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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Mar12

A tempo

Maria do Rosário Pedreira

Vem o presente post a propósito de um interessante comentário de um leitor deste blogue, de 12 de Março, dia em que publiquei um texto intitulado Ser Escritor. Dizia João J. A. Madeira que lhe haviam recusado um livro para publicação alegando que fazia lembrar Tim Burton, de quem nunca tinha visto um filme (já agora, aproveito para dizer que Burton é também escritor); e que, ao contrário do que algumas pessoas atestavam (eu incluída), não era possível a partir de um texto de um escritor identificar as suas leituras. É verdade, em primeiro lugar, que às vezes determinados livros ecoam vozes de escritores que os autores não leram, mas, quando são recusados por essa razão, não o são por pensarmos que o autor copiou ou plagiou, mas porque o que escreveram já existe, já foi feito por alguém antes deles, e não faz qualquer sentido dar à estampa uma espécie de sucedâneo. Se alguém hoje escrevesse uns Lusíadas, celebrando a viagem do Gama em cantos e versos, será que alguém os publicaria, ainda que fossem bonitos e cumprissem com rigor as rimas e a métrica? Quanto a conseguirmos dizer o que um autor andou a ler por aquilo que escreve, também é evidente que nem sempre acontece. Mas quem tenha lido A Viagem à Índia, de Gonçalo Tavares, não tem qualquer dúvida de que ele leu o Ulisses, de Joyce, e de que leu também Os Lusíadas, de Camões (pode até dar-se ao luxo de pensar que o formato, e a capa dura e vermelha são uma espécie de réplica da edição velhinha da epopeia portuguesa pela qual o autor deve ter estudado; a minha era assim). No ano passado, publiquei um romance no qual uma das personagens, um rapaz argentino, desejava dar cabo de um colega que lhe batera na escola atirando-o pela escada abaixo, mas não foi suficientemente corajoso. Já adulto, sabe, porém, que o seu inimigo de infância está nada mais nada menos do que coxo. Toda a gente que leu Borges concluirá facilmente que este autor também o leu (estou a falar de Nuno Camarneiro e No Meu Peito não Cabem Pássaros). Por último, há uns dez anos recusei a publicação de um romance que tinha uma personagem chamada Humbert Humbert. Se o autor não conhecesse Lolita, de Nabokov, teria sido uma coincidência espantosa... Espero que os esclarecimentos cheguem a tempo.

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