Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Jun18

No interior

Maria do Rosário Pedreira

Ao contrário do mau tempo que se tem feito sentir, no ano passado tivemos um calor insuportável que desencadeou, de resto, uma leva de incêndios que dificilmente sairá da nossa memória. Passado um ano, a cooperativa artística Arte-Via quis organizar um festival literário em homenagem às vítimas dos fogos florestais, com o alto patrocínio do Presidente da República, nos vários concelhos afectados: Arganil, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Lousã, Miranda do Corvo, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra, Pedrógão Grande, Penela, Sertã e Tábua. De hoje até ao dia 18, as Palavras de Fogo (o nome deste Festival Literário Internacional do Interior) vão contar com inúmeros escritores, portugueses e estrangeiros, em mesas-redondas e conversas, bem como com exposições, música, um mercadinho de poesia, caminhadas literárias (a pé), workshops – e muito mais. O programa é extensíssimo – e os escritores irão estar nos mais improváveis espaços, desde fábricas a praias, passando por descampados, o que é, sem dúvida, original (e deve dar umas boas fotografias). Ana Filomena Amaral, da Arte-Via, festeja assim os 18 anos da cooperativa, e conta com a ajuda de Pedro Mexia, José Luís Peixoto e Fátima Cabral nesta programação.

 

P.S. Amanhã vou de férias e só regresso aqui no dia 25.

14
Jun18

Conselhos escusados

Maria do Rosário Pedreira

Se há coisa que me enerva é ver nos hipermercados meninos e meninas agarrados a livros e os pais a puxarem-nos dali para foram perguntando para que querem eles «aquilo»? Não gosto de me meter na educação alheia, mas lá que dá vontade de dizer alguma coisa e de mostrar que «aquilo» pode fazer toda a diferença, lá isso dá. O problema é que estes pais que não lêem não são os únicos a afastar as pessoas dos livros. Num artigo do suplemento de Economia de um jornal lisboeta em que se falava basicamente de como poupar dinheiro, o autor avançava com várias medidas (sete, ao todo) e, de forma bastante infeliz, na que tinha o número 4, dizia que não devíamos comprar livros… Assim, com todas as letras escarrapachadas. E porquê? Segundo ele, porque, depois de lidos, os livros não servem para nada (ele não consulta nem relê, está visto). Sob o ponto de vista puramente económico, claro que os livros – salvaguardadas as excepções – raramente se revendem e não valorizam com o tempo. Mas dizer preto no branco às pessoas que querem poupar que não comprem livros é uma afronta. Eu dir-lhes-ia que comprassem menos roupa, ou andassem mais a pé para poupar gasolina, por exemplo; até poderia dizer-lhes que a versão digital de um livro custa menos que o livro em papel, mas escrever que não devemos comprar livros é igual a levar os filhos da secção de livros do hipermercado para a peixaria – anda e larga «isso», que não serve para nada! Uma lástima.

12
Jun18

Situar

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, quando era professora de Francês, pendurei à frente do quadro um grande mapa de França – um mau mapa, confesso, porque era apenas o contorno do país e, lá dentro, uma bolinha preta no lugar da capital a dizer Paris. Assim que me voltei e disse que aquele era o mapa de França, um aluno perguntou: «Eu estou a ver onde está Paris, mas onde é que está a França?» Mais tarde, noutra escola, precisei de um mapa-múndi e, quando o tinha todo esticadinho à frente dos alunos, houve uma miúda que comentou, espantada, olhando as margens esquerda e direita do mapa: «Eu não sabia que havia dois Oceanos Pacíficos…» (e eu a seguir fiz uma espécie de cilindro para lhe explicar que, enfim, a Terra era redonda… Leio nos jornais que 45% dos alunos portugueses do 5º ano não sabem situar Portugal no mapa da Europa – aliás, os títulos dos jornais diziam que eles não sabem situar Portugal na Europa, levando alguns leitores a crer que o situavam na Ásia ou na África, o que não é verdade; o que os meninos não sabem é onde fica o seu país no continente europeu – e, se isso é de facto bastante escandaloso, a verdade é que mais escandaloso ainda é o facto de, muito provavelmente, ninguém lhes ter mostrado o mapa da Europa na escola ou em casa e lhes ter dito que Portugal é o país mais à esquerda… Mas isto não é novo, como atrás mostrei e a seguir confirmo: uma vez, Pacheco Pereira contou-me que estava a dar uma aula numa universidade sobre os regimes do Leste antes da perestroika (penso que o curso era de Relações Internacionais) e que pediu a um aluno que indicasse a Hungria no mapa da Europa. Não só esse estudante não foi capaz de o fazer como quase toda a turma o ignorava…

11
Jun18

Identidade

Maria do Rosário Pedreira

Quem nos diz quem somos? No romance Fora de Si, Sasha Marianna Salzmann explora esta questão, mostrando como a vida é um imenso desafio e os nossos anseios muitas vezes insaciáveis.

Fora de Si é a história de como alguns episódios do século xx influenciaram decisivamente o novo milénio. Conta a história de quatro gerações de uma família – a história do anti-semitismo latente e indisfarçado na União Soviética; a história da emigração e da esperança de uma vida melhor num país estrangeiro; a história de uma geração educada no país de acolhimento que perdeu o rasto da pátria e procura, mesmo assim, um lugar de pertença; a história de uma busca: de um irmão gémeo desaparecido, de auxílio, de identidade e, claro, de resposta para a pergunta: quem somos?

O romance vai de Odessa, na época da Revolução Russa, até Istambul, nas vésperas do golpe de Estado de 2016. E é absolutamente maravilhoso. A tradução é de Paulo Rêgo. (Para os mais distraídos: não percam os gémeos na base da capa: é dos seus cabelos que partem as aves.)

 

9789722065153_fora_de_si.jpg

 

08
Jun18

Noite da Literatura Europeia

Maria do Rosário Pedreira

A 6ª edição da Noite da Literatura Europeia, organizada pela EUNIC Portugal, realiza-se amanhã, entre as 18h00 e as 23h30, na zona do Bairro Alto, em Lisboa. Além da novidade de um espectáculo de abertura no Liceu Passos Manuel – a associação cultural Miso Music Portugal e a Companhia Maior apresentam um «coro falado» a partir de um conjunto de poemas de autores portugueses –, haverá como sempre leituras de 10-15 minutos de excertos de obras de 14 países em vários espaços entre a Rua do Século e a Calçada do Combro (ah, e a entrada é livre!). Estou especialmente contente por ter sido escolhida pelo Goethe Institut este ano uma autora alemã que acabo de publicar (o seu livro intitula-se Fora de Si e está apenas há uma semana nas livrarias). Trata-se da ficção de estreia de Sasha Marianna Salzmann (na imagem é a última da terceira fila a contar da esquerda), conhecida sobretudo pela sua obra para teatro, multipremiada; mas desse suculento romance falarei na segunda-feira, para não estragar o prazer de quem queira ir ouvir os excertos em português para lhe tomar o gosto, excertos esses que serão lidos pela actriz Patrícia André numa sala maravilhosa da Secretaria-Geral do Ambiente. Bom fim-de-semana!

 

32392154_930673247106272_1310173408503267328_n.jpg

 

07
Jun18

Corto, Bianca e Valente

Maria do Rosário Pedreira

«Animar», palavra a que associamos logo uma vertente positiva, vem de «ânimo» (e este pode estar de rastos, por isso se fala também de «levantar o ânimo» de quem anda em baixo e precisa de mimos). O ânimo, para quem não saiba, está relacionado com a «alma» (anima, em latim) e, como tal, o verbo «animar» significa igualmente dar alma (ânimo) a uma coisa morta ou sem vida. Mário Cláudio dá vida (e também memórias, ainda por cima secretas) a três personagens de BD muito distintas,  criadas respectivamente por Hugo Pratt, Hergé e Hal Foster – e logo à tarde, quando lançarmos o seu mais recente livro de que já aqui falei – intitulado justamente Memórias Secretas – haverá ainda outras pessoas que darão vida a estas três figuras de papel e farão de Corto, Bianca e Valente, lendo as memórias secretas que Mário Cláudio, detentor de alguns documentos raros e preciosos, lhes atribui. Assim, se estiver pelo Porto ou nas redondezas, não deixe de vir a esta sessão que promete ser bem original na Fundação Eng. António de Almeida. A apresentação estará a cargo da professora italiana Maria Bochicchio. O convite ai vai:

 

Conv_Memorias_secretas (2).jpg

 

 

06
Jun18

O bom regresso

Maria do Rosário Pedreira

Havia muita gente a perguntar-se por que diabo não estava já reunida em colecção própria publicada por uma editora a obra da grande escritora Maria Judite de Carvalho (1921-1998), que está longe de ser apenas a autora de Tanta Gente, Mariana, talvez a sua obra mais emblemática e lida, e ainda mais longe de ser apenas a mulher do escritor Urbano Tavares Rodrigues, embora a sua discrição a tenha feito viver sempre um pouco à sombra do marido (mas muitos dos críticos consideram-na mais talentosa do que Urbano). Há uns anos pareceu que a Babel iria dar conta do recado, mas não deu (nem desse, nem de muitos outros – a obra de Agustina, por exemplo), e a Minotauro, do Grupo Almedina, deitou agora a mão ao projecto e já lançou o primeiro volume, que reúne, além do livro de contos que já referi, As Palavras Poupadas, de 1961, colectânea que ganhou o Prémio Camilo Castelo Branco. Vão seguir-se, segundo o anúncio da Minotauro, outros cinco volumes, todos eles com capas que reproduzem pinturas de Maria Judite de Carvalho que, além de escrever, também era uma artista exímia com o pincel (no volume lançado, reconheço na capa a sua filha Isabel, que também escreveu obras de ficção). Portanto, vamos poder ler de fio a pavio a obra de Maria Judite de Carvalho e devemos fazer vénia à editora que se atirou à empresa. Agora, já não há razão para não ler esta enorme escritora.

 

320x.jpg

 

 



05
Jun18

Publicar e ser publicado

Maria do Rosário Pedreira

Este título podia ser a minha história de vez em quando. Mas – e ainda bem – não tem a ver com isso, mas com um debate que ocorrerá logo à noite na Feira do Livro de Lisboa. Temos vindo a assistir a um desinteresse gradual dos leitores pela literatura dita séria (a única que é literatura, embora muitos chamem literatura light ou comercial a um certo tipo de ficção sem sumo nem profundidade) e, como tal, precisamos de reflectir sobre o que o originou e o que podemos fazer para reverter a situação. Quando muita gente se junta a pensar, acabam por surgir ideias e, como tal, esperamos que isso aconteça hoje às 19h30 com a participação dos escritores David Machado, João Ricardo Pedro e Nuno Camarneiro (detentores de prémios nacionais e internacionais, todos ainda relativamente novos e com muito para dar se as pessoas quiserem continuar a ler literatura) e, além da minha pessoa (para falar do que é publicar), do moderador – o jornalista e crítico literário Luís Ricardo Duarte. À noite, nunca se sabe quem vai à feira – e espero que na plateia esteja mais gente do que no palco; por isso leve um casaquinho se arrefecer e vá lá fazer-nos companhia.

04
Jun18

Somos Douro

Maria do Rosário Pedreira

No dia 1 começou o festival Somos Douro, que se estenderá até ao dia 17 deste mês e, dedicando-se especialmente aos jovens da região, abarca nada  mais nada menos de 19 municípios! Tem como comissária Anabela Mota Ribeiro e pretende envolver as comunidades locais nas actividades multidisciplinares que vão desenvolver-se e que, tomando como ponto de partida os binómios «ser/pertencer», «aprender/fazer», «descobrir/partilhar», contemplarão a relação dos intervenientes com o património (incluindo o Douro Vinhateiro que, não por acaso, tem o selo da UNESCO há dezasseis anos). Aproximar-se-ão lugares e estratégias, colocando um autocarro ao dispor dos interessados e fazendo com que os artistas visitantes trabalhem com os da geografia duriense (Camané, por exemplo, abriu o festival cantando com a Orquestra de Cordas de Vila Real em Lamego). Não faltarão escritores, evidentemente: depois de Pedro Mexia, Leonor Baldaque e Bernardo Pinto de Almeida (que participaram em conversas no fim-de-semana), hoje Ana Margarida de Carvalho estará em Santa Marta de Penaguião onde viverá por uma semana e fará uma oficina de escrita dirigida àqueles que gostam de escrever (mas estarão presentes muitos mais autores, entre eles o americano mais português que conheço: Richard Zimler). Até dia 17 o programa é intenso, dividindo-se por muitas áreas do conhecimento (a cientista Maria Manuel Mota, Prémio Pessoa, intervirá dia 7, e a historiadora Irene Pimentel no dia 13). Todas as actividades são gratuitas, e quem se queixa das coisas centralizadas, tem aqui uma boa oportunidade de ver que nem sempre é assim e de ir dar um pulinho ao Douro, além do mais, para encher o olho de paisagem.

01
Jun18

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Não ando a ler, já li, mas para o caso tanto faz porque é dele que vou falar hoje. Chama-se Na Memória dos Rouxinóis e escreveu-o Filipa Martins, autora que venceu o Prémio de Revelação da APE em 2004 com Elogio do Passeio Público (que também li há muito tempo) e escreveu pelo meio outros dois romances que não cheguei a ler (apesar de ter em casa um deles, Mustang Branco). Ora, o mais incrível neste livro publicado há uns meses, e lançado durante as Correntes d’Escritas, é que, se eu não soubesse de quem era, nunca diria tratar-se de um livro escrito por uma mulher (mesmo que na página da Wook o anunciem como um livro «feminino», não sei porquê e, aliás, nem concordo). Este facto é tão ou mais interessante porque, na verdade, o narrador desta história é um homem, bem como, aliás, as personagens que importam no livro: aquela à volta da qual tudo gira – Jorge Rousinol, galego, matemático, genial jogador de xadrez, que encomendou a própria biografia antes de morrer embora tenha sempre defendido o esquecimento contra a memória no momento de tomar uma decisão –, os seus pai e avô e Camilo, sobrinho do velho e namorado do narrador, que é quem anda a escrever a biografia do ilustre Jorge Rousinol. Bem, previno-vos que de modo nenhum se trata de um livro fácil, não apenas porque o seu enredo é intricado e contado em planos distintos, mas também porque esta escritora lança mão a um manancial de informação muito variada e tem tantas metáforas na manga (muitas delas extraordinárias) que, como poeta, tive até um bocadinho de inveja, mesmo que por vezes me pareça que essa «complicação estratégica» poderia, aqui e ali, ser aliviada com vantagem. Mas é um livro a ler com atenção, disso não tenho dúvidas, e por isso proponho-o aqui àqueles que gostam de deliciar-se com linguagens novas e romances que ensinam. Quem estiver curioso, pode também ler uma interessante entrevista com a autora, cujo link deixo abaixo. Boas leituras.

 

https://sol.sapo.pt/artigo/607452/filipa-martins-fui-ao-pedopsiquiatra-e-receitaram-me-livros

 

P.S. Depois de amanhã será a entrega do Prémio LeYa a João Pinto Coelho na Praça LeYa, Feira do Livro de Lisboa, às 18h30. Apareça.