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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Jan18

Empréstimos

Maria do Rosário Pedreira

As bibliotecas emprestam livros desde sempre a quem os queira levar para casa e devolver no fim da leitura (dantes, quem se atrasava pagava multa e quem não devolvia nunca mais podia pedir livros); mas é mais raro, digo eu, alguém emprestar livros seus a uma biblioteca, trazê-los de casa e deixá-los nas estantes para quem se interessar. É o que faz, porém, várias vezes o físico e grande divulgador de ciência Carlos Fiolhais em relação à Biblioteca Rómulo de Carvalho, na Universidade de Coimbra, uma biblioteca especializada em livros de ciência onde, segundo leio, não há espaço para manuais, mas obras que abordem a ciência de qualquer perspectiva, incluindo BD, ficção científica e, dado o patrono, até poesia! Carlos Fiolhais é um homem da Universidade, claro, mas é uma figura que ama os livros (pintava muito bem em jovem e, com o prémio de pintura que ganhou, comprou… livros!) e tem muitas histórias fascinantes para contar sobre essa sua paixão. Leia-se, pois, esta entrevista de Vera Novais que não se pode perder. Como quem deixa um livro novo na estante, aqui fica o link.

 

http://observador.pt/especiais/carlos-fiolhais-fiquei-preso-na-gruta-de-mira-de-aire-parece-que-estamos-sepultados-vivos/

 

30
Jan18

Ainda as mulheres

Maria do Rosário Pedreira

Por causa de um trabalho que estou a fazer, tenho descoberto uma data de coisas sobre escritoras portuguesas que desconhecia, sobretudo aquelas que escreveram numa altura em que a maioria das mulheres era analfabeta, e cuja «obra» (quase sempre manuscrita, não publicada) ficou frequentemente no espólio da família ao longo de gerações e só acabou por «transbordar» para o público quando os estudos literários resolveram remexer em caves e arquivos e desencantar cartas, diários e outros documentos muito interessantes. Na sequência desta investigação, descobri igualmente um site muito interessante, da responsabilidade da Faculdade de Letras de Lisboa, dedicado às escritoras portuguesas anteriores a 1900, entendendo-se aqui «escritoras» e «portuguesas» no seu sentido mais amplo. Na pesquisa por nome, aparece a identificação da senhora em causa (naturalidade, filiação, datas de nascimento e morte), seguida da informação sobre o que escreveu e o que se escreveu sobre ela. Não raras vezes, a bibliografia própria é bem mais reduzida do que a passiva – veja-se o caso de Francisca Possolo da Costa (ou «Francília, Pastora do Tejo», seu pseudónimo), por exemplo, nascida no final do século XVIII. Para quem se interesse, aqui vai o link:

 

http://escritoras-em-portugues.eu/1446822572-HOMEPT

 

29
Jan18

Mulheres em alta

Maria do Rosário Pedreira

As mulheres estão em alta. Há mais mulheres licenciadas todos os anos em Portugal e mais mulheres do que homens nas universidades portuguesas. Nos EUA, as mulheres resolveram queixar-se dos homens e tramaram muitos deles para o resto da vida. No Reino Unido, as mulheres escritoras dominam o Top de vendas. A principal responsável é a TV, por causa das séries baseadas nos livros de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale e Alias Grace; mas, nos restantes oito lugares do Top 10, só existe um homem, Murakami. Fazem parte da lista A Serpente do Essex, de Sarah Perry, dois livros (um romance e uma colectânea de poemas) de Helen Dunmore (o facto de ter morrido recentemente não deve ser estranho ao aumento da procura, é um clássico); a eterna Elena Ferrante, Naomi Alderman (que ganhou o prémio de ficção escrita por mulheres com The Power) e ainda Ali Smith, Zadie Smith, Maggie O’Farrell e Arundhati Roy. Nem o Prémio Nobel entregue em Outubro a Kazuo Ishiguro ajudou o sexo masculino desta vez… Talvez tenha começado uma era das mulheres. Nunca se sabe.

 

P.S. Porque já tinha avisado, os comentários que considerei ofensivos e disparatados foram eliminados. Perdoem-me os que comentaram esses comentários e que também desapareceram, mas não fazia sentido deixá-los.

26
Jan18

Premiado

Maria do Rosário Pedreira

Às  vezes nem sabemos bem dizer porque simpatizamos com determinado jornalista – e não só pelo que escreve, mas pela pessoa de carne e osso. Conheço mal Nuno Pacheco – e creio ter-me cruzado com ele ao vivo pela primeira vez nas exéquias de Eduardo Prado Coelho; depois disso, sobretudo em concertos de fado – e poucos. Mas leio sempre o que escreve – e não só normalmente concordo com as suas escolhas, como gosto de o ver aguerridamente ocupar o vazio deixado por Vasco Graça Moura na polémica sobre o Acordo Ortográfico. Ora, diz-me a Sociedade Portuguesa de Autores na sua newsletter que decidiu atribuir o seu Prémio de Jornalismo Cultural este ano a Nuno Pacheco, jornalista do Público desde a fundação e que há anos escreve sobre música portuguesa e brasileira, acompanhando o nascimento de novos talentos e os talentos já instalados. Este prémio foi entregue pela primeira vez no ano passado ao director da Antena 2, João Almeida. Parabéns, Nuno Pacheco. Gosto de saber que foi premiado.

25
Jan18

Ler Saramago no Chiado

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se têm isto bem presente, mas este é o ano em que se comemora o vigésimo aniversário da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. A editora do mestre (com a colaboração da Fundação José Saramago, certamente) tem previstas várias celebrações e actividades ao longo de 2018, mas hoje à tarde o Ler no Chiado vai dedicar-se inteiramente ao nosso (único) escritor laureado. Na Bertrand do Chiado, como de costume às 18h30, Anabela Mota Ribeiro vai falar com Pilar del Río, a viúva, e José Carlos Vasconcelos, um jornalista que acompanhou o percurso do escritor do início ao fim, tomando como pretexto o livro lançado há uns meses na FLIP, no Brasil, e recentemente também em Portugal, sobre a grande amizade que uniu Saramago e Jorge Amado e que se traduz numa correspondência... «com o mar pelo meio». Se quer saber tudo sobre este par de escritores e não tem planos para esta tarde, não falte.

24
Jan18

Os homens preferem as louras

Maria do Rosário Pedreira

Há uns tempos, Lobo Antunes acusou Pessoa de ter «fornicado» pouco... Na verdade, até há pouquíssimo tempo, a única mulher que se lhe conhecia era Ofélia Queiroz (da família do poeta Carlos Queiroz), que tinha 19 anos quando Fernando se apaixonou por ela, sendo ele bastante mais velho (32, parece-me). A paixão foi clara, basta ler as cartas que estão há muito publicadas, nas quais o grande poeta desce ao domínio dos mortais e se torna quase um adolescente embasbacado e «ridículo» (como as «cartas de amor» de Álvaro de Campos). Depois de cerca de oito meses de namoro, a relação terminou; e, nove anos mais tarde, houve ainda uns meses em que namoricaram. E foi tudo quanto a amores na vida do génio... Ou parecia. José Blanco e o poeta espanhol Ángel Crespo insistiram em que havia outra, por causa de uns poemas escritos mais para o final da vida do poeta que mencionam uma loura, mas nunca conseguiram chegar a um nome; e, por mero acaso, o historiador José Barreto (que se interessa mais pelo lado filosófico do autor) encontrou duas cartas e somou dois mais dois, revelando que afinal a loira era real. Trata-se de uma inglesa a quem Fernando chamava Madge (Margaret Anderson) e era irmã de uma sua cunhada (além de mais tarde se ter tornado uma decifradora de códigos secretos durante a Segunda Guerra Mundial). Um artigo de Rita Cipriano recentemente publicado no Observador conta tudo, mas o melhor mesmo é ir à revista Pessoa Plural, em que Barreto explica como chegou lá.

23
Jan18

Parem os relógios

Maria do Rosário Pedreira

Aos trinta e seis anos, a professora de literatura Helena Remington apaixona-se por um italiano de visita a Lisboa. O romance entre os dois é, porém, abruptamente interrompido por um acidente de automóvel na costa italiana, onde ambos passavam férias. Decorridos vinte anos sem notícias de Fabrizio, Helena recebe uma carta da filha dele com um pedido urgente. Para o satisfazer, terá de lançar-se na mais arriscada aventura da sua vida, envolvendo-se com gente perigosa numa autêntica corrida contra o tempo. Muitos anos mais tarde, Carlos – o sobrinho-neto preferido de Helena – conhece Francesca, uma rapariga italiana... Este é só o princípio de Parem Todos os Relógios, de Nuno Amado, um romance que foi finalista do Prémio LeYa e acaba de sair para os escaparates. Na quinta-feira estaremos a falar dele na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz às 21h30. No dia 31 acontecerá o lançamento em Lisboa, na Livraria Buchholz, às 18h30, com apresentação de Luísa Mellid-Franco. Esteja onde estiver, leia.

 

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22
Jan18

Nervosíssimos

Maria do Rosário Pedreira

No último dia 12, saiu uma nova revista chamada Nervo – Colectivo de poesia, que vai ser publicada três vezes por ano, em Janeiro, Maio e Setembro, para ficarmos nervosíssimos enquanto esperamos pelo próximo número. O seu objectivo é divulgar a poesia contemporânea, cruzando autores de várias gerações sem os hierarquizar e mostrando o que alguns andam a escrever, combinando estilos distintos e linguagens poéticas pessoais numa revista colectiva. (A Nervo projecta ainda a descoberta de novas vozes e recebe naturalmente textos para avaliação e eventual publicação.) Além dos poetas portugueses, haverá uma secção de poesia de autores estrangeiros (dos PALOP e de outros sítios), estando, neste primeiro número, representados os seguintes países: Brasil, Moçambique, Costa Rica, Índia e Eslováquia. Mais informações no link abaixo:

nervo.colectivodepoesia@gmail.com

19
Jan18

Com ou sem história

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado, o programa da Câmara de Lisboa que classifica alguns estabelecimentos da capital como estabelecimentos com história (desde luvarias a lojas de velas e  ferragens) passou a incluir a Livraria Aillaud & Lellos, na movimentada Rua do Carmo, aberta ao público desde 1931 e com clientes certos há décadas – sobretudo desde que o comércio de livros se massificou e, com ele, se deteriorou o atendimento ao público. Mas, como já tinha infelizmente acontecido com a Livraria Portugal (e Pacheco Pereira escreveu na altura sobre o assunto um belo artigo), a Aillaud & Lellos fechou portas no dia 29 de Dezembro de 2017, mesmo sendo uma «loja com história», porque não era simplesmente possível suportar o aumento da renda… Pois bem, acabo de saber que fechou também a Livraria Bulhosa do Centro Comercial das Amoreiras e caíram-me os queixos, pois tinha ideia de que era um estabelecimento que vendia muitos livros e dava dinheiro aos proprietários (talvez a renda tenha também aumentado para lá do imaginável, já não digo nada). Com ou sem história, a verdade é que as livrarias estão todas a fechar. Dizem-me que as FNAC estão já a pensar vender electrodomésticos grandes, máquinas de lavar e frigoríficos... Para onde irão os livros quando isso acontecer?

 

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18
Jan18

Ricos e pobres

Maria do Rosário Pedreira

Estamos sempre a ler que o fosso entre ricos e pobres está cada vez maior – e que oito ou nove pessoas no mundo têm o mesmo que todas as outras juntas. Uma situação terrível, claro, mas que tem bases muito antigas… Digo isto por causa de uma notícia deliciosa sobre a recente aquisição de uma lista de compras da rainha Carlota Joaquina, mulher de D. João VI, para o espólio do Palácio Nacional de Queluz. A lista de coisas a comprar em Paris para a família real (ao que parece orientada pela baronesa Ardisson, uma vez que os reis estão no Brasil por causa das Invasões Francesas) inclui roupa, calçado, jóias e acessórios de moda (meias, luvas, etc.) nos mais importantes retalhistas parisienses e tem… não se riam… 71 páginas! Só lenços de mão são para cima de 500, sem esquecer os milhentos leques em marfim, que no Brasil farão certamente falta à rainha para se abanar a toda a hora, dado o calor. Em 1816 – data da lista de compras – o fosso entre pobres e ricos, digo eu, também era grandinho… O rol manuscrito fazia parte de uma colecção privada inglesa e foi leiloado pela famosa Sotheby’s. Não faço ideia de quanto custou, mas talvez menos do que as compras de Carlota Joaquina…

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