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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

11
Abr18

Fronteira

Maria do Rosário Pedreira

Os festivais literários continuam por esse Portugal fora – e desta feita está na hora de desfrutar da sexta edição do Fronteira, festa em torno da literatura que decorre em Castelo Branco a partir de hoje e até ao próximo dia 14. A receita não difere do que é habitual em outros certames do género no País: mesas-redondas para discutir vários assuntos (entre eles, o que mudou na literatura portuguesa desde a atribuição do Prémio Nobel a Saramago, há vinte anos certinhos); idas dos autores às escolas para conversas com alunos; entrevistas ao vivo (desta vez com Mário Augusto, um jornalista que adora cinema); oficinas de ilustração. Os autores e outros participantes (moderadores, inclusive) é que vão mudando, mesmo que se diga que muitos deles estão em todas. Em Castelo Branco, vai ser possível ouvir, por ordem alfabética do primeiro nome, Ana Margarida de Carvalho, António Mota, Filipa Melo, João Ricardo Pedro, José Carlos Vasconcelos, José Mário Silva, Maria Bouza, Maria João Lopes, Mário Augusto, Pedro Brito, Pedro Mexia e Rachel Caiano. Espero não me ter esquecido de ninguém. Fronteira é a prova de que no Interior também acontecem coisas interessantes.

10
Abr18

(Des)integrar

Maria do Rosário Pedreira

Integrar é palavra de ordem na escola. Quando, nos idos de 1980, dei aulas de Português em Lisboa & arredores, tinha uma turma de alunos com «dificuldades de aprendizagem» entre alunos cujo aproveitamento era absolutamente normal. Nesse tempo, estas turmas eram, é bom que se diga, reduzidas. Mesmo assim, alguns dos miúdos mais espertos desmotivavam-se, excepto quando eram muito bem formados e queriam eles próprios ajudar os mais necessitados. Depois veio a altura de integrar crianças que vinham de outros países, desde aficanos e brasileiros (aparentemente mais fácil por causa da língua) a ucranianos, moldavos, chineses e muito mais… Penso que a integração correu bem, sobretudo porque as crianças são muito elásticas. Mas agora uma equipa de investigadores descobre que integrar os estrangeiros na escola é bom, mas sem exageros – ou seja, que a mistura é saudável e tem efeitos mais positivos do que a falta de convívio com outras nacionalidades; mas que, se a percentagem de estrangeiros for superior a 20%, os miúdos, regra geral, saem-se pior do que a média. E porquê? Porque, sendo muitos, haverá tendência para se «guetizarem», enquanto, se o número de imigrantes não for tão alto, os nacionais puxam de algum modo por eles e eles pelos nacionais (os imigrantes de segunda geração lêem melhor do que os portugueses!). Em Portugal, os alunos estrangeiros ascendem a 10% do total de alunos, mas 70% estão em apenas 25% das escolas do País e existe uma concentração nas zonas mais desfavorecidas. Este estudo, desenvolvido pelo ex-ministro da educação David Justino e a investigadora Isabel Flores, avalia alunos de 15 anos nas áreas de Leitura, Matemática e Ciências.

09
Abr18

Divulgação científica

Maria do Rosário Pedreira

Comecei no mundo da edição pelos livros de divulgação científica – e, talvez por isso, tenha uma fé inabalável na ciência. Foi nessa primeira editora onde trabalhei que conheci José Mariano Gago, na altura um dos professores e cientistas que aconselhavam obras para tradução e publicação em Portugal; e, embora nunca tivéssemos sido exactamente próximos, lembro com muita simpatia um almoço de trabalho durante o qual estivemos a falar sobretudo das nossas respectivas nespereiras que, naquele ano, por uma razão que não entendíamos, tinham dado nêsperas bastante sensaboronas. Adiante: toda a gente sabe a importância de Mariano Gago no desenvolvimento da ciência em Portugal – tiremos-lhe o chapéu, por favor, porque ainda por cima ele não era nada gabarolas a este respeito – e, por isso, a SociedadePortuguesa de Autores (SPA), numa homenagem mais do que merecida, criou um prémio anual para um livro de divulgação científica a que pôs o seu nome. Temos excelentes divulgadores – desde logo António Damásio, mas também Carlos Fiolhais ou Jorge Buescu – e por isso a escolha há-de ser bem renhida. Como Mariano Gago gostava, claro. Parabéns à SPA.

06
Abr18

Fado literário

Maria do Rosário Pedreira

A minha amiga fadista Aldina Duarte tem uma velha relação com os livros e a literatura, pois, segundo ela conta frequentemente em entrevistas, a mãe a deixava em pequena numa biblioteca conhecida quando acabava a escola e só vinha buscá-la umas horas depois. A Aldina é de facto uma leitora compulsiva (sempre com um livrinho dentro da mala) e ecléctica – lê desde ensaio sobre o corpo ou a arte aos clássicos mais empedernidos e à literatura mais vanguardista. Os seus álbuns estão também, de certo modo, ligados à escrita; um deles chama-se Contos de Fados (e tem que ver com narrativas), outro Romance(s) (não é preciso dizer mais nada) e o mais recente tem por título Quando se ama loucamente – o que apontaria talvez para uma ligação a Florbela Espanca, mas não: efectivamente, tem que ver com a obra da escritora de culto Maria Gabriela Llansol. Pois bem, hoje à noite Aldina vai cantar este seu álbum literário no CCB – e eu vou lá estar. Se gosta de um fado assim profundo, não perca o concerto. De contrário, leia os belos poemas da Aldina Duarte, uma grande escritora de letras, além de leitora.

05
Abr18

Livros caros e porquê

Maria do Rosário Pedreira

Quase toda a gente se queixa de que os livros são caros (mesmo os editores-leitores), e a Planeta Tangerina (PT) – a quem faço vénia – publicou no seu blogue um muito interessante e esclarecedor post sobre, no fundo, porque isso acontece em Portugal e a percentagem que cada parte envolvida na feitura de um livro arrecada para si. O link vai no fim deste meu post, até porque as professoras podem falar deste assunto aos seus alunos e aos pais que usam a desculpa do dinheiro para não comprarem livros aos filhos. Os Extraordinários, se lerem com atenção o artigo da PT, verão que um país pequeno está sempre mais sujeito a um preço mais alto do livro em virtude de as tiragens serem menores. Contudo, talvez fosse possível alterar um pouco as coisas. O Manel contou-me que uma vez, numa feira internacional, uma editora já não sei de que país (nórdico, provavelmente), achando diminuta a tiragem que ele lhe indicava como habitual em Portugal para um livro de venda média, lhe perguntou quantos exemplares de cada título as bibliotecas portuguesas lhe compravam (isto porque, no seu país, cerca de 3000 exemplares de todos os títulos publicados eram comprados pelas bibliotecas, não sei se pelo Governo, se pelas Câmaras Municipais). Ele respondeu que nenhum e que, por vezes, as bibliotecas ainda escreviam cartas a pedir livros às editoras… Bem, as coisas já não são exactamente assim, claro, mas, se as bibliotecas se abastecessem um pouco mais, mesmo seleccionando os títulos a comprar (evitando o lixo e adequando as compras ao público frequentador), isso não tornaria o livro mais barato?

 

http://planeta-tangerina.blogspot.pt/2018/03/para-onde-vai-o-dinheiro-quando.html?m=1

 

04
Abr18

Regressar

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui disse – tenho a certeza – que, com todos os livros que ainda não li (e com tantos outros que tenho de ler profissionalmente no dia-a-dia), é mesmo raro eu regressar a um romance lido noutra época da vida (com a poesia, bem entendido, isso não acontece). Há tempos, como aqui contei, não resisti, porém, a Italo Calvino e ao seu brilhante Se numa noite de Inverno Um Viajante – e ainda bem! Mas a experiência do reconhecimento imediato e da satisfação plena que obtive com Calvino nem sempre se repete – e a reacção pode até tornar-se bastante decepcionante: porque já não temos aquela idade, porque a nossa cultura é outra e mais ampla, porque mudamos de gostos ao longo da vida… O que não muda, de facto, são os grandes autores; e, por razões que Vossas Excelências em breve saberão, precisei de regressar a um livro muito amado, pelo que, numa noite da semana passada, fui à estante buscar um velhinho romance de Marguerite Duras do qual guardava a mais poderosa das memórias. Trata-se de Uma Barragem contra o Pacífico, texto que conta muita verdade da vida da própria autora e da sua família na Indochina, para onde foram atrás da promessa de uma vida melhor. E tudo, mas tudo, o que lembrava ainda lá está intacto, exactamente como da primeira vez: e a primeira vez foi mesmo há muito tempo… Milagres que, por serem milagres, quase nunca acontecem. Leiam, se o encontrarem.

03
Abr18

Vergonha?

Maria do Rosário Pedreira

Apesar de se ler cada vez menos (falo de literatura, e não de SMS ou murais de redes sociais) – e de algumas pessoas fazerem arrogantemente alarde da sua ignorância –, a verdade é que ainda há muito quem se envergonhe de não ter estudos (por isso mentem tantos políticos a propósito dos seus currículos) e de não ter lido as obras que certos académicos consideram obrigatórias ou fundamentais (o Proust, claro). Muita gente do meio intelectual tem mais dificuldade em confessar, junto de confrades ou publicamente, as suas lacunas quanto à leitura de uns quantos títulos – alguns ficam calados no meio de uma conversa entusiasmada (e isso nota-se); outros, mais afoitos, metem a colherada na conversa com generalidades que denunciam em três tempos a sua falta de conhecimento. Mas… com tanto livro, como ler tudo? Eu, que vivo à procura do novo e publico o contemporâneo, como vou alguma vez ter tempo para ler tudo o que está para trás e falhei por qualquer razão (o Ulisses de Joyce, por exemplo)? Devo ter vergonha dessas minhas lacunas? Claro, mas que fazer? Hanif Kureishi, num interessante questionário que o The Guardian propõe de vez em quando a escritores, confessa que nunca leu uma  linha de Jane Austen, confissão que, vinda de quem vem, considero um acto de coragem extraordinário. A seguir diz: «My shame is big.» Mesmo assim, a verdade a acima de tudo.

02
Abr18

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Volto a falar de um livro que já aqui mencionei aquando da atribuição do Man Booker Prize do ano passado, mas ainda não tinha lido: Lincoln no Bardo, de George Saunders, o escritor norte-americano celebrizado pelas suas short-stories que se atreveu ao romance e arrecadou logo na estreia um prémio de peso. Com razão. Lincoln no Bardo (o título estranha-se mas depois entranha-se) é uma peça literária excepcional, um exercício que apela ao teatro e seus coros (quase tudo são, afinal, falas, exactamente como num texto dramático para ser dito em palco) e, simultaneamente, à citação (prática tão querida aos anglo-saxónicos, que têm dicionários de quotations a propósito de tudo), mas que aqui se refere a livros de testemunho e crónica social (inventados, diria eu, apesar da versomilhança dos títulos e autores) que servem, juntamente com as referidas falas, para nos contar a história central: a de que o presidente Lincoln, na mesma noite em que dava uma festa de arromba, perdeu um filho pequeno que amava profundamente. Por não estarem na terra natal, é emprestado provisoriamente ao presidente lugar num jazigo para o túmulo da criança; e é aí que vamos encontrar Abraham Lincoln visitando o seu menino, tirando-o do caixão, abraçando-o, falando-lhe em silêncio e chorando amargamente. E é aí também que os habitantes desse cemitério, uns espíritos melhores do que outros (mas três principalmente - e um deles, o reverendo Everly Thomas, talvez nem espírito seja...) irão tentar de tudo para que o pequeno Willie saia daquele lugar que, enfim, não é um bom lugar para uma criança. Para isso, porém, é preciso que o pai volte e o leve com ele, mesmo sem o saber que o leva quando partir. Belíssimo, estranho, musical - com um coro de vozes que captam imediatamente a nossa simpatia-empatia, recomendo vivamente e quase me penalizo por ter esperado tanto tempo para o começar.

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