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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Jan13

Post mortem

Maria do Rosário Pedreira

Quando morre alguém conhecido, não raro nos dias e semanas seguintes os jornais e televisões dedicam páginas e horas de encómio à figura quando, frequentemente, se esqueceram dela enquanto estava viva. Muitos escritores esquecidos tornaram-se, pela morte, autores incontornáveis e determinantes na história da literatura dos seus países. Muitos escritores médios, se não medíocres, apareceram depois de mortos como figuras de proa no contexto da época e grandes visionários. Lembro-me, por exemplo, de um autor que os «confrades» consideravam bastante mediano (embora vendesse muitos livros) ser brindado, depois da morte, com cinco páginas de elogios num só jornal, para espanto de muita gente que sabia o que se pensava dele. Mas, nisto de post mortem, o contrário é também possível e, passado o período do luto, há quem retire prazer de bater no ceguinho, pôr a nu a sua vida e dizer que andámos todos enganados achando que esse homem ou essa mulher eram excepcionais. Recentemente, a «vítima» foi Steve Jobs que, enquanto foi vivo era praticamente só um génio da informática, mas depois de morto se transformou num personagem verdadeiramente disgusting, que tratava mal as namoradas e era até avesso a tomar banho. Enfim, lembro-me de a grande Agustina ter escrito um álbum sobre a sua vida e não ter incluído nele o marido. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu, muito simplesmente, que ele ainda estava vivo... Quem sabe sabe.

4 comentários

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    José Cipriano Catarino 30.01.2013

    As violações da "norma" só são reconhecidas por quem a domina, suponho. O jogo que o escritor faz com a língua pressupõe que o seu leitor o acompanhe. Se escreve "tu fostes", ou o leitor contextualiza a frase, sabendo que o autor não dá erros desses, ou a interpreta como correcta, perdendo a intenção do autor (ironia, por ex.), ou acusa o autor de erro grave, perdendo também a interpretação pretendida. Agramaticalidade pressupõe, assim, maestria, comedimento, intencionalidade, etc. Eis um excelente tópico para discussão.
    Não foi por snobismo que me referi às relativas livres, mas porque são normalmente mal pontuadas.
    E, concordo, a virgulação é difícil. Escrever é difícil.
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    Beatriz Santos 31.01.2013

    José C C

    Desconhecia a expressão “relativas livres” . Encontro-a mesmo mais in, no sentido em que me parece científica e foi bem explicitada. Atitude que não é própria de um snob:)
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    José Cipriano Catarino 31.01.2013

    Bom, a designação oficial dessas relativas no Dicionário Terminológico é mesmo snob: "orações subordinadas relativas restritivas substantivas sem antecedente expresso". Creio que me não esqueci de nada. São também chamadas "livres" porque, ao contrário das orações relativas adjectivas, não estão "presas " a um antecedente.
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