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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Jul13

Tudo por causa de uma vírgula

Maria do Rosário Pedreira

Quando, por vezes, recuso originais e aponto os erros que neles encontrei (de inverosimilhança, estrutura, previsibilidade, incongruência), falo também, se for o caso, de uma ortografia que deixa muito a desejar e até de uma pontuação deficiente. Alguns autores já me têm respondido que isso da pontuação é irrelevante, pois corrige-se facilmente, e que sou um bocado exagerada ao mencioná-lo. É óbvio que nunca recusaria um bom livro por ter simplesmente as vírgulas mal postas, não me interpretem mal, mas acho que saber pontuar faz parte do saber escrever – e uma vírgula no sítio errado pode inclusivamente mudar todo o sentido de uma frase. Que o diga o presidente da Câmara de Leiria, que acaba de ser brindado com uma queixa-crime num caso que se prende com a recolha de lixo no concelho. É que, segundo leio na imprensa, a uma deliberação da câmara foi, no contrato que se lhe seguiu, acrescentada uma vírgula – só uma – que alterou tudo e obrigou o município a prolongar a concessão da recolha do lixo a uma determinada empresa por mais cinco anos, o que implica o dispêndio da módica quantia de… quinze milhões de euros! E ainda acham que a pontuação não tem importância?

6 comentários

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    Sandra Neves 09.07.2013

    Ou o Valter Hugo Mãe. Ai a mania de não usar maiúsculas a seguir ao final de uma frase. ;-) Afinal, o que é mais importante num escritor? O génio? Ou o estilo?
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    João Courinha 09.07.2013

    Eu acho que importante é a experiência de quem lê, o choquezinho no coração, os minutos contados até se voltar ao livro, o olhar demorado sobre a capa e o suspiro dedicado à última página. Se aprendemos? Melhor. Se tem estilo? Melhor. Se a virgula flutua com correcção? Melhor.

    A verdade é que "inverosimilhança, estrutura, previsibilidade, incongruência" só servem de critério a escritores vivos, a alma e a paixão depressa se encarregam de os atirar pela complacente janela do prazer de quem lê.

    Proust matou uma personagem que páginas mais tarde dança alegremente num bonito baile. Alguém conhece o "erro de Proust"? Pois não, de tão deliciados que nos encontramos com a recordação da madalena da tia Leonie.
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    José Diogo 09.07.2013

    A Agustina fá-lo constantemente: personagens que haviam morrido aparecem como se nada tivesse acontecido, as suas histórias de vida mudam sem aviso, passam de solteiras a casadas sem qualquer explicação. E a Agustina não está morta.
    Diz ela que tem toda a lógica que assim seja, que o livro se engane tanto quanto nos enganamos nós, que troque tantos dados quantos nós trocámos.
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    Joaquim Jordão 09.07.2013

    Bem observado, José Diogo.
    A narrativa literária não tem de ser necessariamente linear, tipo papinha toda feita para o leitor, sem obstáculos onde ele possa tropeçar, onde se sinta desafiado, onde tenha de usar a sua imaginação, exercitar o seu sentido crítico. Isso seria estabelecer limites insuportáveis à Literatura – e menorizar os leitores.
    Aliás, a vida real (a dos leitores, e também dos analfabetos) não é linear – ainda agora vimos, por exemplo, que uma decisão irrevogável, afinal…
    São vários os autores que exploram esta dimensão. Ainda há poucos dias aqui se falou no suíço Walser, que, segundo Maria do Rosário, “consegue escrever uma coisa e o seu contrário sem que isso nos pareça estranho, antes louvável e original”. Cá entre nós, assim de repente ocorre-me Helder Macedo, particularmente em “Vícios e Virtudes”, que reli nestes últimos dias e estou ainda a re-reler, fascinado pela magistral complexidade. Mas haverá mais, certamente.
    Nada é linear – se fosse, a vida seria um aborrecimento, não haveria lugar para a ciência nem para a imaginação, a Humanidade não teria saído da cepa torta.
    Ainda bem que inventámos a vírgula, e que uma simples vírgula continua a poder fazer toda a diferença.
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    Jocamartinho 10.07.2013

    Extraordinário JJ

    Compreendo o seu ponto de vista relativamente às falhas que se encontram nos livros. Presumo que não haja um único livro impoluto - um único - desde o mais conceituado autor ao mais anónimo escrevinhador. Não sirva este pressuposto para dizer que os livros devem ser escritos ao talante do autor, é certo, mas sem qualquer cuidado, como se os leitores andassem à cata de erros, à semelhança daqueles que procuram as 7 diferenças, entre dois desenhos aparentemente iguais, no jornal Correio da Manhã.
    Um livro é uma obra que se tornará póstuma, muito ou pouco conhecida e reconhecida. É como a estátua de um escultor que deixe uma mão com seis dedos ou o polegar tão comprido como o indicador.
    Há-de concordar que há muitos livros: uns que pontuam bem e são uma "seca", sem interesse algum; outros, mal ordenados e com as vírgulas omissas ou fora do sítio, mas cuja narrativa é aliciante; poucos, infelizmente poucos, conseguem juntar as duas artes da escrita.
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