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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Nov12

Ler na íntegra

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, o jurado de um prémio de poesia sem grande relevo confidenciou-me que não tinha lido todas as obras a concurso e que o mesmo se passara com os seus colegas. Numa altura em que não havia a profusão de prémios literários que existe actualmente (quase todas as Câmaras Municipais têm um prémio com o nome de um escritor nascido nas suas bandas), haviam concorrido àquele mais de seis centenas de originais – e quase todos de um nível confrangedor. Por isso, assim que apareceram, após trezentos ou quatrocentos livros maus, meia dúzia de obras com inequívoca qualidade para vencer, os elementos do júri comunicaram uns com os outros, atribuíram o prémio à mais votada e já nem abriram as caixas que sobravam. Não sei se isto é verdade, e estou a vender o peixe pelo mesmo preço que mo venderam a mim, mas às vezes há decisões que me fazem pensar se, efectivamente, os jurados lêem mesmo integralmente as obras a concurso. Tendo em conta que em Portugal se publicam anualmente centenas de romances, será que é possível cumprir essa tarefa? Imagino que a maioria dos membros de um júri deste tipo sejam críticos, académicos, jornalistas ou mesmo escritores com outros afazeres – e não é crível que arranjem tempo para tantas leituras integrais. Mas sei também que essas pessoas, regra geral, já têm uma noção dos autores a quem, de facto, é fundamental prestar atenção, mesmo antes de saberem quais as obras concorrentes: os consagrados, bem entendido, e, talvez, dos mais novatos, aqueles a quem foram dedicadas muitas críticas positivas e espaço num ou noutro programa cultural de rádio e televisão. Este ano, porém, fiquei bastante surpreendida com os vencedores dos maiores galardões para romances em Portugal, e não porque os livros em causa não os mereçam (vou, aliás, lê-los a ambos e quiçá concordar com a escolha), mas por nenhum deles ter sido, desde a publicação, objecto de aplauso estonteante e haver até um que passou algo despercebido; e igualmente por estarem a concurso dois gigantes, dois livros que levaram uma vida a ficar prontos, implicaram um trabalho incomparável de investigação e construção ficcional e foram referidos em todo o lado de forma elogiosa, mas que não foram sequer finalistas de, pelo menos, um dos prémios. Falo, naturalmente, de As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, e de Tiago Veiga, de Mário Cláudio, que são marcos não apenas nas respectivas carreiras, mas também na própria literatura nacional, e foram preteridos nas selecções, primeiro, e nas votações, depois. Não houve, tenho a certeza, nenhuma espécie de favoritismo (ou o seu contrário); contudo, lembrando essa antiga conversa que refiro no início deste post, ocorreu-me que são os dois bastante volumosos – entre setecentas e cinquenta e mil e tal páginas – e não consegui deixar de perguntar-me se terão sido lidos na íntegra por todos os membros desses júris. Não desfazendo nos vencedores, claro, espero que esta minha dúvida não tenha nenhuma espécie de fundamento.

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