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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Jun13

Professores de Tróia

Maria do Rosário Pedreira

Como os professores estão nas parangonas nos jornais, é deles que hoje falarei. Na última Feira do Livro de Lisboa, veio ter comigo uma professora de Língua Portuguesa que se apresentou, entre outras coisas, como leitora deste blogue. Disse-me que sabia que eu não tinha simpatia pelo presente Acordo Ortográfico (AO) e entregou-me meia folha A4 com um texto em que se explicava sumariamente que as escolas vivem hoje um autêntico caos linguístico, coexistindo no ensino da língua portuguesa três grafias: a do português pré-AO, a do AO e ainda outra, que é uma mistela de ambas e em que tudo parece ser permitido. Os maiores prejudicados por esta situação serão, muito naturalmente, os alunos, que aprendem uma coisa num ano e outra noutro, vêem os pais escrever de forma distinta daquela em que estão a ser ensinados e são penalizados nas notas pelos erros que muitos pais e professores não acham sequer que sejam erros. Diz ainda a nota que os professores são os Cavalos de Tróia desta operação com a qual frequentemente não concordam, vendo-se obrigados a ir contra a sua consciência. Em suma, pelo futuro dos alunos, criaram o grupo Professores contra o AO no Facebook e pedem a quem os apoie que adira em http://www.facebook.com/groups/178207905663865/ ou siga o blogue Português de Facto (http://portuguesdefacto.wordpress.com/). Se quiserem dar a vossa opinião, os professores em causa (ou pela causa), agradecem.

8 comentários

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    José Catarino 20.06.2013

    Meu caro, lamento dizer-lhe que não sabe do que fala, pelo que é melhor informar-se primeiro. Por exemplo, lendo isto:
    http://jose-catarino.blogspot.pt/2013/06/da-luta-dos-professores.html?m=0
    Um abraço
    JCC
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    João Courinha 20.06.2013

    Bem. Como não sei se alguém vai ler o blog, permitam-me que copie para aqui a verdadeira odisseia física dos professores que envergonha qualquer mineiro, o trabalho mental extenuante que faz corar o consultor, as horas de trabalho quase infinitas que ao médico só podem arrancar uma vénia, e o confronto com seres de índole instável que só o guarda prisional pode entender:

    "A profissão de professor, aparentemente invejada por alguns, nunca foi de vida fácil. Quando eu estava no activo, costumava dizer que devia ser a única em que só se pode mijar de 90 em 90 minutos. Das poucas que exige concentração total durante hora e meia, para logo, após intervalo minúsculo que mal dá para mudar de sala e ir às sanitárias, voltar ao mesmo. Um olho no burro, outro no cigano. A antecipar problemas, a tentar atalhá-los na origem, antes que pequena fagulha se transforme em incêndio dificilmente controlável. E, simultaneamente, a tentar ensinar algo que reputamos importante. Interpretar um poema, por exemplo.
    Trabalha-se por prazer quando as turmas são boas, quando os alunos querem aprender e questionam o professor, exigem dele entrega total. Pelo que sairá exausto, vazio, para descontrair e recarregar após breves minutos de disparates na sala de professores -- para nova sessão. Que pode ser com turma mediana. Daquelas que não se porta mal, apenas se está nas tintas para o que o professor diz. Ou uma da más, talvez com alunos embriagados, alguns aparentemente drogados, outros a provocarem zaragata, com os colegas, com o próprio professor. Talvez façam concursos de peidos, e interrompam constantemente o professor a queixar-se do mau cheiro, a querer abrir janelas para que a arruaça de fora e a de dentro se confundam numa só.
    (Dei por mim a desabafar: era professor de Português com formação em literatura e especialização em linguística, hoje trabalho como segurança. Sem os meios necessários e suficientes para impor a disciplina. Talvez por me saberem karateka, nunca me agrediram, embora, por vezes, pouco tenha faltado.)
    E o resto. A burocracia estúpida, inútil, ridícula. A roubar tempo, muito tempo, escasso para aquilo que deveria ser o cerne da profissão: o trabalho com os alunos. Os pais, quantas vezes sobrecarregados com problemas, não raro a pedirem ajuda para se tentarem entender com os filhos. A desabafarem os seus dramas pessoais, conjugais, familiares, profissionais. Os avós, que tentam educar, na falta de pais que o façam, os netos. Angústias, sofrimentos alheios que levamos connosco para casa, agravados pelo desespero de pouco podermos fazer para ajudar quem precisa -- o avô cuja neta anda na má vida, o pai cujo negócio avizinha a falência, a mãe desempregada, aquela cuja filha adolescente engravidou...
    Os conselhos de turma, As reuniões de grupo e de departamento, de clubes, de projectos. O serviço de exames. O trabalho de corrector, com prazos exíguos, grandes exigências, pressão enorme. E o resto. Tanto, tão fastidioso, que poderia ficar toda a noite a descrevê-lo.
    Mas o pior está para vir. Ameaça de desemprego, precariedade, leccionação simultânea em várias escolas. Aumento brutal de horário, sem ter em conta que o trabalho do professor na escola é a parte visível do icebergue. De longe a menor.
    Não surpreende, portanto, que os colegas queiram lutar. Se eu estivesse no activo, fá-lo-ia, mesmo sabendo que ia perder. Mais uma vez por culpa dos sindicatos, incapazes de definir uma estratégia de luta que vise a vitória e não a propaganda. Ou porque querem os professores revoltados, descontentes, para os poderem usar quando lhes convém -- ou aos partidos de que são correia de transmissão"


    Tenho uma lágriminha no canto do olho, só me ocorre dizer "Oh... the humanity!"
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    José Catarino 20.06.2013

    O trabalho do professor não pretende envergonhar os mineiros, nem fazer corar os consultores, nem arrancar vénias aos médicos, nem conseguir a compreensão dos guardas prisionais — os as lágrimas do João Courinha. Pretende educar-lhes os filhos, ajudá-los a aprenderem o suficiente para poderem enfrentar a vida e as suas dificuldades.
    Suponho, aliás, que mineiros, consultores, médicos, guardas prisionais, o João Courinha — terão frequentado a escola e não hesitarão em reconhecer o muito que devem aos seus professores, sem os quais talvez nem soubessem escrever.
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    João Courinha 21.06.2013

    Estamos a chegar onde eu pretendia. Isto é uma espécie de intrincada teia onde todos são de alguma forma precários (por favor não mencionem carros de alta cilindrada). A minha ex-mulher é Procuradora, todos os anos muda de comarca e não se queixa, porque só pode estar onde é precisa, eu sou agricultor e hoje fico acordado a noite toda porque estou a regar as amendoeiras e tenho que adubar, e por aí em diante, em todas as actividades. O problema começa com a conversa dos direitos adquiridos, que se deviam chamar direitos arrendados, arrendados enquanto houver forma de pagar a renda. Pode-se ouvir falar a miríade de comentadores que nos tentam infestar diariamente, mas a verdade é que, até há coisa de uma década, tinhamos tudo e mais alguma coisa "adquirida" porque uns desgraçados do outro lado do mundo, comiam sola de sapato e porradas nos cornos. Felizmente esses desgraçados já comem melhor e como essa borboleta bateu as asas na Asia o senhor em Portugal trabalha 40 horas! (não me leve a mal, mas gosto de me expressar assim)
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    José Catarino 21.06.2013

    Ideias interessantes, embora fujam ao tema do post e me desagrade discuti-las em casa alheia. Aparentemente, temos muito em comum: a escrita, a agricultura, pouco apreço pelo convencional...
    Não percebi a frase final. Se o senhor sou eu - Zé para os amigos - não trabalho 40 horas porque estou aposentado. Pior ainda, não é?
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    João Courinha 21.06.2013

    Naa, o "senhor" referia-se aos professores! Já estou a levar outra vez com a da casa alheia! Ao menos hoje é relacionado com o post! Sabia que
    ás vezes entro aqui na casa com as botas enlameadas? Mas enfim. Qual é a sua agricultura? Também gosta de jardinagem?
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    Tânia F. 21.06.2013

    João Courinha, permita-me dizer-lhe mas a sua ironia é deliciosa.
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