Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Jul12

Loucura argentina

Maria do Rosário Pedreira

Muitas vezes, quando sai um livro de determinado autor consagrado, compramo-lo imediatamente, mesmo sem ainda termos lido o que foi publicado antes desse. Ora, uma editora na Argentina considerou que, se isso não é um problema para um escritor reconhecido, é-o claramente para um estreante que, se não for lido rapidamente – e objecto de crítica e recensão –, dificilmente terá oportunidade de publicar uma segunda obra. Então, para apressar críticos e leitores – e num acto ligeiramente suicidário –, resolveu imprimir uma antologia de jovens autores latino-americanos com uma tinta especial que, assim que o livro é aberto, desaparece ao fim de dois meses. Ofereceu toda a primeira edição a pessoas que escrevem habitualmente sobre literatura, forçando-as a ler a obra rapidamente – antes que já não seja mesmo possível. A editora chama-se Eterna Cadencia e, ao que parece, a sua estratégia funcionou e não param de chegar pedidos d’«o livro que não pode esperar». A campanha tem um vídeo cujo link vai aí abaixo para o nosso anónimo do costume não pensar que estou apenas a querer ser original:

 

5 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Joaquim Jordão 11.07.2012

    É curioso, ó meu caro Pacheco, que, não vão assim tantos anos, havia poucos livros porque a Censura os proibia, e as touradas eram promovidas. Agora, parece-me que estamos a numa espécie de paranoica simetria – temos livros com fartura, até instantâneos (ou lês já, ou as palavras esfumam-se), e as touradas estão em vias de ser proibidas.

    [Declaração de interesses:
    – Alterei a minha vida para lutar contra o regime que assentava na Censura; gostaria que esta não voltasse sob nenhuma forma.
    – Não sou adepto das touradas, mas não me oponho; são um incontornável facto histórico da nossa cultura, e pronto; quem não gostar não assiste, e pronto.
    – Repito: gostaria que não voltasse sob nenhuma forma.]

    Entretanto, essa dos livros em que, uma vez abertos, o texto desaparece se o leitor não se despachar, não lembrou nem a Italo Calvino. Acho que já aqui referi “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”, que recomendo porque alterou a minha vida. Por causa dessa alteração, esta ideia, agora, fascina-me.

    Convenhamos que, literariamente, é estimulante a ideia de o leitor vagaroso criar ele próprio o resto do que não apanhou a tempo…

    É que Literatura não é apenas o livro, nem somente o escritor. O Leitor também faz parte do processo – e seria interessante que fosse incentivado a ser parte activa, criativa, e não apenas um mero consumidor, que compra, lê, engrossa a estante doméstica, e depois limita-se a dizer, na sua roda de amigos, se gostou ou não gostou, um irrelevante opinador…

    É isto uma utopia? Sim, é! Mas não é verdade que tudo o que a Humanidade criou começou por ser uma utopia?

    Fico-me por aqui, que já é tarde.
    Um abraço.
    Joaquim Jordão, Amarante
  • Sem imagem de perfil

    Nuno Serrano 11.07.2012

    Deixo, a propósito os dois últimos parágrafos do "Um Pinguim na Garagem" de Luís Caminha, meu autor predilecto e que, como eu, ao menos assim deduzo, abomina touradas e outras torturas:

    «Não lhes bato [aos meus cães], não os quero onde não querem e se aqui estão é porque assim decidiram. Nunca os obriguei a palhaçadas, somos os três demasiado sérios para essas coisas. Não me cansa a dolorosa insistência das suas patinhas em busca da minha mão. E não há quem os impeça de me subirem para cima da cama - foram muitas as vezes, aliás, em que até lhes pedi que o fizessem, para minorar a acidez da solidão.
    «Se não me pertencem não os posso dar. Mas tu, meu irmão, que também abominas o adestramento dos cavalos e as touradas, a criação desumana e a ignorância dos homens, far-me-ás a simpatia de cuidar deles?»

    Deduzo que os dois comentadores acima nunca pegarão neste livro, que tão abertamente critica as touradas. E, no entanto, para mim, Luís Caminha defende, nos seus livros, tudo o que faz de nós melhores seres humanos.
  • Sem imagem de perfil

    Joaquim Jordão 11.07.2012

    Na parte que me toca, está triplamente enganado, ó Nuno.

    Não tenho preconceitos acerca das touradas, nem acerca das pessoas que as frequentam, nem das pessoas que as criticam.
    Saber respeitar ambas (todas) essas pessoas também faz de nós melhores seres humanos

    Também não tenho preconceitos acerca dos livros, nem acerca das opções dos seus autores relativamente aos animais ou ao que quer que seja.
    Não é apenas o relacionamento com os animais que faz de nós melhores seres humanos.

    Esteja descansado: pelas amostras que já vi, tenho muito interesse em ler Luís Caminha.
    Este extracto que o Nuno aqui transcreve gerou-me empatia, diz-me pessoalmente respeito, pois que, tal como o Luís, tenho em casa vários animais que, com a minha mulher, resgatamos de maus tratos, recolhemos porque andavam perdidos, etc. Dormem nas nossas camas, duas das gatas comem connosco à mesa, a Sasha (cadela) lambuza-me de beijos quando chego a casa… É incontável o número de outros gatos e cães que já por aqui passaram e que encaminhámos para outras pessoas. Actualmente temos até uma pequena colónia de sapos no pátio das traseiras; apareceram por ali, ajudámos a criar-lhes o habitat, lá permanecem vai para dois anos.
    Nesta matéria tenho currículo para uma licenciatura, não?

    Mas independentemente dessa afinidade com o Luís Caminha, interessa-me nele o que, nas amostras que vi, me pareceu ser uma específica qualidade da escrita.
    Hei-de procurar com mais afinco, prometo.

    Agora, quanto ao essencial do que eu escrevi no comentário ao Pacheco…ó Nuno, não me diga que lhe pareceu que eu estava a tratar das touradas!

    Cumprimentos.
    Joaquim Jordão
  • Sem imagem de perfil

    Nuno Serrano 11.07.2012

    Caro Joaquim Jordão,

    Leio sempre os seus comentários com extrema satisfação porque acho que tem uma escrita muito lúcida e, como saberá, bastante literária.
    Apenas tenho uma opinião um pouco diferente sobre uma parte do seu primeiro comentário, onde diz "quem não gostar não assiste, e pronto". Quis sentir-me à vontade para lho dizer. Por uma só razão: porque uma grande fatia das pessoas que não gostam tem genuínas reivindicações contra a existência das touradas e outros maus-tratos contra os animais - e tem até a obrigação de lutar contra eles para não se sentir incompleta; isto sem desrespeitar as pessoas que se lhes associam, de uma ou outra maneira. Aquela velha máxima: lutar contra ideias e não contra pessoas.

    Os meus cumprimentos e as minhas desculpas pela generalização que fiz no meu comentário anterior. Um exagero, logicamente. Aliás, se gosta de animais, como sei que gosta, verá no primeiro livro de Luís Caminha muitas passagens deliciosas relacionadas com dois viralatas que a personagem principal encontra abandonados na rua e leva para casa.

    Um grande abraço e perdão pelo quid pro quo!
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    A autora

    foto do autor

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D