Um presente excepcional
Ao Manel e a mim, certamente por trabalharmos há décadas em edição, quase ninguém oferece livros; presumo que as pessoas creiam que conseguimos preços melhores por estarmos inseridos no ramo ou se acanhem de nos dar uma obra que, por acompanharmos de perto a produção nacional e internacional, possa constituir um tiro ao lado. É uma pena: primeiro, porque gostamos obviamente de ler – e somos dos que mais apreciarão receber livros de presente; depois, porque, como não resistimos a ler muito do que vai sendo publicado, gastamos muito dinheiro em livros. Recentemente, porém, um amigo que viveu longos anos no Brasil abriu mão de uma preciosidade que por lá comprara para me oferecer um presente excepcional. O objecto em si é logo de um bom gosto e cuidado já difíceis de encontrar. E o miolo, ainda por cima, é coisa da minha predilecção. Trata-se de uma tradução belíssima de poemas de John Donne, acompanhada de um texto crítico, tudo assinado pelo grande Augusto de Campos – para quem não saiba, um dos maiores poetas brasileiros. O livro intitula-se John Donne: o Dom e a Danação, e as poesias vertidas para o português pelo mestre Campos (não é só Portugal que tem um – o Brasil tem, aliás, dois, Augusto e o seu irmão Haroldo) não perdem a graça e a beleza do original, o que é uma proeza rara e digna de nota. Feliz, por todas as razões, que um amigo se tenha finalmente decidido a oferecer-me um livro – e que esse livro seja esta jóia.

