A rever e a aprender
Tenho uma grande admiração pelos bons revisores e cada vez encontro menos pessoas capazes de fazer uma boa revisão em todos os sentidos. Conheci revisores que descobriam todas as distracções dos autores (um deles, recordo, emendou uma conta mal feita a Pacheco Pereira na biografia de Cunhal) mas deixavam ir uma nota de rodapé três páginas adiante da respectiva chamada; trabalhei com outros que tomavam o texto como entidade abstracta e o reviam na perfeição gramaticalmente, mas deixavam passar todos os disparates (Maio de 86 por Maio de 68!) desde que a frase estivesse correcta (um deles entregava o livro revisto sem ter a mais pequena noção da história que ele contava); e encontrei pelo menos dois que adoravam apontar erros de palmatória a professores universitários ou achincalhar escritores (gente muito frustrada, evidentemente). Sempre houve de tudo… e até revisores bastante ignorantes. O meu pai contava que, quando era estudante de Direito, um dos seus professores (Manuel de Andrade, julgo) se queixava de que um dos revisores dos seus livros tinha a mania de alterar coisas por mero desconhecimento e que, uma vez, já farto disso, a seguir a uma frase que falava de um facto que tinha sido demonstrado à saciedade, não resistiu a escrever: «À besta do revisor: é mesmo saciedade, e não sociedade, hã?» Bom mesmo é quando não damos pelo revisor quando lemos um texto…