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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Set13

Byron e os cães mortos

Maria do Rosário Pedreira

O senhor Coetzee não ganhou seguramente o Nobel – nem muitos outros prémios literários – por acaso. É um autor sul-africano notável, que entre outros romances escreveu Desgraça, no qual um académico branco, mulherengo e apreciador de Byron assedia Melanie, uma das suas alunas mulatas; a rapariga apresenta queixa (movida pelo namorado e pelos pais, mais do que por vontade própria) e David, não tentando defender-se sequer de um acto que seria capaz de repetir (respondeu a um impulso, eis como define a situação), acaba por ser expulso da universidade. Sem nada que fazer, resolve visitar Lucy no interior do país – a filha neo-hippie que deixou a Cidade do Cabo para se tornar proprietária de uma pequena parcela de terreno e vive de vender flores no mercado e guardar cães nas férias dos donos (mas muitas vezes é apenas de abandono que se trata e os animais ficam com ela). O reencontro entre pai e filha é franco e agradável e, embora os seus hábitos sejam diametralmente opostos e o professor gostasse mais de uma Lucy menos «campónia», a verdade é que acaba por se adaptar àquele ermo, ocupando os dias com trabalho braçal, o libreto de uma ópera sobre Byron e o apoio a uma clínica veterinária onde aprende a consolar os cães que vão ser abatidos (na maioria dos casos, porque os donos são pobres e não os podem manter). Porém, quando a sua vida estava a ganhar um novo rumo (ele até tinha ido para a cama com uma mulher da sua idade – e feia), um ataque violento à casa vira tudo do avesso e tem consequências devastadoras para Lucy e o seu futuro naquele lugar. Mas ela recusa-se a sair dali, doa a quem doer. Este é um livro sobre a África do Sul pós-apartheid, sobre as atrocidades e as feridas abertas de uma sociedade eminentemente racista. Duro, seco e desassombrado, fala dos que parecem conseguir adaptar-se ao inadaptável – como os cães cheiram a morte, mas se oferecem ao carrasco para uma última festinha. A não perder.

6 comentários

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    António Luiz Pacheco 12.09.2013

    Realmente o que são os gostos... eu gostei d' "O coração das trevas". E não o digo para contrariar!

    Os gostos são afinal compostos, como químicos ou equações... não acham?

    Terei gostado porquê?
    Pelo deleite da leitura como se fosse um Eça?
    Ou, pelo interesse que tenho por determinados temas... como é o caso.

    E afinal, outros livros de que gostei, seguem ou foram buscar alguma inspiração a este "Coração das trevas", pelo que me atrevo a dizer que será essencial tanto para um bibliografia de Konrad, como para quem se interessa pelo tema que serve de base ao romance. Cito a título de exemplo e porque me ocorrem imediatamente, os casos de "Eliminem todas as bestas" (Sven Lyndqvist) e "O sonho do celta", que no primeiro caso duvido fosse do agrado da maioria Extraordinária, e no segundo já vimos que a muito poucos agradou.

    Mas é isso que compõe em boa parte o fascínio da humanidade: A diversidade de idéias!
    Ela é que permite a diversidade de escritores.
    Não acham?

    Saudações kaluandas!
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    Anónimo 12.09.2013

    Eu gostei muito do «Sonho do Celta».
    Desconhecia completamente a personagem biografada, bem como a sua ligação ao Conrad.
    Gostei muito da parte do Rio Congo e também da selva amazónica, que me fez lembrar «A Selva», do Ferreira de Castro, um escritor que foi em tempos o nosso mais traduzido e de quem já ninguém se lembra.
    Antonieta
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    ASeverino 12.09.2013

    Tem toda a razão a Antonieta em invocar este vergonhoso esquecimento.
    Ferreira de Castro é dos maiores escritores portugueses e A SELVA dos grandes livros de sempre.
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    ASeverino 12.09.2013

    Antonieta já leste "A LÃ E A NEVE"? grande livro - o BIGORNA é um personagem inesquecível (creio que se chamava o bigorna, mas já o li há tanto tempo...)
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    Anónimo 12.09.2013

    Li tudo do Ferreira de Castro, o meu pai tinha a obra completa deste autor, acho que alguns até li cedo de mais.
    E Os Emigrantes?
    E A Volta ao Mundo?
    E ninguém fala nele!
    Antonieta
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