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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

13
Fev13

Estamos aqui

Maria do Rosário Pedreira

No sábado 2 de Fevereiro, eu – que ao fim-de-semana tento afastar-me de lançamentos e outras coisas que se pareçam com trabalho – não resisti a ir à sessão de apresentação do novo livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães na Bertrand do Chiado. O poeta merecia, pois, além de ser um grande escritor, é um confrade culto e generoso que conhece bem a poesia contemporânea e se dedica há muito a divulgá-la em blogues e ao vivo (e às vezes é tão raro um escritor escrever sobre os outros que, pela parte que me toca, não podia faltar). A obra saída do forno chama-se Você Está Aqui, numa clara alusão aos mapas de cidades e transportes públicos que não raro nos orientam nas suas redes a partir de um ponto preciso. Trata-se, assim, de um livro de poesia que é também um livro de viagens e cuja divisão se faz em duas partes – Partidas e Chegadas. Corresponde a primeira a textos sobre cidades estrangeiras, embora nada tenha de postal ilustrado, antes visitando a história pequena e a História maior desses lugares (pessoal e oficial). A segunda faz-se do regresso ao País, aonde é sempre difícil voltar quando as coisas parecem todos os dias mais decadentes, o que torna a leitura mais implicada. A apresentação da obra esteve a cargo de outro poeta – António Carlos Cortez – e foi mesmo interessante. Que bom ter estado lá. Agora, estou aqui, a ler o livro.

11
Fev13

Kamasutra para o S. Valentim

Maria do Rosário Pedreira

Somos peritos a importar tradições alheias – e quando vejo meninos e meninas disfarçados de fantasmas e bruxas no dia 31 de Outubro até fico de cabelos em pé (mas, claro, imagino que seja exactamente esse o objectivo do Halloween). O Dia dos Namorados é só mais uma destas importações, pois quando eu era adolescente não havia disso em Portugal; a primeira vez que me lembro de um namorado me oferecer um presente no dia 14 de Fevereiro já estávamos na década de 1990 e eu fiz uma figura triste porque, como não estava acostumada a celebrar o dia, ia de mãos a abanar... Porém, desde então os pares apaixonados gostam de trocar presentes pelo S. Valentim e, estando a data próxima, começam a aparecer nas homepages das livrarias virtuais destaques a romances xaroposos com capas tendencialmente em tons de rosa e lilás e títulos que incluem quase sempre a palavra «amor» e os seus derivados. No entanto, este ano a coisa promete ser mais picante por razões que todos conhecemos e têm que ver com o recente sucesso de As 50 Sombras de Grey. E, como é preciso usar de artimanhas para vender livros numa época de crescente pelintrice, encontrei um produto fascinante que dá pelo nome de Kamasutra de Grey. A capa, seja na imagem, nas cores ou no próprio tipo de letra, é mesmo chapada dos livros da senhora E. L. James, mas, ao contrário do que se poderia esperar, a editora não é a que publicou a trilogia. Isto é aquilo a que eu chamo «ir a reboque» – mas nem se pense que é caso único porque basta ver as montras das livrarias para logo sermos brindados com dezenas de capas em vários tons de cinzento, com algemas, sapatos de salto, ligas ou outros clichés eróticos, num todo homogéneo seguindo a moda Grey (ou gray, porque é tudo meio cinzentão). Nada contra. Mas, se o sexo é desejável entre namorados, espero que alguns não precisem desta cartilha e, a seguir, leiam um livro decente.

08
Fev13

Zona de conforto

Maria do Rosário Pedreira

Todos aqui sabem que trabalho maioritariamente com autores em princípio de carreira e, por isso, com obras de estreia – e essa é uma situação delicada, porquanto, se estou a lançar para o mundo um autor perfeitamente desconhecido, só posso realmente contar com a minha opinião. Tenho a consciência de que, apesar de ser uma leitora experiente e conhecer relativamente bem o mercado, há sempre um lado subjectivo na selecção que faço; e, portanto, de cada vez que ponho um destes livros «na rua», sinto um calafrio e muito receio de não acertar. Este ano, porém, dois dos autores que publico pela primeira vez – Carlos Campaniço e Cristina Drios – fizeram-me uma boa surpresa que me coloca, à partida, numa zona de conforto. O primeiro, enquanto eu revia as provas do seu romance, ganhou com ele (chama-se Os Demónios de Álvaro Cobra) o Prémio Literário Cidade de Almada, que é para inéditos; a segunda, de quem eu lera há cerca de ano e meio um pequeno livro de contos intitulado Histórias Indianas (que achei muito bonito, mas muito difícil de comercializar, daí tê-la estimulado a escrever um romance), ganhou também com essa colectânea o prémio «Novo Autor, Primeiro Livro» do Teatro do Campo Alegre. Assim, sabendo que há efectivamente mais gente a concordar comigo quanto à excelência destes autores, acabo por me sentir mais segura de que, pelo menos nestas duas opções, fiz o que devia. Um dia destes, falarei obviamente com mais pormenor nos livros de ambos.

07
Fev13

O mudo fala tão bem

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado, quando fui à Feira de Guadalajara, assisti no auditório principal, no contexto das cerimónias inaugurais, à entrega do Prémio Juan Rulfo, que é um tributo pelo conjunto da obra de um escritor (Lobo Antunes é, segundo creio, o único português contemplado). Ganhou-o então Fernando Vallejo, um autor e realizador de cinema colombiano que, no discurso de agradecimento, citou alguns dos intelectuais que mais o marcaram, incluindo o peruano Julio Ramon Rybeiro, desaparecido do mundo dos vivos em 1994. Conhecia Rybeiro de nome e reputação, mas ainda não tinha tido oportunidade de lhe «meter o dente». Pois a verdade é que a altura chegou e posso diz-vos que estou maravilhada com o primeiro volume de contos deste autor que a Ahab publicou sob o título A Palavra do Mudo (este «mudo» é o desprotegido, o marginalizado, aquele que raramente tem a palavra e que é quase sempre a figura que protagoniza os contos do autor peruano). A selecção e tradução estão a cargo de Tiago Szabo, que soube escolher muito bem as peças, desde logo o texto inicial «Só para fumadores» (os fumadores adorarão), mas também, por exemplo, a história do professor substituto que não chega a dar a sua primeira aula, a do armário onde se reflectem os antepassados ou a do livro em branco que anda de estante em estante até ir parar às mãos de um poeta desafortunado. Recomendo este livro a quem gosta de contos e a quem não gosta (mas passará a gostar).

06
Fev13

Um presente excepcional

Maria do Rosário Pedreira

Ao Manel e a mim, certamente por trabalharmos há décadas em edição, quase ninguém oferece livros; presumo que as pessoas creiam que conseguimos preços melhores por estarmos inseridos no ramo ou se acanhem de nos dar uma obra que, por acompanharmos de perto a produção nacional e internacional, possa constituir um tiro ao lado. É uma pena: primeiro, porque gostamos obviamente de ler – e somos dos que mais apreciarão receber livros de presente; depois, porque, como não resistimos a ler muito do que vai sendo publicado, gastamos muito dinheiro em livros. Recentemente, porém, um amigo que viveu longos anos no Brasil abriu mão de uma preciosidade que por lá comprara para me oferecer um presente excepcional. O objecto em si é logo de um bom gosto e cuidado já difíceis de encontrar. E o miolo, ainda por cima, é coisa da minha predilecção. Trata-se de uma tradução belíssima de poemas de John Donne, acompanhada de um texto crítico, tudo assinado pelo grande Augusto de Campos – para quem não saiba, um dos maiores poetas brasileiros. O livro intitula-se John Donne: o Dom e a Danação, e as poesias vertidas para o português pelo mestre Campos (não é só Portugal que tem um – o Brasil tem, aliás, dois, Augusto e o seu irmão Haroldo) não perdem a graça e a beleza do original, o que é uma proeza rara e digna de nota. Feliz, por todas as razões, que um amigo se tenha finalmente decidido a oferecer-me um livro – e que esse livro seja esta jóia.

05
Fev13

Cartão de boas-vindas

Maria do Rosário Pedreira

Hoje o meu post é uma espécie de surpresa para uma pessoa francamente especial na minha vida, que graças a Deus cruzou um dia o meu caminho. Estou a falar da Madalena, o meu braço-direito (e quantas vezes também o esquerdo), que me acompanha há mais de três anos e meio neste bonito mas difícil ofício da edição de literatura (difícil, porque as pessoas gostam cada vez mais de livros que não são literatura, tornando quiçá quem põe o dinheiro no negócio também cada vez mais desconfiado sobre a real importância de publicar livros a sério). Pois bem, como todos os anos por esta altura, a Madalena foi de férias uma semana inteira e regressa hoje (ufa!). E, além do facto de ser uma pessoa muito bem-disposta e sempre com boa cara (não me consigo lembrar da última vez que a vi aborrecida; preocupada, sim, mas quem é que, neste momento, com um mínimo de sensatez, pode despreocupar-se?), é de uma rapidez de resposta que podia enervar alguém menos stressado do que eu – e tornou-se-me tão indispensável com os anos que, se ela não deixasse uns memorandos irrepreensíveis para eu seguir à risca na sua ausência, eu era bem capaz de agarrar uma depressão nervosa todos os anos em Janeiro. Devo-lhe muito – e espero que ela o sinta, pois, na lufa-lufa diária que enfrentamos, às vezes não nos sobra nem um minuto para um elogio e, se calhar, ela até é mais pródiga do que eu a dizer coisas agradáveis quando, na verdade, o contrário é que teria razão de ser. Sei que a maioria dos que aqui vêm ler-me todos os dias não a conhecem, mas acredito que daqui a alguns anos, quando eu já estiver cansada disto, a Madalena possa substituir-me na dura tarefa de ler centenas de páginas todas as semanas e separar o trigo do joio. Hoje, que ela regressa, estou muito mais aliviada e quero dizer-lhe, para todos «ouvirem», que me fez uma falta tremenda. Espero que nunca seja uma Madalena arrependida…

04
Fev13

Bicicletas

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que a coisa aperta cada vez mais, até nas sete colinas da capital, num sobe-e-desce desgraçado, as bicicletas multiplicam-se, poupando-se em combustível e ganhando-se em exercício físico. E, por falar em bicicletas e em miséria, um dia destes revi o belíssimo Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica, que venceu em 1948 o Oscar de melhor filme estrangeiro; uma história passada em Itália cujo protagonista é um pobre pai de família lutando por um emprego numa altura em que não há trabalho para ninguém e o único lugar que lhe oferecem – a colar cartazes pela cidade – implica, justamente, ter uma bicicleta (e o pior é que a dele está no prego e vai ser preciso pagar para a tirar de lá). Nunca li o romance de Luigi Bartolini em que se baseia esta longa-metragem (que, por acaso, nem é assim tão longa) e, portanto, não sei se nele o desfecho é o que conheço – nem como de uma história que, aparentemente, se resume em três linhas, é possível fazer mais de cem páginas (mas ainda hei-de descobrir). No filme, porém, depois de conseguir trocar a bicicleta com os lençóis da própria cama na loja de penhores, este pai verá, enquanto trabalha, ser-lhe roubado o velocípede em plena rua – e, com ele, a possibilidade de ter um salário e alimentar a família. E, porque a Polícia nada faz para o ajudar a encontrar o ladrão, resta ao coitado imitar o patife, mesmo que não se saia tão bem como era preciso e a cena decorra debaixo do olhar crítico e devastado do próprio filho. Desconheço se estamos tão mal como os italianos nesse longínquo pós-guerra, acho que ainda não, mas, com tudo o que sabemos que vai acontecer e mais o que ignoramos, palpita-me que também aqui comecem a desaparecer bicicletas...

01
Fev13

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de partilhar leituras. Quando iniciei a deste livro que hoje trago – A Amante Holandesa, de J. Rentes de Carvalho – lembrei-me, sem querer, das conversas às escuras e em voz baixa que trocavam o guarda mais velho e o guarda mais novo em Lituma nos Andes, de Mario Vargas Llosa. Também nesse romance o mais novo relata com detalhe excessivo a sua paixão e o outro bebe as palavras e desfruta, como se fosse com ele. Mas aqui as confidências são entre dois homens já entrados nos anos numa aldeia que ambos abandonaram jovens e à qual regressaram velhos: o Gato, um pastor que esteve emigrado na Holanda e por lá teve uma amante e uma filha que nunca mais viu e de quem morre de saudades; e o narrador, um professor cuja vida foi um imenso vazio, que se casou por inércia, tem dois filhos imprestáveis que moram longe e um tédio difícil de aguentar. Depois de um episódio com uma carta que, de certo modo, poderia aparentar-se à história de Cyrano de Bergerac – carta que o segundo escreve à amante holandesa do primeiro por este ser analfabeto –, uma grande desgraça acontece, colhendo-nos a todos de surpresa como uma espécie de final antecipado. Mas, a partir daí, o foco desloca-se para o narrador, de quem iremos, afinal, saber muita coisa que teríamos preferido ignorar. A aldeia, esse corpo grande com os seus brutos e bêbados, é a melhor personagem de todas – e tão impiedosa como a do Rebate, do mesmo autor, de que já falei neste blogue. (Talvez, no fundo, seja a mesma.) A ler, como sempre, tratando-se de Rentes de Carvalho.

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