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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Abr12

O perigo das metades

Maria do Rosário Pedreira

Costumo acompanhar a produção poética nacional e tento, na medida do possível, estar em dia com os poetas mais novos; porém, como as nossas livrarias têm prateleiras cada vez mais vazias ou pequenas no que toca ao género – e muitas das editoras de poesia são empresas quase domésticas que não conseguem chegar aos grandes livreiros –, nem sempre é fácil andar a par de tudo, tornando-se, por isso, fundamental a leitura das páginas de livros na imprensa para nos informarmos do que não devemos deixar passar em branco. Foi assim, de resto, que no dia 16 de Março último fui atraída para a leitura de uma crítica que tinha como subtítulo «É urgente conhecer e reconhecer a poesia de X» (o X substitui o nome do poeta). Como não conhecia X (mea culpa) e sei que quase sempre os críticos incluem no seu texto excertos da obra sobre a qual escrevem, corri as colunas à procura de aspas, mas as primeiras que encontrei deixaram-me algo perplexa. Os versos citados eram: «Gosto de foder: gosto muito de foder. Gosto mais mais de foder do que a maioria das pessoas.» Na coluna anterior, achei outro excerto de um poema chamado para foder que rezava assim: «Quartos. Salas, Cozinhas, Casas de banho. Terraços. Jardins. [...] Etc. Urgente, não importa onde.» Não costumo ter ideias feitas em poesia, mas a verdade é que não percebi pelas amostras lidas a urgência de conhecer ou reconhecer X (não estava assim tão carente). Nada daquilo me pareceu ir além de uma simples provocação e senti que devia estar a ficar velha ou, pior, que perdera definitivamente a sensibilidade poética. Porém, a minha incredulidade levou-me a ler toda a crítica e, pelo meio, encontrei um poema inteirinho onde a ironia era mais apetecível; ora, como detesto falar das coisas pela metade, espero encontrar a obra de X por aí um dia destes, lê-la com atenção e voltar a falar dela com conhecimento de causa – às vezes, as metades não chegam para se sentir o sabor.

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