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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Mar18

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Maria do Rosário Pedreira

As livrarias independentes vão à falência porque a maioria dos leitores, não nos iludamos, prefere comprar online ou nas grandes cadeias. Mas são frequentemente esses leitores que lá não vão que choram publicamente o fecho das lojas (com os cinemas de bairro aconteceu o mesmo). Vem isto, embora não pareça, a propósito de um artigo assinado por Felisbela Lopes, professora universitária e comentadora, no Jornal de Notícias sobre a impossibilidade de encontrar à venda um bom livro para crianças (ou mais). Ora, se existe área ou faixa etária em que o desenvolvimento editorial é notório nos últimos anos é justamente a literatura infanto-juvenil, com títulos e editoras premiados internacionalmente em festivais e uma produção com uma qualidade incrível, seja em termos de texto, seja em termos de ilustração, em que muitos nomes se destacam (Catarina Sobral, Madalena Matoso, Paulo Galindro, André Letria, o meu querido João Fazenda, tantos, mas tantos). A especialista Ana Margarida Ramos, da Universidade de Aveiro, já disse com todas as letras que os portugueses são todos treinadores de bancada e agora também especialistas em literatura infantil e que, quando os comentadores falam do que não sabem, as mais das vezes só revelam a própria ignorância. É isso aí, mas apetece-me acrescentar que, em vez de hipermercados, talvez as pessoas que procuram bons livros infantis devessem frequentar livrarias a sério em vez de fazer comentários parvos.

14
Mar18

Método de escrita

Maria do Rosário Pedreira

Os que escrevem livros e participam em encontros com leitores nunca se escapam de responder a meia dúzia de perguntas recorrentes. Se se trata de um autor de literatura infanto-juvenil, eu avançaria, por experiência própria, que as questões mais frequentes dos miúdos se prendem com a chatíssima... «inspiração». «Donde retira a inspiração para os seus livros?», «Donde lhe vêm as ideias?», «Onde se baseia para escrever as suas histórias?» e outras perguntas do género estão invariavelmente presentes nas sessões que se realizam nas escolas (e, para que fiquem a par os Extraordinários, já nenhum miúdo sabe o que é a «massa cinzenta» quando é essa a resposta; agora é preciso dizer que tiramos os argumentos da nossa própria cabeça). Mas, se o escritor se dedica ao romance literário para gente crescida, também há sempre alguém no público que, na hora de interpelar o convidado, o interroga sobre o seu «método» quando, na maioria das vezes, a literatura obedece a tudo menos regras. Pois bem, nas últimas Correntes d’Escritas, contou-se numa das mesas que Antonio Skarmeta, o chileno que escreveu O Carteiro de Pablo Neruda, estava num festival literário e, na assistência, alguém quis saber qual era o seu método de escrita. Depois de pensar um nadinha, Skarmeta respondeu: «Amigo, eu não sou ornitólogo, eu sou pássaro. Não analiso, voo.» Uma resposta que só podia vir de um escritor.

13
Mar18

Na Madeira

Maria do Rosário Pedreira

Hoje começa o Festival Literário da Madeira – e tomara que o tempo ajude, pois no ano passado a pobre Svetlana que ganhou o Nobel da Literatura não conseguiu chegar ao destino, mesmo tendo tentado aterrar no arquipélago três vezes… O tema desta vez é «Jornalismo e Literatura – Palavra que prende, palavra que liberta» e, de hoje até dia 17, o Teatro Municipal Baltazar Dias vai receber o público interessado para conversas variadas com convidados de luxo: Daniel Alarcón, Ricardo Araújo Pereira, Benjamin Moser (biógrafo de Lispector), José Luís Peixoto, Frei Bento Domingues, Clara Ferreira Alves, Javier Cercas, Esther Mucznick e muitos outros, portugueses e estrangeiros. Discutir-se-ão temas sempre actuais que têm por mote frases de grandes escritores (a de Philip Roth é «Compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida») e haverá apresentações de livros. No dia 16, pelas 21h30, a fadista Aldina Duarte apresentará o seu mais recente álbum Quando Se Ama Loucamente, inspirado na obra da escritora Maria Gabriela Llansol. Eu até lá dava um saltinho… mas infelizmente não posso.

12
Mar18

Inventar de novo (ou de velho?)

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes, leio originais que me enviam e que não são bons nem maus – que não acrescentam nada mas não são igualmente cópias de coisa nenhuma. Digo que são textos que não chegam a ter um estilo, mas se calhar não é bem isso. Recentemente, um concorrente ao Festival da Canção foi acusado de plagiar uma canção da IURD (vi fotos do rapaz e achei que dificilmente ele escutaria um hino religioso) e, realmente, quem ouviu as duas músicas achou-as iguaizinhas. O concorrente negou o plágio, mas achou melhor retirar-se da prova. No meio da celeuma, li um trecho do cantor e compositor (e pastor) Samuel Úria em defesa do cantor desistente, que me pareceu muito interessante e apropriado; dizia assim: «Fazer uma canção, e querê-la acessível a públicos abrangentes, é um exercício de inventarmos aquilo que já nos parece existente (...) O objectivo é criar uma coisa nova que soa a familiar e de sempre. Por isso mesmo, resvala-se com relativa facilidade; qualquer escritor de canções já “inventou” melodias que mais tarde veio a descobrir, ou a lembrar-se, que existiam previamente.» Depois de ter lido isto, pensei que de facto acontece o mesmo com esses livros de que falei no início – os seus autores, sem saberem, inventam o que já estava inventado.

09
Mar18

Pérolas

Maria do Rosário Pedreira

Cada vez vou menos ao Facebook. Não tenho muito tempo, é verdade, até porque agora aproveito todos os bocadinhos para ler livros que tenho em atraso e escrever; mas não nego também que ao princípio lhe achava mais graça e ficava quantas vezes a noite inteira a ver o que escreviam os supostos amigos. Tal como me cansei do Sudoku e do Solitaire (às tantas, percebi que não iria muito mais longe e perdi o interesse), agora também o Facebook me dá menos do que gostaria e passo lá pouco tempo. Ainda assim, no meio da porcaria, ainda se descobrem lá algumas pérolas. Deixo-vos com esta, que é de Jô Soares e muito certeira: “Gente falsa não fala, insinua. Não conversa, gera intriga. Não elogia, adula. Não deseja, cobiça. Não colabora, interfere. Não participa, se infiltra. Não sorri, mostra os dentes. Não caminha, rasteja pela vida sabotando a felicidade alheia e sobrevivendo de seus restos.” Bom fim-de-semana.

 

08
Mar18

Húmus II

Maria do Rosário Pedreira

Hoje começa em Guimarães mais uma edição, a segunda, do Festival Húmus (que se iniciou no ano passado), que decorrerá até ao dia 12. Desta feita – seguindo, de resto, o ar do tempo (involuntariamente ou não) – o programa é dedicado às mulheres, «mulheres reais, que ajudaram a mudar a história do País, como Mumadona Dias, D. Maria II ou Sophia de Mello Breyner Andresen, desde os alvores da nacionalidade à queda da ditadura, mas também às mulheres da ficção, personagens que moldam o nosso património literário e cuja intensidade de carácter as fez sair das páginas dos livros para o imaginário nacional. Blimunda, Quina ou a Condessa de Gouvarinho [...]». O festival nasceu no âmbito da celebração dos 150 anos do nascimento de Raul Brandão (para quem não saiba, Húmus é a sua obra-prima) e vai destacar, também por isso, Maria Angelina, companheira do escritor. Entre outros, participarão Maria Antónia Palla, Miguel Real, Isabel Pires de Lima, Dulce Maria Cardoso, Isabel Rio Novo, Carla Maia de Ameida, Filipa Melo e Cristina Branco. Não falte.

07
Mar18

Livraria Solidária

Maria do Rosário Pedreira

Na sexta-feira dia 23 de Fevereiro inaugurou-se em Carnide a Livraria Solidária num espaço arrendado à Santa Casa da Misericórdia por uma associação sem fins lucrativos chamada Boutique Cultura. Trata-se de uma vivenda na qual, além da dita livraria, há espaço para outros projectos culturais e de promoção da leitura que poderão beneficiar do dinheiro da venda dos livros (que foram doados não percebi bem por quem, mas no futuro até podemos ser nós, os Extraordinários, que temos de certeza livros a mais que já não cabem lá em casa, a doá-los). Os livros custam entre 1 e 5 euros e, portanto, vale bem a pena ir lá dar uma espreitadela. Outra actividade associada que a Boutique pretende desenvolver é a leitura ao domicílio, não apenas a idosos com a vista muito cansada, mas a pessoas da freguesia que tenham alguma incapacidade temporária ou crianças que não vivam com pessoas alfabetizadas. Está também projectada uma sessão de leitura de contos em lugares insuspeitos (talhos, bancos, etc.) uma noite por mês. Existem já 25 voluntários a receberem formação para várias funções, incluindo a reciclagem de papel, pois pretende-se que os livros mais estragados possam ser transformados em alguma coisa que se possa vender. Os parceiros da Boutique são outras duas associações de Carnide, a Crescer a Cores e a Azimute Radical, e em alguns dos projectos a Santa Casa, a Junta de Freguesia de Carnide, a PSP e a Gebalis.

06
Mar18

Deixar de

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes ouvi uma pessoa que eu adorava ouvir cantar (falo de alguém profissional, claro) e, de repente, tive um baque: é que já não cantava mesmo nada e era completamente penoso de ouvir... Não sei se é mais terrível para o artista perceber que já não é capaz de chegar aos tons a que chegava antes, se para quem o ouve e fica a pensar por que raio não se retirou antes de um declínio tão evidente. Claro que muitos artistas precisam de ganhar dinheiro e, portanto, vão aceitando fazer espectáculos, mesmo que a voz esteja muito cansada. Mas também presumo que outros, ainda que não precisem de dinheiro, não consigam ser felizes sem o palco, os concertos, os álbuns, o público. E para um escritor, como será deixar de escrever na idade madura? Menos penoso do que para alguém que canta? Admito que, a partir dos 80, a cabeça já não deva conseguir organizar-se e recordar-se de tudo e que seja muito complicado escrever um bom livro (embora as pessoas não sejam obviamente todas iguais). Philip Roth, por exemplo, anunciou que ia parar de escrever e parou, dedicando-se agora a ler – e a ler também o que ele próprio escreveu. Mas outros escritores anunciaram (ameaçaram?) a paragem e acabaram por voltar. Para a escrita, porém, não há bichinho de palco nem público ao vivo. Porque será mesmo assim tão difícil deixar de...?

05
Mar18

O papel do acaso

Maria do Rosário Pedreira

O acaso, escreve Antonio Muñoz Molina numa interessantíssima crónica do El Pais, é uma espécie de bibliotecário cego e altamente eficiente, que não pára de lhe oferecer novidades surpreendentes às quais nunca teria chegado através do algoritmo da Amazon que, sendo a sua curiosidade “variada e caprichosa”, fica tão confuso com as suas buscas que acaba por sugerir-lhe uma coisa qualquer sem critério e, normalmente, desinteressante. O acaso, por seu turno, nunca se engana – Muñoz Molina chama-lhe um bibliotecário anárquico que não vai na conversa da moda nem obedece a temas actuais e que tem como aliados os quiosques de rua que vendem livros e as livrarias de livros em segunda mão (refere-se a Manhattan, pois é lá que ensina – e conta que os alunos nunca dão por estas preciosidades que custam, no máximo, cinco dólares, pois vão sempre agarrados aos telemóveis). E a seguir diz que, numa feirinha que existe aos sábados na rua lateral à Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, encontrou uma antologia de textos de Michaux numa edição da Gallimard que decidiu comprar e que, embora antes não tivesse qualquer intenção de ler Michaux, o Michaux impôs-se-lhe e mudou o rumo das suas leituras. O mesmo aconteceu com outro livro comprado na rua a caminho da inauguração de uma exposição; chegou atrasadíssimo e viu-a em vinte minutos, a correr, e aborrecido de morte. Mas no regresso a casa, de autocarro, consolou-se com o livrinho que tinha comprado... num desses quiosques do acaso.

02
Mar18

Escrever a vida

Maria do Rosário Pedreira

Costuma dizer-se que há certas vidas que davam livros (mas, no fundo, todas dão). Porém, não se pense que basta uma vida recheada de peripécias para que um livro biográfico seja bom, tal como nem sempre é o enredo, a história, o mais importante num romance. Maria Antónia Oliveira, biógrafa conceituada de Alexande O'Neill, propõe-se dar uma mãozinha a quem queira aprender a escrever uma biografia (sua ou alheia) num curso intitulado Como Se Escreve Uma Vida, que vai acontecer na Livraria Férin em Lisboa. Dividido em quatro sessões, nos dias 6, 7, 13 e 14 de Março, das 18h30 às 21h00, Maria Antónia Oliveira irá explorar «a noção de biografia a partir de uma perspectiva histórica focada no século XX, com algumas incursões à obra de biógrafos fundadores.» De Virginia Woolf a Julian Barnes, e sem esquecer casos portugueses (como o da própria orientadora do curso), a coisa promete. As inscrições terminam no dia 5 deste mês e podem ser feitas através dos endereços oliveiramariaantonia@gmail.com e agenda@ferin.pt. O preço do curso é de 50 euros. Por que espera?