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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Mar18

Leituras atrasadas

Maria do Rosário Pedreira

Compro todos os dias o jornal e passo os olhos pelas gordas quando chego à editora; mas só leio o que me interessa mais tarde – por vezes, muitíssimo mais tarde. O artigo que hoje trago para aqui, por exemplo, é de 5 de Março e foi escrito na edição do 28.º aniversário do Público por Isabel Lucas – mas, por “faltíssima” de tempo, só o li com a devida atenção na sexta-feira passada. Diz-nos como a literatura escreveu o presente nos últimos 28 anos – e a verdade é que, sempre que se tratou do trágico e do horrível, ela sentiu antes de tudo necessidade de calar – e só depois, feito o presente passado, começaram a sair os livros sobre as coisas tremendas, magoadas, inesquecíveis. Houve excepções, mas poucas, e houve também estranhas coincidências, como a de livros que pareciam prenunciar um mal que nem se sabia que aí vinha. O artigo refere, claro, o 11 de Setembro, o Katrina, a guerra do Iraque, o ataque com gás sarin no metro de Tóquio... Fala, por isso, de Don DeLillo, Jonathan Safran Foer, Laurent Gaudé, Murakami e muitos mais. Mas o melhor é lerem, pois vale mesmo a pena esta maneira de olhar para trás e ao mesmo tempo adivinhar o que por aí virá... em literatura. Obrigada, Isabel.

28
Mar18

Não é só cá

Maria do Rosário Pedreira

Não, não é só cá... Aqui há tempos, li já não sei em que jornal que, pela primeira vez em décadas, o Reino Unido, que sempre tinha tido altos índices de leitura, perdera muitíssimos leitores de ficção literária – e perdera-os para os smartphones... Aqui a coisa não anda melhor, não só pelas rendas impossíveis de pagar pelos livreiros (o lado negro do turismo) que fazem fechar muitas livrarias, mesmo as históricas, mas também por um tempo veloz que afasta as pessoas de uma leitura mais lenta e as atira para os seus telefones, onde se sucedem mensagens curtinhas que não obrigam a grande discernimento. (Leio no Público de sexta-feira passada : "Só 0,8% não tem telemóvel; enviam, em média, 93 SMS e fazem 27 minutos de chamadas por dia. Estes são os números sobre a utilização do telemóvel reportados por jovens entre os 15 e os 22 anos, inquiridos no âmbito do projecto Faqtos. Já o acesso à Internet e às redes sociais no telemóvel quadruplicou em seis anos.") Será talvez pela diminuição do número de leitores de livros que no Reino Unido, segundo leio no The Guardian, o condado de Northampton quer fechar 21 das suas 36 bibliotecas? Chi, e ainda pretende reduzir o horário das que ficam abertas? O governo diz que vai provavelmente interferir (haja alguém), até porque a média europeia é de uma biblioteca para 16.000 leitores e em Northampton ficaria uma biblioteca para 60.000. Mas, com ajuda do Estado ou não, a médio prazo haverá mesmo leitores suficientes a frequentá-las?

27
Mar18

No jardim de infância

Maria do Rosário Pedreira

Não vou dizer nada que não se saiba já, mas não custa insistir numa coisa com que todos os que lêem este blogue (bem, quase todos) se preocupam: o insucesso escolar relacionado com a falta de hábitos de leitura. O Instituto Politécnico do Porto desenvolve, desde 2015, um projeto com cerca de mil crianças de quatro agrupamentos escolares, tendo verificado que as atividades de leitura no jardim de infância diminuem em 50% o risco de dificuldades de aprendizagem no primeiro ano de escolaridade (a antiga primeira classe). O projecto foi criado para prevenir “percursos de insucesso precoce” e algumas das variantes avaliadas nas crianças, concluído o jardim de infância, são a linguagem e a consciência cronológica. As que são então sinalizadas como “em risco” podem beneficiar de uma intervenção ao longo de mais um ano com vista à diminuição das dificuldades na leitura e na escrita, que as penalizariam logo no início do seu percurso escolar. As que não apresentam riscos no final do Jardim de Infância são, habitualmente, as que têm competências a que o artigo chama “pré-leitoras adequadas a um percurso de sucesso escolar”, ou seja, as que leram livros ou ouviram histórias apropriadas e trabalharam a cronologia numa história. Razão de sobra para promover a leitura entre os mais pequeninos.

 

26
Mar18

Mestiçagem

Maria do Rosário Pedreira

Acho que os portugueses sempre gostaram de misturas em termos musicais – existe, de resto, uma teoria, assente em argumentos de peso, de que o nosso fado vem de uma modinha brasileira tocada ao piano que a Corte (que partira com D. João VI) terá trazido com ela ao regressar ao Reino – e depois se transformou noutra coisa. Pois bem, seja ou não assim, a verdade é que se fazem muito boas músicas em Portugal cruzando fado e música brasileira (no caso, bossa nova); e, embora o tema do blogue não tenha a ver com música, a verdade é que fui convidada para fazer uma letra para o álbum Moça Morena, do colectivo RioLisboa (Bruno Fonseca é o compositor dessa música e o principal impulsionador do projecto), no qual participam vozes mais fadistais e mais brasileiras (todas de mulheres: Sandra Correia, Luanda Cozetti, Rute Soares, Teté Alhinho, Ana Margarida e Mili Vizcaíno). Na quarta-feira passada, havia um espectáculo de lançamento do álbum no B.Leza às 22h00 e eu estava mortinha por ir. Infelizmente, atacou-me a meio do dia um desses vírus que nos fazem perder uns quilos numa noite (uso este eufemismo para não ser muito gráfica) e restou-me ouvir o CD quando melhorei. Ainda o ouço. Ouçam também, que vale muito a pena. Obrigada, Bruno, pelo convite.

23
Mar18

Outro sítio no mesmo sítio

Maria do Rosário Pedreira

Os Portugueses, ao que leio e ouço, gostam de entupir as urgências dos hospitais com casos que poderiam, na grande maioria das vezes, ser resolvidos por telefone (há um número para isso e, segundo sei, até é bastante eficaz) ou, quando muito, nos respectivos Centros de Saúde. Mas este não é assunto para um blogue de livros e apenas me lembrei dele a propósito de um e-mail que recebi recentemente da Casa Fernando Pessoa. Sim, recebo uma newsletter da casa do poeta regularmente, com a programação semanal ou mensal e as várias actividades, mas desta vez tratava-se tão-só de me avisarem que o site da Casa (ou sítio, se preferirem), apesar de continuar na morada de sempre, era já outro. Fui espiolhar e aconselho quem se interesse a fazer a mesmíssima coisa, mas não são as mudanças (algumas de pormenor) que aqui me trazem hoje. É que, nesse anúncio sobre o novo look, dizia-se ainda: «Visite-nos antes de nos visitar.» Será que, com esta onda de turismo lisboeta, aparecem chusmas de visitantes de todas as partes do mundo que é preciso travar, como acontece nas urgências dos hospitais?...

22
Mar18

Eliot a preço módico

Maria do Rosário Pedreira

Ontem foi Dia da Poesia e eu continuo num estado de espírito poético. Até porque recebo uma newsletter da belíssima editora britânica Faber&Faber que fala do assunto e tem, aliás, como teaser «See Jeremy Irons read T. S. Eliot»… Oh, quem me dera viver em Londres ou estar lá no dia 9 de Abril, às 7,30 pm (9 de Abril é também o centenário da data da Batalha de La Lys, se não estou em erro, e isso serve-me de desculpa para ficar em Portugal). O preço da leitura é para membros da Faber (não sei se por receber a newsletter me posso considerar tal coisa), mas é curiosamente barato (9,60 libras) tendo em conta três coisas: a primeira é que qualquer espectáculo em Londres costuma ser uma fortuna – só para terem uma ideia, uma entrada para uma dessaas óperas pop (Miss Saigão, Os Miseráveis…) pode custar 65 libras ou mais; em segundo lugar, porque Irons é Irons e Eliot é Eliot! Em terceiro lugar, porque o Eliot que vai ser lido são os Quatro Quartetos, caramba! Mas isto, claro, só entende quem gosta de poesia, e de Eliot, e dos Quatro Quartetos. Porque de Iron quase de certeza que os Extraordinários todos gostam. Amanhã, prometo falar de outro assunto que não seja poesia, pronto.

21
Mar18

Viva a poesia!

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é Dia Mundial da Poesia! E aconselho os Extraordinários, mesmo os mais renitentes, a começarem o dia com um belo poema, pois garanto-vos que faz bem à alma (e melhor aos ouvidos que certas musicatas). Lisboa e o resto do País estão hoje cheios de actividades em torno da poesia, e a Casa Fernando Pessoa organiza, como noutros anos, uma Feira do Livro da Poesia em Campo d’Ourique, no Jardim da Parada, onde, além da venda de livros, haverá concertos e leituras de poemas, algumas das quais feitas por alunos da Universidade Sénior do bairro. Na casa do poeta maior, à Rua Coelho da Rocha, inaugurar-se-á também uma exposição sobre o poeta Camilo Pessanha (leiam este autor!), com curadoria de Pedro Barreiros e a grande Maria do Céu Guerra a ler poemas. No mesmo local, às 21h00, num espectáculo que dá pelo nome de Tabacaria, António Fonseca e seus convidados farão leituras encenadas em português e em crioulo de Cabo Verde do poema do mestre (julgo eu pelo título da sessão). E nos dias que se seguem haverá muito mais. Eu, também por causa da poesia que fiz para uma música de Bruno Fonseca para o CD Moça Morena, do projecto Rio-Lisboa, vou estar neste dia no B.Leleza a ouvir cantar poemas com misto de fado e bossa nova por muitas e belas vozes lusófonas! Leiam poesia. Ou ouçam-na.

20
Mar18

Cadáveres às costas

Maria do Rosário Pedreira

Após a morte do pai, um jovem abandona o curso de Direito e aluga um pequeno apartamento no sótão de um palacete de Lisboa, com o fito de escrever um romance. Aí vive a família Peralta Perestrêllo, cuja matriarca centenária – D. Consolação, há muito acamada – é visitada no dia 13 de Maio de 2017 pela aparição da irmã Lúcia, após o que consegue erguer-se e dar uns passinhos. Filho, nora e netos ficam hesitantes quanto a acreditar no suposto milagre; mas cada um a seu modo (e também a Igreja, chamada imediatamente para avaliar a situação) descobre como retirar dividendos do episódio – o mesmo acontecendo, aliás, com o jovem escritor que, sem ideias para o seu romance de estreia, tem subitamente um filão ao dispor, para não falar do seu interesse pela neta mais nova da miraculada… Porém, entre as aparições, a depressão da mãe viúva, a história secular do palacete e o passado e presente dos membros da família Peralta, chegará a escrever uma página que seja? Cheio de humor (mas também de crítica e até de alguma verrina), Cadáveres às Costas é um romance admirável sobre Portugal (e a mentalidade portuguesa) que, apesar do século XXI, ainda não conseguiu curar-se de muitas das feridas do passado. À venda a partir de hoje.

 

frente capa_Cadáveres às Costas.jpg

 

 

19
Mar18

Anti-biblioteca

Maria do Rosário Pedreira

Pouco tempo depois da morte de Eduardo Prado Coelho, a Casa Fernando Pessoa organizou uma homenagem ao crítico e professor, em que amigos, conhecidos e admiradores liam excertos ou pequenos textos da sua autoria. Na ocasião, escolhi uma crónica que tinha que ver com o facto de uma biblioteca só ser realmente uma coisa interessante quando existem nela tantos livros não lidos como livros lidos. (Se pensarmos bem, os livros lidos que não sejam obras de consulta são, afinal, os mais inúteis que lá estão…) Foi também esta ideia que encontrei recentemente num artigo de Jessica Stillman sobre o facto de nunca nos devermos sentir culpados por nas nossas estantes haver tantos volumes não lidos. A autora do artigo cita, de resto,  o autor e estatístico Nassim Nicholas Taleb, que chama ao conjunto destes livros não lidos uma «anti-biblioteca» e diz que todos precisamos de uma para nos lembrar constantemente de tudo o que ainda não sabemos (Umberto Eco também dizia isto). A anti-biblioteca, ao que parece, vai crescendo com a idade do dono e, quanto mais conhecimentos este adquire, mais livros não lidos acumulará. Às tantas, esses livros não lidos (tantos, tantos) vão parecer até ameaçadores, mas o melhor é não nos sentirmos culpados, porque a nossa biblioteca, segundo o artigo, nunca deve ser um mostruário do que lemos que acene aos outros a nossa cultura, mas um repositório daquilo que em algum momento nos despertou curiosidade e interesse e quisemos – ou ainda queremos – saber. Gosto da ideia.

16
Mar18

Pau de dois bicos

Maria do Rosário Pedreira

Estive recentemente no Luxemburgo para participar numa espécie de entrevista ao vivo no Salão do Livro (o jornalista era José Luís Correia, que fez belas perguntas) e ir a uma escola falar com crianças portuguesas. Já tinha lá estado uma vez, há uma dezena de anos, e chegara à mesma conclusão: os meninos e meninas nascidos já no Luxemburgo falam um português excelente, o que não acontece, por exemplo, com os filhos de imigrantes portugueses em França ou na Alemanha, que comunicam na língua do país de adopção e cujo português (talvez seja o que ouvem aos pais) está já francamente aculturado. Noutra entrevista que me fizeram para a rádio, mencionei esta ligação das crianças às suas raízes e à língua materna num tom francamente elogioso. Porém, num encontro com um deputado eleito pelos portugueses residentes na Europa, a quem disse exactamente o mesmo, ele tirou-me a venda dos olhos: disse-me que, em muitos casos, o facto de  falarem o português sem interferências (do luxemburguês, do alemão, do francês) significava, infelizmente, que a integração não se tinha feito... Um pau de dois bicos, portanto.

 

 

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