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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Out12

Venha o Diabo e escolha

Maria do Rosário Pedreira

Quando vi num jornal como iria chamar-se o novo livro de José Rodrigues dos Santos – A Mão do Diabo –, o título fez soar uma campainha. Não foi preciso muito para me recordar de que, havia anos, na editora para que então trabalhava, saíra um policial com um título muito semelhante: Mão Direita do Diabo, de Dennis McShade (um engraçado pseudónimo de Dinis Machado). Contudo, descobri que já houve um livro com o nome exacto do do jornalista, que foi o romance de estreia de Dean Vincent Center, autor para mim desconhecido. E, além da mão, parece que o corpo do diabo se presta a título, pois encontrei na minha estante O Pé do Diabo, de Connan Doyle, A Pele do Diabo, de Richard Hawke e um livro infantil de Daniela Gonçalves intitulado O Diabo sem Rabo (já para não falar de O Diabo no Corpo, de Raymond Radiguet, que, se não erro, até deu um filme homónimo). Porque me estava a divertir, numa busca não muito aturada compreendi que o Demo dá para todos os tipos de livros: desde A Hora do Diabo, de Pessoa, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto, O Diabo Veio ao Enterro, de Pires Cabral, A Comédia do Diabo, de Balzac, Os Anéis do Diabo, de Alice Vieira, Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho, A Rameira do Diabo, de Catherine Clément, aos mais corriqueiros, como o célebre O Diabo Veste Prada. A lista não é exaustiva, porque na linha policial usa-se e abusa-se do dono do tridente, citando eu apenas aqui A Estrela do Diabo, de Jo Nesbo, ou Sorte do Diabo, de Ian Kershaw. Mas existem ainda dicionários e histórias da besta e até livros de gestão para onde o Diabo é chamado. Um dia destes, faço a mesma experiência com Deus e logo vejo se a coisa anda ou não equilibrada...

3 comentários

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    Cristina Torrão 31.10.2012

    Caro Artur, não sei se ele seria um sucesso nos EUA. Mesmo com uma escrita estilisticamente pobre, nos "best-sellers made in USA" sobressai, normalmente, um enredo muito rico, ou surpreendente. De qualquer maneira, bem engendrado, o que não se pode dizer do livro sobre o Colombo, cujo enredo é uma desgraça.

    A propósito deste título: a primeira vez que o vi, li, erroneamente, "A Mãe do Diabo" e pensei: olha, até é interessante. Até que reparei que era a mão e, não, a mãe...

    Mas nós estamos para aqui a falar e ele, com crise ou sem crise, venderá dezenas de milhares de exemplares, o que, pelo menos, salvaguarda os empregos da editora.
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    Artur Águas 31.10.2012

    Cara Cristina, não podia estar mais de acordo consigo sobre o enfadonho que é o enredo do livro do Rodrigues dos Santos sobre o Colombo, pelo menos durante as suas primeiras 40 páginas, as únicas que li. Diz-se que quem tem o hábito de ler livros "fáceis" é grande candidato, a mais tarde, saltar para livros "difíceis". É capaz de ser verdade: eu adorei Emílio Salgari, Kark May, Júlio Verne ou Alexandre Dumas antes de saltar para o Camilo, o Cardoso Pires ou o Kazantzaki. Mas li os escritores do primeiro grupo durante a minha adolescência e depois quase não os revisitei a partir do momento em que me tornei adulto. Possivelmente, afinal ter apetência por livros "fáceis" em idade madura talvez não favoreça o tal salto para os "difíceis", para a literatura enquanto fonte de prazer estético transmitido pela palavra. Mas, confesso, há uma década atrás li com prazer os primeiros livros da Margarida Rebelo Pinto. Eram "light" mas revelavam-me, mesmo que de um modo um pouco superficial, o mundo das mulheres profissionais e urbanas com idades entre os 30-40 anos, aquelas que, sendo de uma geração que me é próxima (a minha mulher tinha essa idade na altura), tinham um comportamento e maneira de pensar que por vezes me espantavam. Eram, para mim, uma espécie de livros de “auto-ajuda”. Quanto ao sucesso de vendas do Rodrigues dos Santos, ou de outras figuras mediáticas como o Miguel Sousa Tavares (este sim, produzindo escrita de qualidade literária), tenho a sensação de que há leitores dependentes da fantasia de que o livro que irão ler é escrito por alguém que eles consideram conhecer bem, como se fossem quase da família, transformando a leitura numa espécie de revivência do inesquecível tempo infantil em que as histórias nos eram contadas por aqueles que nos eram próximos. Ou seja, tratar-se-á de um leitor que usa a leitura para o exercício daquilo que os psicólogos chamam um ato de regressão que é, quase sempre, uma ação muito aconchegante para a alma.
    Artur Águas
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