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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

22
Abr13

Ler sem roupa

Maria do Rosário Pedreira

Há um quadro de Edward Hopper de que gosto muito (para falar verdade, gosto de quase todos, mas este interessa-se particularmente). Representa uma rapariga que lê em trajes menores sentada na cama feita de lavado de um quarto pequeno, no qual há ainda bagagem por abrir, um sapato derrubado e um chapéu pousado à pressa sobre a cómoda. Chama-se Hotel Room e sempre vi nele a urgência de, chegando a um lugar estranho, alguém terminar um capítulo de um livro que começou no avião (ou reler uma das epígrafes para a usar numa conferência que fará nessa mesma tarde) antes mesmo de desfazer as malas. A água estará a correr para a banheira nesse momento, preparando um banho de sais relaxante. Provavelmente, não é nada disso, mas a pintura de Hopper leva-me frequentemente a devaneios ficcionais, até porque a realidade anda bastante desagradável e há, aliás, coisas tontas a acontecer todos os dias. Uma delas (para não falar só do nosso país) tem que ver com a Amazon que, na altura em que se iniciou, era apenas uma livraria, mas, de repente, passou a loja virtual de basicamente tudo o que não seja perecível (e a ver vamos). Um dia destes, porque precisava de uma informação sobre uma edição específica de um livro, fui ao site americano e só me saltavam à vista vestidos e acessórios, não aparecendo um único livro na página de abertura. Talvez se pense que quem compra livros compra também roupa (e assinada por estilistas norte-americanos algo reputados) e que isso levará alguns leitores a, em vez de comprarem um romance, vestirem-se on line. Porém, no quadro de Hopper, está especialmente concentrada na leitura uma mulher quase nua. Para quê a roupa?

4 comentários

  • E eu, à mesma hora, na estação de Metro do Marquês de Pombal... Olhem que é oferecido!
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    Jocamartinho 22.04.2013

    Como é bom viver em Lisboa, o centro do mundo editorial português. O mesmo é dizer de quem está perto do lume, para se aquecer.
    Os da periferia, os do interior, os da província, não têm Metro do Marquês nem livros que aí os esperam, não têm a Carris junto ao Marquês de Pombal para poderem cumprimentar a Anabela, receberem e ofertarem um livro.
    Por vezes, os do centro editorial deslocam-se para a periferia, mas uma periferia que também se julga centro - Leiria, Porto, Coimbra... O que resta é um deserto, onde pinga, por vezes, alguma novidade editorial, frequentemente tardia, remetida com o mesmo despacho que é comum na Amazon e noutras vendas à distância.
    Viva o centro do mundo; estiolem os que estão ao longe. Ou juntem-se todos no centro, de forma a que não se consiga respirar no centro. E que o centro, de tão central, deixe de existir; ou que a periferia, de tão periférica e descuidada, se extinga por si, lenta e monocordicamente.
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    Pedro Almeida Sande 22.04.2013

    Caro Joca

    O centro também já há muito deixou de ser centro. É um lugar excêntrico de um mundo que já nem europeu é, de casario abandonado onde ainda ardem umas velinhas e onde sem abrigo repousam uns trapos a fazer de fronha de almofada... de pedra. Mas breve, breve, mesmo as velinhas se apagarão; e um bocejo destes excêntricos ouvir-se-à tão longe como santa comba dão, que é um lugar onde a vingança se serviu dois vezes fria.
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