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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Fev13

Regresso a um outro eu

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes, há livros que nos chamam de outro tempo; e uma tarde destas, porque me pediram que recordasse um título que gostaria de voltar a ver circulando pelas nossas livrarias, comecei a olhar as estantes lá de casa e dei com um desses títulos que nos transportam imediatamente ao passado como máquinas do tempo: um romance de que gostara tanto quando o descobrira que nunca me atrevera a relê-lo, com medo, afinal, de que a magia se perdesse. Mas, enfim, agora ele parecia chamar-me da prateleira e era conveniente dar-lhe ouvidos. Li o texto das badanas e, tratando-se de um Prémio Planeta (coisa de que já não tinha ideia, confesso), se calhar a decepção nem seria assim tão grande – se chegasse a haver decepção, claro. Por outro lado, voltar a ele era um exercício engraçado de auto-conhecimento, de busca de um eu antigo e quiçá esbatido ou enterrado que me apetecia (re)conhecer. Bem, o romance é Resta a Noite, de Solelad Puértolas, e tinha-me mesmo enchido as medidas há uns vinte anos, até porque havia em mim qualquer coisa da protagonista, além uma viagem a um país exótico e muita solidão antes e depois dela. Não estava muito enganada quanto a isso, mas, excepto a solidão, essas memórias eram uma pequeníssima parte de uma intriga que, afinal, metia espiões ingleses e alemães, uma família aristocrata num palacete, um rapaz frágil e bastardo fugido para Honolulu, uma irmã farta do seu casamento e muitos outros factos adormecidos. E a tradução, ui, melhor nem falar, cheia de distracções em que, na altura, não devo ter reparado, até porque sabia muito menos castelhano do que hoje. O romance é ainda interessante, não me interpretem mal, mas o que me desiludiu a sério foi pensar que achei uma obra-prima um livro que agora consideraria apenas mediano, mesmo que galardoado com o Prémio Planeta. Reler tem estes perigos...

2 comentários

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    António Luiz Pacheco 20.02.2013

    Minha Cara BWP

    Não tema… vai gostar na mesma de Júlio Dinis! Achá-lo ingénuo será ainda um encanto, e sinal que evoluiu! Descanse portanto, pois não gostar… duvido, e vai mesmo descobrir novas coisas, é o desafio e ainda o prazer de reler, pelo menos para mim. Vai descobrir que já na época havia interesses instalados e já as lutas que hoje se travam… o caso da estrada que o deputado (pai da Morgadinha) quer construir e vai destruir as árvores do Tio Juvêncio (?) … o eremita botânico, tem parecenças com tanta coisa actual!

    Não aprendeu nada com o que refere sobre Eça?
    Vou-lhe contar o seguinte:
    Ontem, fui de madrugada aqui do Huambo ao Lubango e voltei… foram 12 horas e 1100 km, com um desvio por Catengue, pois o troço da Caála à Catata está intransitável na Cuíma. Para quebrar a solidão dei uma boleia a uma bela jovem que encontrei na estrada entre Caimbambo e o Cubal. Era professora e queixava-se que é muito difícil fazer os alunos ler. E é… mas não compete ao professor explicar aos alunos que ler é abrir em cada vez uma porta, uma janela ou um postigo… e quanto mais lerem mais portas abrem! Talvez essa a razão da dificuldade, a imposição em ler, apenas, sem conversar sobre a leitura e ajudar a abrir essas portas, de se encarregam de o fazer, depois, o tempo e a vida. Portas que uma vez abertas, jamais se fecham! Sucede, como no seu caso, não haver num dado momento força de braço para abrir uma porta mais pesada e que anos depois, com a ginástica do tempo e da vida, ela se abra afinal!

    Talvez por isso, normalmente não sou definitivo nas leituras. Já me aconteceu não gostar de “Jerusalém” (aconselhado pela nossa anfitriã)… porque não era de facto leitura para quem esteja isolado numa fazendo no meio do mato. Li-o depois em casa e tive a nítida percepção de que eu era uma outra pessoa e fiz uma leitura diferente…

    Saudações do Planalto Central
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