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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Set17

Possuir

Maria do Rosário Pedreira

O Manel costuma dizer que, lá em casa, eu sou a leitora e ele o bibliófilo – e talvez tenha razão. Não tenho espírito de coleccionadora e o que amo acima de tudo nos livros é o texto. Claro que não sou indiferente a uma bonita edição de determinado livro ou a uma colecção bem feita obedecendo a um tema ou estratégia. Mas do que gosto mesmo é de ler e não me importaria de alienar parte da minha biblioteca se tivesse, por exemplo, de mudar para uma casa mais pequena e soubesse que não voltaria a ler esses livros. Não sou também, regra geral, agarrada às coisas, que substituo sem grandes desgostos, ou sequer possessiva. Talvez por isso me custe entender porque há malucos que pagam fortunas para possuir uma peúga de John Lennon; talvez por isso me custe ver agora que os herdeiros do meu poeta favorito – o irlandês William Butler Yeats – vão leiloar centenas de cartas de amor (incluindo 130 manuscritas enviadas à primeira namorada), livros, quadros, móveis e objectos pessoais do escritor que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1923. A mim, que o venero, nunca me passaria pela cabeça possuir os seus originais (contentar-me-ia em lê-los), e menos ainda a poltrona onde terá posto o rabo. Mas a Sotheby’s vai de certezinha absoluta facturar – e muito, porque nem todos somos iguais e há quem goste simplesmente de possuir.

14
Set17

Desinformar

Maria do Rosário Pedreira

Durante muito tempo, os jornalistas não escreviam ao de leve sobre o que não sabiam – e, se lhes calhava terem de escrever sobre a realidade de um país que não conheciam, investigavam e liam para não dizerem disparates. Mas hoje, postos um pouco de lado os livros, a Wikipédia é muitas vezes a principal fonte de pesquisa de um jovem jornalista – e a Internet, como todos sabemos, apesar de muito útil, está cheia de incorrecções e imprecisões. Daí que, de vez em quando, alguns jornais e televisões (não falo só dos portugueses) nos ofereçam visões completamente redutoras de determinados países. Penso, por exemplo, que a maior parte do público que não lê livros nem sabe de História, influenciada pela narrativa do terrorismo actual veiculada pelos media, imagina a maioria dos países islâmicos como uma espécie de terra de bárbaros entalada no deserto, sem água nem luz e com camelos em vez de automóveis… Chama muito justamente a atenção para este problema o meu colega blogger Ricardo Jorge Pereira em Uso Externo, indignado com o facto de lhe apresentarem tantas vezes o Irão como berço de terroristas e país de selvagens quando o país (ah, a velha Pérsia e a sua longa história) já tinha, por exemplo, uma taxa de literacia que rondava os 80% há dez anos e tem hoje a maior livraria do mundo, que fica em Teerão. Também o fotógrafo Alfredo Cunha descreveu há pouco tempo ao Manel a parte curda do Iraque como incrivelmente organizada e interessante, mas acho que não é essa a ideia que costumam passar-nos. Por isso, vale sempre a pena confirmar e completar dados e não tomar a parte pelo todo. Os livros dão, claro, uma boa ajuda.

13
Set17

Venha o Diabo e escolha

Maria do Rosário Pedreira

É bom quando uns livros nos levam a outros – e foi isso que me aconteceu recentemente: o livro de Isabel Lucas sobre a América através dos livros – Viagem ao Sonho Americano (de que falarei também aqui um dia destes) – acabou por nos levar (ao Manel primeiro e a mim depois) até um autor que não conhecíamos: Donald Ray Pollock, um homem que foi quase toda a vida operário numa fábrica do Ohio e que de repente tirou um curso de Belas Artes e começou a escrever. A uma colectânea de contos muito aplaudida pela crítica, seguiu-se Sempre o Diabo, o romance que aqui me traz hoje e que é realmente um caso sério de boa literatura. Se gosta dos filmes mais violentos de Tarantino (ou, vá lá, com menos humor), de Natural Born Killers, de Oliver Stone, ou mesmo algum David Lynch mais sórdido (e, porque não?, de algum Cormac McCarthy), então adorará este livro cheio de «feios, porcos e maus», entre os quais um casal de serial killers que dá boleia às suas vítimas nas férias de Verão (as férias são só para isso, de resto), um veterano da Segunda Guerra Mundial que sacrifica animais para salvar a mulher de um cancro, ou a estranha dupla de pregadores Roy-Theodore (um deles deficiente e gay) que testam a sua fé de maneiras bastante estranhas (com aranhas, por exemplo). É difícil encontrar neste livro alguém que seja bom e inteligente, excepto Arvin, por cuja vida tememos até à última página; mas, apesar do permanente pontapé no estômago, este é um romance sobre a vida precária de uma certa América que, no meio da tragédia, consegue passar laivos de uma estranhíssima humanidade. Autor a acompanhar, evidentemente.

12
Set17

Curto e comprido

Maria do Rosário Pedreira

Nunca acreditei que o livro fosse morrer – e ele esteve já sob ameaça muitas vezes. Mas a verdade é que também nunca estive tão convencida de que ele corre agora sério perigo e será um objecto cada vez mais minoritário para um público cada vez mais diminuto (como a ópera, a dança, a fotografia?). Penso que o seu maior inimigo é o chamado smartphone, de que as pessoas estão absolutamente dependentes nos tempos que correm (crianças e jovens incluídos, o que é grave), no qual a leitura é invariavelmente rápida e não exige nem tempo, nem esforço, nem concentração; mas diz quem sabe (Timothy Snyder, autor de Sobre  a Tirania – 20 Lições para o Século XX, citado por Rui Tavares no jornal Público) que, mesmo para entender um texto curto, precisamos de ter lido livros compridos – e que, para compreender uma carta do século XVIII, por exemplo, é necessário termos lido os livros que então se escreveram. Na obra de Snyder que citei, o autor dá um conselho para o futuro: «Leiam livros.» E Rui Tavares chama atenção para o facto de poder parecer «interesseiro» um livro mandar-nos ler livros. O meu medo é que, não lendo livros que mandem ler livros, as pessoas não leiam livros. Precisaremos de frases curtas a aconselhar a leitura de obras compridas nos smartphones… Como fazê-lo?

11
Set17

Do que somos capazes

Maria do Rosário Pedreira

Em 1980, por toda a Coreia do Sul, os estudantes revoltaram-se contra o fecho de universidades e a falta de liberdade de expressão. Porém, na região de Gwangju, a repressão foi tão violenta que a população acabou por se juntar ao protesto, dando origem a um dos piores massacres na história do país. Os mortos e desaparecidos ainda estão, de resto, por contabilizar.  Como lidar com a morte de alguém quando o seu corpo não aparece? Atos Humanos, o novo romance de Han Kang, é a história de Dong-ho, um rapaz que não resistiu a seguir o melhor amigo até à manifestação, mas, quando ouviu os tiros, largou-lhe a mão, procurando-o agora entre os cadáveres de uma morgue improvisada. E é também a história dos que cruzaram o caminho de Dong-ho antes e depois dessa noite infame – os que caíram por terra desarmados e os que foram levados para a prisão e torturados; os que sobreviveram ao terror mas nunca mais conseguiram falar do assunto e os que, tantos anos passados, sabem, tal como Han Kang, que a história pode repetir-se a qualquer momento e que é preciso lembrar os atos brutais de que os humanos são capazes. Este é um romance universal e moderno sobre a batalha que os fracos travam contra os fortes na luta pela justiça. Comovente e traumático, confirma Han Kang como uma enorme escritora.

 

Atos Humanos K 3D (2).jpg

 

08
Set17

FIC

Maria do Rosário Pedreira

Vá ao FIC e fique no FIC, que vale muito a pena! Desculpem estar armada em publicitária mas antes de ir de férias devia ter-me lembrado de avisar que este ano o festival cultural de Cascais tinha outra vez convidados de peso, entre eles Paul Auster ou Arundhati Roy, cujos livros novos saíram em Portugal há relativamente pouco tempo (ainda vai a tempo de ouvir Paul Auster, no dia 10!). Na altura em que ambos disseram que sim ao convite que a Câmara de Cascais lhes fez, nenhum dos dois sabia que eram concorrentes, pois só mais tarde foi anunciada a lista dos candidatos ao Man Booker Prize deste ano e ambos estão entre os escolhidos (respectivamente, com os romances 4 3 2 1 e O Ministério da Felicidade Suprema). Mas, além deste par, o FIC recebe Rosa Montero e Selva Almada, duas autoras que escrevem em castelhano mas de gerações e países distintos (Espanha e Argentina), bem como Hélia Correia, Nuno Júdice, Manuel Alegre, José Tolentino Mendonça e muitos mais. Além de literatura, há música – e Salvador Sobral estará no Casino para interpretar os poemas ingleses de Alexander Search. Vamos lá?

07
Set17

Epístolas

Maria do Rosário Pedreira

Quando era jovem, escrevia muitas cartas. Cartas de amor, claro, sobretudo se me encontrava a passar férias com a família longe do namorado; mas também cartas aos amigos durante o Verão e cartas aos colegas que tinham ido viver para outros países (o que era comum na minha geração). Tinha especial cuidado com o que escrevia, fazia um rascunho e depois passava a limpo, e fazia os possíveis por que essas cartas fossem, se quiserem, algo literárias, e não meia dúzia de frases banais só para dizer «olá» e «saudades» (para isso existiam os postais ilustrados, que também, julgo eu, já pouco se mandam). A emergência do digital matou, no fundo, a correspondência (o meio não favoreceu este cuidado de que falei, antes uma rapidez de escrita e leitura que não se coaduna com a atenção e o tempo que a velha correspondência exigia); como dizia um dia destes a reitora da Universade Católica Portuguesa numa entrevista, «a ausência de pegada mediática torna o indivíduo invisível» e, por isso, a literatura epistolar tende a desaparecer nas próximas décadas, o que é uma pena. Porém, ainda se vão encontrando boas surpresas – e durante a última Festa Literária de Paraty (a famosa FLIP) foi lançada a compilação de uma troca de cartas entre Saramago e Jorge Amado com o belo título Com o Mar por Meio; segundo dizem, uma «curta mas tocante troca de inconfidências» entre dois grandes escritores do século XX. A publicação é da Companhia das Letras. Valha-nos este tipo de lançamentos.

06
Set17

Guadalajara

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns anos – se não me engano, em 2013 – a mexicana Feira do Livro de Guadalajara, que então fazia 25 anos e tinha como convidada de honra a Alemanha, convidou-me para lá ir (com tudo pago) e traçou-me um programa fantástico, intelectual e social, do qual, se bem se lembram os que lêem este blogue há muito tempo, fez parte uma mesa redonda inaugural com Vargas Llosa e Herta Müller (um luxo). Na altura, tive uma reunião em que, de forma delicada, me pediram que fizesse lobby para que Portugal pudesse ser o convidado de honra da feira dois anos mais tarde, mas, infelizmente, era mesmo um dos piores períodos da crise, com a Troika e o FMI a chupar-nos até ao tutano, e o pouco que disse elogiando a feira (sem fazer favor nenhum, porque é um magnífico certame à roda da literatura) não serviu de grande coisa (quando não há dinheiro não há vícios). Porém, os tempos estão melhores agora – e em 2018 Portugal vai ser finalmente o convidado de honra da Feira do Livro de Guadalajara. Portugal e o México já assinaram o convénio em finais de Julho na belíssima biblioteca do Palácio da Ajuda (se puderem, visitem-na porque vale a pena), o director da feira, Raúl Padilla, esteve em Portugal, e Manuela Júdice, secretária-geral da Casa da América Latina, será a comissária responsável pelo programa e respectivos convidados. Fico contente com a iniciativa e espero sinceramente que deste acontecimento possa surgir um estreitamento das relações entre as literaturas portuguesa e mexicana.

05
Set17

Sempre a subir

Maria do Rosário Pedreira

Livro sensação da última Feira do Livro de Frankfurt, o romance do italiano Paolo Cognetti intitulado As Oito Montanhas acabou por ser vendido rapidamente para mais de trinta países, incluindo Portugal. É uma história de amizade improvável entre Bruno, um rapaz da montanha que guarda rebanhos para um tio bruto (como, de resto, o pai, a mãe e os primos, todos brutos como a rocha), e Pietro, um menino da cidade, filho único, com um pai de personalidade bastante difícil que venera as montanhas e teima em subi-las todos os verões, arrastando para isso mulher e filho. Com personagens muito bem desenhadas, nunca a duas dimensões (e como seria fácil tender para a caricatura num ambiente atrasado como o que nos é dado ver na aldeia de Grana, onde se passa a história), este romance é mesmo sempre a subir, como uma montanha que é preciso ir escalando até se perceber por que motivo certas pessoas são como são (o pai de Pietro, por exemplo, ou mesmo Bruno, que desce uma única vez à cidade grande para ver como é). Hino à amizade, mas nada óbvio no tratamento do tema e tudo menos lamechas, é uma obra com qualquer coisa de clássico que, acredito, veio para ficar.

 

04
Set17

Regresso

Maria do Rosário Pedreira

Olá, espero que tenham tido umas boas férias. As minhas passaram, como sempre, a voar (e, claro, manchadas com tantas tragédias, atentados e catástrofes naturais); mas está na hora de voltar ao trabalho e enfrentar a rentrée, por isso cá estamos. Hoje seria o dia de vos dizer o que ando a ler, bem sei, mas poderei deixar isso para amanhã, porque prefiro dizer-vos o que ando a ver. Ou, na verdade, o que devem ir ver os leitores do Horas Extraordinárias. Trata-se de um filme de Joaquim Leitão, produzido por Tino Navarro e baseado no romance Índice Médio de Felicidade, de David Machado, que ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura em 2015 e foi já traduzido para várias línguas, incluindo o inglês. David Machado é, de resto, um dos autores do guião (nestas coisas, é sempre bom saber que o autor não deixou o barco à deriva), trabalho em que teve também a companhia de Tiago R. Santos, um reputado guionista português e também autor de um romance. Assim, tenham ou não lido o livro, sugiro que vão ver o filme um dia destes. Deixo-vos o link do trailer para aguçar o apetite. Até amanhã.

 

https://www.youtube.com/watch?v=pCAooqwEMfI

 

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