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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

08
Jul13

Em carne viva

Maria do Rosário Pedreira

Se tem estômago fraco, o melhor é nem se atrever a este romance, que é de extraordinária crueza no que toca a tudo: política, sexo, tortura e, sobretudo, carência de afecto e de humanidade. Dá para ficar deprimido um bom par de dias depois de virar a última página – mas é também dessas depressões que nos ensinam muita coisa sobre o ser humano em geral e sobre os dominicanos em particular. Chama-se A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao esta maravilha que nos magoa e interpela, e escreveu-a Junot Díaz, nascido na República Dominicana e actualmente professor universitário no MIT. Ganhou o Pulitzer (nem outra coisa seria de esperar) e conta-nos, através de três gerações de uma família amaldiçoada (de que Oscar Wao é apenas o membro mais novo), a história incrível de um país do qual pouco mais sabemos do que a existência de um lugar chamado Punta Cana, para onde se arrastam anualmente turistas que não se importam com a miséria que grassa à roda dos resorts. Mas esse paraíso de águas supostamente transparentes e brancos areais (nunca lá fui, mas acredito que seja assim) foi um autêntico inferno para os que lá viveram na época de Trujillo, o ditador que «reinou» durante uma parte considerável do século XX e praticou actos de confrangedora humilhação e vileza. Oscar Wao, no entanto, não passou por isso (senão através dos relatos da mãe e de uma tia), pois já nasceu em New Jersey, onde a vida não é fácil a um dominicano como ele, obeso, carente e sem namorada. A sua breve vida (e a vida mais longa dos seus parentes) é contada neste romance fulgurante por um ex-namorado da irmã, que foi seu companheiro de quarto na universidade e tentou ajudá-lo (mas não ajudou grandemente e sabe disso). Para leitores com estômagos decentes, este é um livro completamente imperdível.  

2 comentários

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    ASeverino 08.07.2013

    Feira do Livro de Lisboa; é que quanto à Feira do Livro do Porto, que não se realizou, soube agora que afinal a história não foi bem contada, como a pintaram muitos escritores e muitos blogues. É que parece que afinal os livreiros já tinham recebido uma determinada quantia combinada primeiramente, gastaram-na e depois pediram mais e o Rui Rio não foi na conversa...portanto houve aqui qualquer coisa mal contada...obviamente que apenas me contaram estes pormenores e atenção que não estou perto nem longe do Rui Rio, apesar de, na altura, muito me ter admirado já que o continuo a ter na conta de um homem sério e não tão contra-cultura como parece se está a fazer querer; contudo não estou em condições de fazer avaliações porque me estou a basear no que me disse alguém ligado a uma editora.
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