
    Ou são apenas expressão da total e desejada ficção?


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    Cláudia 20.03.2012

    Caro Pacheco, as novelas segundo a dramaturgia representam quase um padrão cultural em diferentes conceitos, mas, de tendência capitalista faz reféns do círculo vicioso no terceiro mundo. Sobre as mexicanas são bons ventos, românticas e respeitosas, permeiam além da sensibilidade, assim por dizer a ética. Diferem de novelas brasileiras, umas mais, outras menos; valorizam em superlativos de êxtase, exploram luxo e sensualidade, violência, traição, amor e ódio, tencionando por chocar o público... A expressão televisiva emite personagens que vendem de facto o enredo, ao contraponto da impotência social no enfrentamento diário, oferecem o prazer aos pequenos vícios, os de riso miúdo, e servem a promiscuir o sentido da arte como realização humana. Praticamente a maior adversidade educativa no Brasil, com relação a massa crítica. Porém, infelizmente ou felizmente, fora assim que a maioria do povo vive, por reconhecer-se na Tv, imersos na pequena realização. No entanto, a mídia defende que é muito importante a dramaturgia brasileira e famosa no mundo. Os atores são heróis nacionais e as mazelas confundem-se com a ingenuidade do povo, também sendo fruto do questionamento de muitas pessoas, como uma vergonha.



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    António Luiz Pacheco 20.03.2012

    Fantástica! Não fazia a menor idéia até por total desconhecimento.
    Grato pela explicação e pela forma académica. É uma garantia... para mim pelo menos.

    Cumprimentos deste lado do mar!
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