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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Mar13

Generosidade

Maria do Rosário Pedreira

Estivemos privados ao longo de séculos de traduções de muitos clássicos gregos (e latinos) e só há relativamente pouco tempo pudemos dispor de um trabalho sério, rigoroso e, ainda por cima, belo das obras de Homero, que são donde vem toda a literatura ocidental. Considero de uma enorme generosidade que um autor de prosa e poesia que podia dedicar a vida às próprias obras – o dotado e reputado Frederico Lourenço – se tenha atirado de cabeça e coração à enormíssima tarefa de traduzir, entre outras coisas, A Ilíada e A Odisseia e de nos oferecer essas suas traduções competentes e luminosas. Provavelmente, se não fosse a sua mão milagrosa, eu nunca teria lido estes dois livros fundadores em língua portuguesa; e, embora um número respeitável de tradutores se tenha dedicado a Ovídio, Catulo, Séneca e  muitos outros autores clássicos, a verdade é que poucos entre eles eram também escritores. Tenho um grande respeito por esta mão capaz de maravilhas e o post de hoje serve para lhe agradecer o acto generoso de partilha com os leitores portugueses, certamente mais ignorantes sem o seu trabalho.

7 comentários

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    Costa 12.03.2013

    Conceda-se-lhe também o mérito, a V. G. Moura, de ter reposto no CCB o uso do português de boa lei, em vez do repugnante acordês que grassa por aí como metástases.

    Se nada mais ficar como herança do seu tempo à frente do Centro Cultural de Belém, este por si só já não será legado menor.

    Costa
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    Artur Águas 12.03.2013

    Nesse ponto estamos em total discordância. A meu ver, escrever consoantes que se não pronunciam é uma desnecessária complicação ortográfica. Felizmente, a meu ver, os miúdos estão a aprender há mais de um ano a escrever segundo o AO, o que significa que serão os mais velhos que, gostem ou não, irão alterar a sua ortografia porque ninguém que aprenda a escrever de um modo simplificado, sobretudo se for jovem, estará disponível a reaprender a escrever acrescentando a algumas palavras consoantes que não têm qualquer ação fonética. Mas não vale a pena ressuscitar novo debate sobre o AO (já estão todos feitos e concluídos).
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    Costa 12.03.2013

    O chamado Acordo Ortográfico é uma aberração criminosa e uma ilegalidade.

    Uma ilegalidade porque não vigora na ordem jurídica portuguesa, ao contra do que se pretende fazer crer. Não vigora porque resoluções do governo e da assembleia da república são formas inferiores à de decreto-lei e, como tal, não o revogam. Donde a ortografia consagrada em 1945, por decreto-lei, permanece plenamente em vigor. Uma ilegalidade porque nem todos os Estados signatários do tratado que o aprovou o ratificaram e, enquanto a ratificação integral não ocorrer, um tratado não produz efeitos na ordem jurídica interna.

    Uma aberração criminosa porque pretendendo uniformizar vem na verdade complicar. Vem introduzir mais formas facultativas do que as existentes antes do AO90 . Vem introduzir inúmeras situações de ambiguidade que só um cego dogmático não vê (para/pára; espetador/espectador; corretor/corrector e tantas, tantas outras).

    Funda-se num pressuposto impossível, pois nenhuma pretensa unidade ortográfica ultrapassa as grandes diferenças de sintaxe e vocabulário existentes entre o português europeu e o brasileiro (se a este ainda se pode chamar português) e que impede de forma praticamente total a aceitação de textos em "português de Portugal" no Brasil.

    Renega as fundações etimológicas da língua, como se as nossas raízes nos envergonhassem e, invocando a máxima de que se escreve como se fala (ou arrogantemente, uma tal "pronúncia culta"), permite perguntar qual a fala a tomar por padrão: a de Lisboa, a de Bragança, a de Beja, a do Funchal, a do Corvo, de uma remota aldeia nos confins da Amazónia? Quem são os cultos a tomar como referência e todos os outros serão estúpidos?

    Submete-se de forma abjecta à ditadura da aritmética, sacrificando à lógica dos milhões a importância da língua como factor de identidade de um povo.

    É inútil, desde logo por não existir coisa idêntica, por exemplo, quanto às línguas inglesa, francesa ou espanhola, onde os seus ramos geográficos vão tendo a sua evolução natural, sem imposições centralistas de jacobinismo absurdo e sem que tal ausência pareça afectar minimamente a importância económica e cultural dos países que as falam e escrevem, ou a compreensão disso que escrevem ou falam.

    É um acto de sujeição às intenções do Brasil, de afirmação como potência mundial, absolutamente legítimas em si mesma, mas não à custa de uma óbvia mudança para pior, virtualmente desaparecendo, do português falado e escrito na Europa. Onde, sejamos muitos ou muito poucoso português começou e de onde se espalhou.

    Costa
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    Paulo Oliveira 12.03.2013

    Ó Costa, se ficamos na costa a ver navios é que não vamos longe, e ao português que aqui se fala e escreve acontece-lhe o que aconteceu ao galego. É que ele espalhou-se realmente a partir daqui e agora temos de ir com ele, senão foge-nos. Aceito que se ataquem as inconsistências técnicas do Acordo, que estão à vista, mas quando caem neste palavreado recheado de rancores e de chauvinismos mal escondidos apetece-me logo desfazer-me das consoantes mudas a que ainda me agarro por hábito. Arre!
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    Costa 12.03.2013

    Homem, peço-lhe, acalme-se.

    Mas suscitou um aspecto interessante: você, ao menos, aceita "inconsistências técnicas" (belíssimo eufemismo, permita-me que o felicite pela forma), no AO90 . Fica-lhe bem e coloca-o bem acima de tanta gente pretensamente culta e responsável, e que o aceita e quer impor - ao AO90 - tal e qual está.

    Eu por mim, dispenso-o integralmente. Diga-me, desapareceram, o inglês o francês ou o espanhol europeus , apenas porque não adoptaram, cada idioma, uma forma única e padronizada com as suas antigas colónias?

    Se o português desaparecer (o bom português pré-acordo de 1990; e já dou de barato as patifarias que terão sido cometidas na reforma de 1911), não há-de ser pela rejeição de uma tentativa de uniformização condenada ao fracasso, mais não seja porque o gigante brasileiro borrifa-se completamente, permita-me a linguagem, não só para o AO90 como para uma sintaxe e vocabulário que jamais serão unificados ou unificáveis e estão cada vez mais afastados. O português europeu desaparecerá, e receio que isso de facto aconteça, porque o povo português é lastimavelmente inculto. Mesmo quando razoavelmnte instruido.

    Porque o povo português, na sua vasta maioria, não tem hábitos de leitura; a não ser os jornais de futebol e as revistas de telenovelas; não tem hábitos de escrita, a não ser assinar com ingénua caligrafia de instrução primária os inúmeros impressos em que implora os favores do Estado; e, reduzido à sobrevivência, perde o orgulho na sua identidade e história, que nunca teve, na verdade, para lá do patriotismo futeboleiro; porque, fascinado por tudo o que tenha sotaque brasileiro, procura ser mais brasileiro do que os brasileiros, como, por exemplo, os nossos patéticos e gelados cortejos de carnaval paulatinamente demonstram.

    E tudo o que escrevo, meu caro, nada tem de rancores ou chauvinismos. Reconhecerá que são factos. Desagradáveis e politicamente incorrectos que sejam.

    Por isso, sim, o AO90 , o aberração nele filiada, levará a melhor. É o mais certo.

    Felicite-se você por isso.

    Costa
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    Paulo Oliveira 13.03.2013

    Eu estava e estou calmo, e vou manter-me assim. Há uma diferença enorme entre o português e os exemplos que deu de línguas europeias que não terão sofrido com o facto de não terem uma forma única e padronizada, o que nem sei se é verdadeiro em todos os casos, pois conheço os esforços fortemente controladores da Real Academia da Língua Espanhola. É que essas línguas estão suportadas em países europeus com um peso muito maior do que o nosso, e que podem impor naturalmente (talvez devesse pôr entre plicas) as suas posições aos outros. Nós temos uma grande língua, mas somos demasiado pequenos e ela é usufruída por outros bem mais poderosos do que nós. A desproporção é grande e isso dificulta a nossa atuação . Além disso, o amigo elogia as diferenças que existem nas outras línguas, mas no nosso caso acaba por usá-las para combater um Acordo que afinal é acusado de as permitir em demasia: ótimo , óptimo, António, Antônio,... Depois, ainda mistura mais uma data de coisas que nada têm a ver e que soam a preconceito antibrasileiro , mas a sua argumentação assinala algo que sempre entendi: o assunto é muito mais político do que técnico.
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