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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

27
Nov12

Uma questão de popularidade

Maria do Rosário Pedreira

Há pouco tempo, publiquei aqui no blogue um post que, como era de esperar, desencadeou alguma polémica. É verdade que não consegui esconder a minha indignação por não serem sequer finalistas dos prémios literários portugueses mais emblemáticos obras que considero singulares quer na carreira dos respectivos autores, quer no contexto da história literária portuguesa, preteridas a favor de livros que, quanto a mim, nem tinham nada de diferenciador na obra dos escritores, nem peso literário que justificasse a distinção. Era uma opinião, como todas as que aqui exprimo, pessoal – e, naturalmente, houve quem discordasse, o que, de resto, considerei positivo, pois, se todos pensássemos do mesmo modo, este mundo já excessivamente globalizado seria uma monotonia completa. Na altura, porém, não terei formulado uma pergunta que ficou escondida algures no meu cérebro, uma pergunta ruminante que se prende com a provável diminuição do nível médio dos livros que hoje se publicam em todo o mundo. E só faz sentido voltar a ela agora porque o best-seller As Cinquenta Sombras de Grey, da «erotica star» E. L. James, foi escolhido como finalista dos National Book Awards na categoria de Popular Fiction, uma espécie de Óscares literários britânicos. Talvez os seus concorrentes não sejam muito melhores – que sei eu de Victoria Hislop, por exemplo? –, mas lá que me pareceu outra vez muito estranha a inclusão de um livro que a crítica classifica como literariamente pobre e até mal escrito num prémio desta dimensão, isso não posso negar. Lá popular é ele – está toda a gente a lê-lo em todo o mundo (Portugal inclusive) e até já originou um pedido de divórcio à americana (uma senhora queixa-se, aparentemente, de que o marido não lhe faz nada do que o senhor Grey faz à rapariga com quem tem uma relação escaldante sadomasoquista). Mesmo assim, se a redacção é tão frágil como dizem, é justo encontrar-se em posição de vencer? Ou o nível médio baixou mesmo e escrever mal já não tem grande importância desde que se cometa a proeza de chegar a um número incrível de leitores?

 

 

 

 

 

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