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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Nov12

As máscaras

Maria do Rosário Pedreira

Confessei um dia destes que estava curiosa e que iria ler – e cumpri. O Manel trouxe-mo num sábado e, assim que pude, deitei-lhe a mão. Duas noites bastaram para o começar e acabar, porque são pouco mais de cento e vinte páginas em letra de bom tamanho para quem já usa lentes progressivas há uns bons anos. Chama-se O Lago, assina-o Ana Teresa Pereira e é o romance que acaba de vencer o mais emblemático prémio literário português, o da Associação Portuguesa de Escritores. Uma certa estranheza acompanhou-me, porém, ao longo de toda a leitura: sendo um livro de uma autora portuguesa, tive a sensação de que estava a ler uma tradução e até a ver o que eu teria traduzido de outro modo. Ou a autora só lê praticamente livros ingleses – e se calhar até pensa em inglês – e, por isso, quando escreve é bem capaz de ter, ela própria, de traduzir mentalmente (palavras comuns como «representar» ou «falas» no contexto do teatro são quase sempre substituídas por «actuar» e «linhas», do inglês «act» e «lines»); ou a colagem à língua inglesa é deliberada, uma vez que a história se passa em Londres, com uma actriz e um encenador anglófonos, e todos os títulos das peças e dos livros referidos aparecem naquela língua, mesmo quando a tradução é usada correntemente em Portugal (Death of a Salesman, em vez de Morte de Um Caixeiro Viajante, ou Three Sisters, em vez de As Três Irmãs, entre muitos outros). Não posso contar grande coisa do enredo, porque este é um daqueles casos em que até um resumo muito breve estragaria o prazer da descoberta (o próprio editor pôs um excerto na contracapa, e não uma sinopse), pelo que o máximo que avançarei é que se trata de um romance sobre a relação entre o actor e a personagem que deve compor, sobre a personagem escrita e a sua materialização, sobre a criação de uma obra dramática e a sua construção posterior em palco. E também sobre a paixão e o medo, a entrega e a perda. Interessante? Sem dúvida. Já vi filmes e li livros sobre o tema de que gostei muito mais, é verdade, mas também é possível que estivesse simplesmente de pé atrás. Por isso, o melhor é lerem para tirarem as teimas. Coisa maravilhosa mesmo é não ter encontrado uma única gralha.

2 comentários

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    Mariana 15.11.2012

    Adorei o "Pinguim na Garagem". É um livro de pele, sentido, inconformado, sobre o tema da identidade.
    Pegando no post da Maria do Rosário, também estranhei a escrita do Luís Caminha; não por me parecer traduzida, mas porque é muito particular, além de muito rica no vocabulário, na sintaxe e nos conteúdos. Parafraseando Lobo Antunes, eu também diria do Luís Caminha: ninguém escreve como ele.
    Tenho muita pena que o autor não tenha publicado mais nada desde então. Seguia religiosamente o seu blogue literário, mas infelizmente ele decidiu fechá-lo.
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