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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Jul12

Metáfora da mestiçagem

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, publiquei um livro que é uma delícia e cuja leitura, antes de falar de coisas mais profundas, dispõe bem – o que, numa época em que andamos um bocado zangados com o mundo, não deixa de ser importante mencionar. Trata-se de O Legado de Nhô Filili, de Luís Urgais, um romance que, podendo denominar-se «histórico» por se referir a um episódio histórico de relevo – a abolição da escravatura em Portugal –, vai claramente além de um relato dos factos que podem ser conhecidos através de ensaios ou manuais, construindo uma ficção primorosa à roda de um casal bastante improvável (e da sua descendência): o branco João Bento Rodrigues, funcionário régio nascido na ilha do Fogo de família minhota (conhecido como Nhô Filili) e a guineense Maguika, uma escrava negra como o carvão, trazida por negreiros para Cabo Verde já depois da proibição do tráfico. Mas não se pense que é a história de amor, como nas telenovelas, que aqui importa (embora seja de uma ternura extraordinária e suscite uma inegável empatia por parte do leitor), pois o romance atravessa quase um século de história e traz-nos, de mão beijada, ao embrião dos primeiros movimentos pela independência das Colónias, bem como à história da mestiçagem cultural e biológica e à questão do racismo, protagonizada não só pela elite branca da cidade da Praia (escandalizada com o casamento misto), mas, de forma bastante mais inovadora, pelos mulatos emergentes e interesseiros (e, note-se, nem sempre bastardos). Uma série de histórias e lendas locais, excelentemente articulada com a intriga do romance, fazem dele uma leitura de grande prazer.

 

3 comentários

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    Paulo Oliveira 05.07.2012

    António, é capaz de não ter sido assim tão pastoril.
  • Sem imagem de perfil

    António Luiz Pacheco 05.07.2012

    Claro que não foi Paulo... o muito sangue que se misturou custou também sangue derramado, suor e lágrimas... julgo que todos temos essa noção.

    Mas, há um detalhe que noto e não serei eu a fazer a sua interpretação, explico-o a mim mesmo e isso me basta. É a atitude dos nossos ex-colonizados face ao pormenor do nome!

    Quando se entrevista um trabalhador, sobretudo os simples por mais puros ou genuínos, nota-se o seguinte e isto é quase uma certeza:

    Pergunte-se o nome, seja a preto ou mulato...
    A resposta é dada sem emoção, nem qualquer espécie de reacção, sai apenas:
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    Claro que não foi Paulo... o muito sangue que se misturou custou também sangue derramado, suor e lágrimas... julgo que todos temos essa noção. <BR><BR>Mas, há um detalhe que noto e não serei eu a fazer a sua interpretação, explico-o a mim mesmo e isso me basta. É a atitude dos nossos ex-colonizados face ao pormenor do nome! <BR><BR>Quando se entrevista um trabalhador, sobretudo os simples por mais puros ou genuínos, nota-se o seguinte e isto é quase uma certeza: <BR><BR>Pergunte-se o nome, seja a preto ou mulato... <BR>A resposta é dada sem emoção, nem qualquer espécie de reacção, sai apenas: <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Jombe</A> Calandula (escrevo sem K) <BR>Ou então, endireita os ombros, levanta a cabeça e declara-se com ênfase: <BR>Adão Pedro Carlos! <BR><BR>Há nítido orgulho em portar nome português! <BR>Compreende o que eu quis dizer antes? <BR><BR>Saudações coloniais - a brincar! Eheheh ! <BR>Um abraço!
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