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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Jan13

O livro do Lopes

Maria do Rosário Pedreira

Lopes foi, curiosamente, um dos apelidos usados por Ricardo Araújo Pereira para uma das suas figuras (o Lopes da Silva, lembram-se?), e é de novo um humorista, Luís Afonso (o autor de Bartoon), quem o vai buscar para nomear um "escritor pós-moderno" que, antes mesmo de publicar o livro que escreveu, chama um realizador para o adaptar ao cinema, esperando, afinal, que o filme acabe por fazer vender o livro e ambos lucrem com isso. O objecto é singular: chama-se O Comboio das Cinco e tem na sobrecapa um círculo recortado que deixa ver um relógio marcando as 12:10, o mesmo que, na capa, pertence à fotografia de uma estação ferroviária na qual um passageiro (o actor e diseur Pedro Lamares) aguarda, entediado, um comboio. Lá dentro está a história escrita pelo tal Lopes, propositadamente desconexa e desengraçada (o escritor pós-moderno não é especialmente dotado), entremeada com cartoons que reproduzem a conversa sobre a adaptação cinematográfica entre Lopes e o realizador, este bastante mais lúcido e naturalmente desconfiado em relação ao sucesso do empreendimento. O enredo envolve um casal desavindo, sempre às turras, que espera um comboio que talvez não venha (ele professor universitário, ela jornalista), mas o mais original é que Lopes assinala várias passagens do texto, identificando-as como de qualidade literária, de crítica social, de profundidade, de superioridade intelectual do narrador ou simplesmente como lugares-comuns. Não nego que prefiro o Luís Afonso das tiras diárias no jornal Público, mas vale a pena espreitar este livrinho que se lê em duas horas, nem que seja para reflectir no papel do escritor nos dias que correm.

02
Jan13

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Espero que tenham tido umas boas festas, mesmo que o clima do País não esteja para grandes alegrias. O melhor, contudo, é levantar a cabeça e encarar 2013 com coragem e, claro, bons livros, que esses não hão-de faltar. O que ando a ler devo-o a dois comentadores deste blogue, Anabela F. e Mário Rufino (desculpem se me esqueci de mais algum), que aqui o aconselharam; e é uma obra estranha, inclassificável e absolutamente imperdível (mas às vezes tão perturbadora que temos de fazer, aqui e ali, uma pausa para recuperar o fôlego). Trata-se de uma espécie de romance gráfico e autobiográfico, considerado um dos livros do ano pelo New York Times, que tem por subtítulo Uma Tragicomédia Familiar, embora a vertente comédia me tenha parecido bastante negra. A sua autora,  Alison Bechdel, é sobretudo conhecida como ilustradora e autora de BD, embora mantenha um diário desde os dez anos, que lhe serviu, de certa forma, para compor esta maravilha que é Fun Home, não traduzido na edição portuguesa porque este "fun" é também a abreviatura de "Funerária", uma vez que a personagem central - o pai de Alison - dirige o negócio de gatos pingados da família, ao mesmo tempo que lê Proust e Joyce, vive obcecado pela jardinagem e pela decoração da casa, é tremendamente exigente com os filhos e, não menos importante, se diverte às escondidas com rapazes, alguns deles menores... A descoberta da homossexualidade do pai por Alison, quase na mesma altura em que ela própria revela aos pais que é lésbica, acaba por criar uma teia de culpas e mal-entendidos no momento em que o progenitor é atropelado e não se chega a saber se foi acidente, se suicídio. E essa morte e a dúvida à sua volta são o motor para a narradora nos contar a vida da família Bechdel, na qual todos, afinal, parecem viver sozinhos (a capa dá, de resto, uma boa ilustração disso), carregados de mistérios, complexos e solidão. Um caso sério de literatura culta (as leituras do senhor Bechdel são de respeito) aos "quadradinhos". A não perder.

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