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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Abr18

Nobel adiado?

Maria do Rosário Pedreira

Diz-se para aí que este ano pode não haver Nobel da Literatura… E tudo por causa do assédio sexual, que a Academia não é imune à boçalidade… Pois parece que, na sequência de 18 acusações ao marido de uma senhora que era um dos membros vitalícios do comité Nobel, houve pressões e demissões, entre as quais a da secretária permanente, que, apoiando a amiga vituperada, foi «obrigada» a abandonar o cargo e, portanto, no próximo anúncio veremos outra cara a sair daquela porta que se abre ao meio-dia em ponto, hora portuguesa. Como os membros da Academia são vitalícios, arranjar assim do pé para a mão substitutos de categoria para os demitidos (forçadamente ou não) não vai ser fácil... e a Academia tem de ter, ao que parece, 18 membros para tudo funcionar. O rei, patrono do Nobel, está em cima do acontecimento, evidentemente, e declara que pode mudar excepcionalmente as regras, mas não se exclui mesmo assim a possibilidade de este ano o anúncio do prémio ser mais tarde. Bem, não é a primeira vez que há escândalos em torno do Prémio Nobel (da literatura e não só), mas isso dá-me ideia para um post autónomo que vos apresentarei um destes dias… Até porque hoje devem ser poucos os que não aproveitam a ponte do Primeiro de Maio e estão a ler as Horas Extraordinárias...

27
Abr18

Juntar os vencedores

Maria do Rosário Pedreira

Se entende inglês e pode ir a Londres passar um fim-de-semana grande, escolha, por favor, o período que vai de 6 a 8 de Julho e opte por um hotel, pensão, albergue (o que seja), que fique perto do Southbank Centre. É que é justamente lá e nessas datas que vai ocorrer um festival que reunirá muitos dos vencedores do Man Booker Prize dos últimos quinze anos! Imaginem o que será poder em três dias apenas ouvir Hilary Mantel e Salman Rushdie, Julian Barnes, Peter Carey, Alan Hollinghurst e David Grossman, Deborah Levy e, claro, a mais recente estrela, Paul Beatty! E ainda ver a raríssima aparição de mãe e filha juntas – falo, evidentemente, de Anita e Kiran Desai, duas gerações a ganharem o mesmo prémio. Vai ser preciso comprar as entradas muito antes, que há montes de gente interessada, e é bem possível que os bilhetes para estas sessões custem mais do que o bilhete de avião numa Low Cost; mas poupe-se para estas coisas, que fazem tão bem à alma! O evento culminará com a votação da melhor obra de ficção galardoada com o Booker dos últimos quinze anos (Os Filhos da Meia-Noite já ganharam este prémio no passado) e, de hoje a exactamente um mês, conheceremos os cinco finalistas e podemos ficar a torcer por um deles. O Man Booker Prize faz 50 anos e celebra-os da melhor maneira possível.

26
Abr18

Eu, Salazar

Maria do Rosário Pedreira

«Há algumas figuras assim, sobre as quais já tudo foi dito e sobre as quais está tudo ainda por dizer. Por mais odiado, seguido, idolatrado, contestado e questionado, é o vulto maior da política portuguesa do século XX, pela sua longevidade no palco político e pelo carácter que imprimiu ao imaginário nacional. Ainda hoje, nós portugueses, nos definimos pró ou contra Salazar». É com estas palavras de Nuno Camarneiro que se inicia a folha de sala de um espectáculo acabadinho de estrear (no dia 25 de Abril, como convém!) no Teatrão, Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra. Intitula-se Eu, Salazar, e assinam-no o próprio Nuno Camarneiro e Ricardo Vaz Trindade, ambos filhos assumidos de Abril, mas conscientes de uma pesadíssima herança que a figura em destaque legou ao seu Portugal e a todos nós. Paralelamente a este espectáculo, que estará em cena de quarta a sábado às 21h e aos domingos à tarde até 13 de Maio (mas esperamos que depois faça itinerância pelo País), existe um ciclo de mesas-redondas com conhecidos intervenientes, desde Fernando Rosas a Irene Flunser Pimentel, sobre temas relacionados com o Portugal do Estado-Novo e, claro, o próprio Salazar, no ano em que se celebram cinquenta anos que caiu de uma cadeira.

 

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20
Abr18

Neo-realismo para crianças

Maria do Rosário Pedreira

Se os que estão desse lado tiverem a minha idade (ou forem mais velhos) lembram-se seguramente da imagem que hoje ilustra o post – e que foi a capa de um livro absolutamente icónico de Maria Rosa Colaço, escritora premiada e muito amada pelas crianças, intitulado A Criança e a Vida, que coligia frases e pensamentos de crianças sobre os mais diversos assuntos e provava como, por vezes, elas já nascem com a literatura e a poesia no sangue. O Museu do Neo-Realismo organiza um colóquio que começa hoje sobre a Literatura Neo-Realista para a Infância em que, participam, entre muitos outros, José António Gomes e Ana Margarida Ramos, professores e especialistas na matéria, e se falará de muita gente além de Maria Rosa Colaço e do seu livro: obras e escritores inesquecíveis, como As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, ou a produção literária infanto-juvenil de Ilse Losa, Sidónio Muralha, Matilde Rosa Araújo, etc… Alice Vieira relembrará Mário Castrim (seu marido e um impiedoso crítico televisivo) e serão apresentados livros infantis de Álvaro Cunhal.

 

P.S. Vou de férias amanhã e por isso só voltará a haver blogue no dia 26!

 

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19
Abr18

Em Cabo Verde

Maria do Rosário Pedreira

Não é só em Portugal que os escritores de língua portuguesa se reúnem para discutir literatura (e outras coisas interessantes). A UCCLA e a Câmara Municipal da Praia promovem a partir de hoje e até domingo mais um Encontro de Escritores de Língua Portuguesa na capital de Cabo Verde. É já a 8ª edição deste festival que tem contribuído para que escritores lusófonos de vários continentes troquem ideias e se conheçam. Nem sempre acontece na mesma cidade, pois já se realizou também nas cidades de Natal e Luanda. Na presente edição, o tema é Cidade e Literatura e haverá três subtemas: Literatura e Cidadania, Literatura e Criatividade, Literatura e Juventude. Estarão presentes autores de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Timor. O certame, no total de edições, já recebeu mais de 100 autores lusófonos, incluindo 5 prémios Camões: Arménio Vieira, Eduardo Lourenço, João Ubaldo Ribeiro, Pepetela e Mia Couto.

18
Abr18

Portabilidade

Maria do Rosário Pedreira

Dizem-se manuais as coisas feitas à mão, mas, aqui para nós, os actuais manuais escolares são tudo menos manuais. Temos a mania de achar que no nosso tempo é que as coisas eram boas, mas os manuais de hoje (e o material escolar em geral) são muito sofisticados e infinitamente mais atraentes do que os do meu tempo, de cadernos com capa monocromática, normalmente preta ou a atirar para o rosa-velho, e borrachas malcheirosas. Estes manuais de agora têm capas muito manuseáveis, formato grande e mais arejado, ilustrações, cores garridas, esquemas, gráficos, enfim, é uma festa. E, mais do que isso, fazem a papinha toda aos alunos, o que, por acaso, não sei se é assim tão bom, porque talvez fosse mais salutar fazê-los ir em busca de textos complementares sobre as matérias estudadas, uma vez que, ao contrário de mim, até têm acesso a uma coisa miraculosa chamada Internet. Mas, no meu tempo (deixem-me puxar a brasa à minha sardinha), os manuais, embora tristonhos, cabiam todos numa simples pasta (mochila era coisa que ainda não se usava nessa altura senão para ir acampar) e não me lembro de trazer as costas curvadas ou precisar de mala com rodízios para transportar os livros até à escola. Um dia destes, estive a consultar alguns manuais de Português de 12º ano e já não podia com aquele peso todo nas pernas! O que faria se tivesse de andar com ele às costas… Não poderia existir um meio-termo, senhores?

17
Abr18

Génios

Maria do Rosário Pedreira

Existem por aí muitos livros sobre o génio (não falo do mau génio, bem entendido, que também grassa em todas as partes). De repente, lembro-me de três muito diferentes: Génio, de Harold Bloom, o autor do famoso O Cânone Ocidental; Os Criadores, de Daniel Boorstin – um livro provavelmente já fora de mercado, mas extremamente legível sobre os pioneiros geniais em todas as áreas (da religião à fotografia); e, para não citar demasiados títulos, Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstadter, obra que ganhou o Pulitzer nos anos 1970 e entrelaça as mentes brilhantes de um músico, um pintor e um matemático, mas fala de muitas outras coisas, como lógica, criatividade, formigas e até budismo. Ainda assim, as três pessoas citadas no título desta última obra eram verdadeiramente geniais. Sobre Bach, não há palavras que cheguem para elogiar as suas composições; Kurt Gödel, supostamente a figura menos conhecida dos Extraordinários, que são mais dados às letras do que aos números, nasceu na Áustria no início do século XX e foi autor de importantíssimos teoremas matemáticos (entre os quais, os teoremas da incompletude e da completude). Mas, no fundo, é do génio de Escher que vinha falar-vos hoje, porque está em Lisboa uma importantíssima exposição da sua obra para ver no Museu de Arte Popular que termina a 27 de Maio; e, apesar de os bilhetes não serem propriamente baratos e de não estarem lá algumas das obras mais conhecidas do artista (a mão que desenha a própria mão, por exemplo), a mostra é fascinante e imperdível: para quem já conhecia e pode encher o olho (e os primeiros desenhos do holandês, menos divulgados, têm já muito que se lhe diga); e para quem ainda não conhece, mas tem de conhecer.

 

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16
Abr18

Mentir melhor

Maria do Rosário Pedreira

Já não tenho a certeza, mas julgo que foi o escritor brasileiro Inácio de Loyola Brandão, delicioso octogenário, que nas últimas Correntes d’Escritas contou uma história que tem a sua piada. Dois amigos, um pianista e o outro escritor, estavam a beber uma cervejinha e a ouvir um disco de música clássica (para simplificar, vamos imaginar que Pedro e o Lobo, de Prokofiev, peça na qual os instrumentos imitam os sons da natureza na perfeição). Impressionado com o que escutava, o escritor disse ao seu amigo que os músicos tinham uma capacidade de mentir absolutamente fantástica e que tinha pena de não ter essa mesma possibilidade no seu ofício. O amigo músico encaixou a frase, processou-a no tempo devido e devolveu que o escritor estava completamente enganado, que um escritor tinha, efectivamente, capacidade de ser muito mais mentiroso do que um compositor. O interlocutor quis então saber em que argumento se baseava o pianista para fazer tal declaração, ao que este explicou: «Bem, é que eu só tenho 7 notas, enquanto você tem 23 letras!»

13
Abr18

Histórias a arder

Maria do Rosário Pedreira

O escritor Nuno Camarneiro decide viajar até uma zona de guerra no Médio-Oriente para melhor entender as razões do conflito e de quem nele participa. Mas o que começa por ser uma visita de estudo transforma-se rapidamente num pesadelo, quando o escritor e os seus companheiros de viagem são sequestrados por um grupo de fundamentalistas islâmicos. Ao longo de várias semanas terão de encontrar estratégias de sobrevivência que protejam o corpo, a mente e algumas crenças fundamentais. Os prisioneiros contam histórias, revisitam memórias, inventam jogos e vidas inteiras, tornam-se guerrilheiros da ficção. Numa guerra entre homens, ideias, deuses e civilizações não há partes neutras, e é difícil distinguir as vítimas dos agressores. A verdade escreve-se em muitas línguas, como as histórias e os sonhos de cada um. Este é apenas um resumo possível de O Fogo Será a Tua Casa, o novo romance de Nuno Camarneiro, disponível a partir da próxima semana. O livro é muito mais do que isto, evidentemente.

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12
Abr18

O autor e as suas personagens

Maria do Rosário Pedreira

Disse um dia a inteligente e criativa Rosa Montero, falando do seu próprio caso, que, sempre que estava a escrever um romance, ficava um tanto ou quanto obcecada e raramente conseguia desviar dele a atenção. Mesmo quando não estava à secretária a escrever, estava quase sempre a pensar no livro e nas personagens, a rever mentalmente o que já escrevera ou a conceber frases e cenas para passar em breve ao papel. Contou mesmo que lavava os dentes com as suas personagens no espelho da casa de banho, se levantava da cama com elas e, ao fim da noite, ainda se deitava com uma ou duas. Pois bem, já não me lembro quem disse isto (alguém o contou num encontro de escritores e a minha memória guardou a frase, mas não o seu autor – ele/ela que me perdoe): que, no que toca à escrita de romances, os autores andam primeiro atrás das personagens; passado um tempo, caminham com elas, a seu lado; por fim, estão dentro delas. Atrás delas, com elas, nelas. Gostei da ideia.

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