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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Mai12

Bons pretextos

Maria do Rosário Pedreira

Quando em Portugal começou a crescer visivelmente o número de leitores de romances ditos comerciais, tantas vezes sem sumo, fiz – confesso – uma pequena aldrabice. Tínhamos comprado um romance inglês literário – mas sem espinhas e cheio de humor – e cobrimo-lo com uma capa com rosas, bonita mas representativa de um género que não era exactamente o seu. A primeira edição voou num abrir e fechar de olhos e fiquei a pensar que, provavelmente, quem o comprara lera uma coisa de qualidade, ainda que leve e acessível, fazendo qualquer coisa por si próprio. É, de qualquer modo, matéria para reflexão se, com aquela capa, os potenciais leitores desse romance também o adquiriram, pois podem simplesmente ter-lhe passado ao lado, assustados com os ornatos florais e os tons pastel. Aqui no blogue, quando falei do romance vencedor do Prémio LeYa, um dos comentários exprimia alguma preocupação por o seu autor estar, infelizmente, a ser descrito pela comunicação social como um desempregado que conseguiu uma proeza, e não como o excelente escritor que é. É parcialmente verdade, claro, e se o livro vai em terceira edição e mal saiu há um mês, temos de admitir que esse episódio muito mediatizado pode ter influenciado as vendas. Mas não será, apesar de tudo, um bom pretexto para levar a certos leitores um livro melhor, mais interessante, que as faça pensar e contribua para uma mudança dos seus hábitos de leitura? Sei que uma percentagem acabará por achar a obra um pouco complexa, mas não haverá muitos outros que, sem encontrarem dificuldades de maior, deram um passo em frente com este O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro?

02
Mai12

O contrário do idílio

Maria do Rosário Pedreira

Conheço muitas pessoas que se fartam da cidade e sonham refugiar-se depois da reforma (se a tiverem) numa aldeia quieta e perdida entre pedregulhos. Mas quem leu O Rebate, o mais recente livro de J. Rentes de Carvalho publicado em Portugal pela Quetzal, saberá que a vida na aldeia pode ser o contrário desse idílio. No local onde decorre a acção do romance, abundam, efectivamente, coisas tremendas: desde logo a pobreza que toca a todos, cheios de dívidas que nunca conseguirão pagar – e de vinho para se esquecerem delas; mas também a inveja em relação aos que voltam de França forrados à custa de um sogro que lhes pôs a filha mais ou menos à disposição para a guardar de uma vida que tudo indicava vir a ser demasiado licenciosa. Quando Abel Valadares põe o pé na sua aldeia natal casado com uma francesa para as festas de Agosto, a pagar copos a toda a gente e a perdoar as maldades dos rapazolas que logo lhe partem o vidro do carro, nem sabe o que o espera; porque ali ninguém perdoa o êxito de ninguém, a força bruta sabe dar murros, tiros e apalpões à má-fila quando calha – e uma francesa que mostra as coxas e fuma... já se sabe. Difícil por vezes descobrir quem diz o quê nos longos diálogos que atravessam esta história transmontana e crua (mas, como são quase todos da mesma cepa, se calhar nem importa assim muito), O Rebate fica a repicar dentro de nós por muito tempo depois de termos lido a última página. E desmotiva um pouco esses sonhos com aldeias...

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