Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Jul18

Flybraries

Maria do Rosário Pedreira

Conhece a palavra «flybraries»? Calculo que não, mas, na prática, quer dizer «bibliotecas a bordo de aviões». A ideia foi da easyJet, uma companhia aérea que pretende promover a literacia e incentivar a leitura e vai fazê-lo sobretudo no âmbito dos mais pequeninos, transportando clássicos da literatura infantil (17 500 exemplares em sete línguas, incluindo o português) em 300 aviões (livros como Alice no País das Maravilhas ou O Livro da Selva constam desta flybrary). O director de marketing da easyJet para Espanha e Portugal explica que esta iniciativa tem que ver com o facto de o desempenho na leitura dos alunos do 4º ano ter piorado muito entre 2011 e 2016 (já escrevi aqui sobre o assunto) e de esta campanha combinar de certa forma entretenimento e pedagogia: «Queremos que voar seja uma experiência enriquecedora, divertida e memorável, não apenas para os adultos, mas também para as crianças, e consideramos que colocá-las em contacto directo com alguns dos maiores clássicos da literatura infantil será uma experiência enriquecedora em todos os aspectos.» Esperemos que sim, que algum livro torne mesmo a viagem memorável e faça a criança querer ler mais. De todos os modos, há mais aliciantes e, para as crianças entre 6 e 12 anos, em viagens no espaço Europeu, a campanha inclui um concurso no qual meninos e meninas escreverão pequenas histórias completando a frase «Eu olhei pela janela e vi…» e, com sorte, poderão ganhar viagens para toda a família. A história vencedora será ilustrada e publicada na revista que viajará em todos os aviões da easyJet. Tiro o chapéu. Quem poderia pedir mais a uma companhia aérea?

19
Jul18

Um novo Nobel

Maria do Rosário Pedreira

Irritados por tudo o que aconteceu recentemente com a Academia Sueca, que adiou a entrega do Prémio Nobel da Literatura para uma data indefinida e afastou umas quantas pessoas do processo decisório, uma série de intelectuais suecos, sobretudo escritores e jornalistas, resolveu criar uma sociedade a que chamou «Nova Academia» como forma de protesto. Instituiu um prémio alternativo que já tem 47 candidatos oriundos de todo o mundo, nos quais podemos todos votar até dia 14 de Agosto (basta ir ao site, ao que parece). Entre esses, contam-se escritores como Elena Ferrante, Ian McEwan, Paul Auster ou Joyce Carol Oates (os norte-americanos estão, de resto, muito bem representados), mas também nomes menos prováveis, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e uma dúzia de suecos de que nunca ouvimos falar, além da autora de Harry Potter, J. K. Rowling, o que é de admirar… Em todo o caso, podemos divertir-nos um pouco com este concurso, já que não temos o outro. O vencedor será anunciado em Outubro, como é habitual com o Prémio Nobel, e irá haver uma cerimónia formal para entrega do galardão no dia 10 de dezembro. A Nova Academia será dissolvida um dia após a cerimónia formal, o que também tem alguma piada. Haja imaginação.

18
Jul18

Booker de ouro

Maria do Rosário Pedreira

Qual medalha de ouro, o Man Booker Prize lançou a ideia de se eleger o Booker dos Bookers dos últimos 50 anos. E há uma semana, mais coisa menos coisa, o vencedor do último Golden Booker foi um romance divino chamado The English Patient (o autor é Michael Ondaatje, nascido no Sri Lanka mas de nacionalidade canadiana), que ganhara o Booker ex-aequo com Sacred Hunger, de Barry Unsworth, no ano de 1992, e que por cá foi publicado pela Dom Quixote e traduzido com o título O Doente Inglês, embora o filme nele baseado, de 1996, realizado por Anthony Minghella, viesse com a tradução coxa de O Paciente Inglês (e, ainda por cima, o protagonista não tinha mesmo paciência nenhuma, bem pelo contrário, apesar de ter todas as razões para isso). A obra, que tem passagens maravilhosas que o filme não podia manter sob o risco de se tornar chatíssimo (as viagens ao deserto em solitário) foi traduzido em cerca de 40 línguas e deu liberdade ao autor para largar tudo e escrever apenas, como tantos ambicionam. Quando recebeu o prémio, Ontaatje contou que tudo começou com uma cena (um homem queimado a conversar com a enfermeira) que ele julgou ser o arranque de uma novela curta, com muitos diálogos, à europeia. E depois acabou escrevendo mais de 300 páginas fascinantes, à inglesa. Se nunca leu, tome nota.

17
Jul18

Não ler

Maria do Rosário Pedreira

A percentagem de leitores que lêem por prazer nos Estados Unidos não cessa de cair desde 2004, segundo um artigo publicado recentemente no Washington Post e assinado por Christopher Ingraham. Caiu, durante estes anos, 30%... e em todos os intervalos etários; a descida menos acentuada foi nos leitores entre os 15 e os 24 anos, mas, entre estes, muitos ainda nem criaram hábitos de leitura, andam a experimentar. Por outro lado, a queda mais significativa é entre os leitores do sexo masculino – 40% –, enquanto entre as mulheres leitoras a queda é de 29%. O problema é que as coisas estão a acontecer demasiado depressa: em 1982 eram 57% as pessoas que tinham lido pelo menos um romance, um poema, um conto ou uma peça de teatro no ano anterior, mas em 2015 já eram apenas 43%... Por toda a parte a mesma coisa, o audiovisual a ganhar ao texto, o smartphone e a Netflix a ganharem ao livro. Como já referiu um dos Extraordinários um destes dias, um artigo recente do El Pais relata que, dos livros colocados nas livrarias espanholas, cerca de 40% são devolvidos às editoras… E um dos editores entrevistados diz que de um autor menos conhecido já só imprime 1500 exemplares (o que em Portugal – que tem um mercado insignificante comparado com o espanhol e pouco exporta para a América latina – corresponderia, sei lá, a 250 exemplares?). O desânimo é grande. A ver se o curo nas férias, que se aproximam a olhos vistos, a remar contra a corrente: lendo, claro.

16
Jul18

Último reduto?

Maria do Rosário Pedreira

O mundo perde leitores todos os dias para o audiovisual (conheço um jovem leitor furioso que se mudou recentemente para o Youtube e já não creio que volte aos livros; na sua última visita, não tirou os olhos do ecrã e pouco falou connosco). Contudo, num país pequeno como o nosso, também é verdade que se publicam demasiados livros por ano e que alguns deles têm efectivamente um público tão reduzido que certamente seria mais ecológico e prático editá-los apenas em versão digital (menos desperdício, enfim). Também há autores que, tendo visto os seus livros publicados em papel há muitos anos em editoras que já desapareceram ou simplesmente não os querem reeditar, gostariam de ter agora pelo menos uma versão e-book disponível para que um leitor interessado ainda pudesse aceder ao texto. Ora, a Sociedade Portuguesa de Autores tem, desde finais de Abril, uma plataforma de autopublicação para os seus associados, colocando os livros digitais numa rede de bibliotecas e livrarias onde podem ser vendidos ou alugados sem custos para os membros. Será que, com a perda acentuada de leitores, ainda vamos ter todos de recorrer a este tipo de publicação?

13
Jul18

Literatura e gastronomia

Maria do Rosário Pedreira

Não é todos os dias que o acaso junta à mesma mesa dois autores que publico; mas, desta vez, uma actividade no âmbito do 42.º aniversário do Teatro Amador de Pombal chamada Praça das Letras reunirá amanhã às 18h45, numa tertúlia subordinada ao tema «Gastronomia Portuguesa», Paulo Moreiras (autor de romances históricos e de um sem-número de livros curiosos de pendor etnográfico, muitos deles sobre gastronomia, dos quais destaco Pão e Vinho) e Guida Cândido, uma especialista em História da Alimentação de quem recentemente publiquei Comer como Uma Rainha, obra que explica, entre outras coisas, o que se comia nas cortes de cinco rainhas de Portugal que abarcam cinco séculos. Os dois estarão acompanhados pela sumidade que é Fortunato da Câmara (escritor, investigador e crítico gastronómico do Expresso) e, portanto, quem gostar de comer, tem decerto muitíssimo para ouvir. Uma vez que o ano 2018 foi escolhido como o Ano Europeu do Património Cultural, a Câmara de Pombal entendeu que seria importante reflectir sobre a importância da gastronomia portuguesa como elemento fundamental do património, não esquecendo que a dieta mediterrânica foi classificada em 2013 como Património Mundial e Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Mas também haverá música e outros divertimentos! Os autores esperam-vos em Pombal.

12
Jul18

Memórias

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes, por ocasião de lançamentos de livros – e tentando escapar a um discurso que de algum modo atropele o do orador convidado – conto umas histórias chocantes, curiosas ou engraçadas da minha vida editorial. Um dia destes, um autor de quem já publiquei vários livros ao longo dos anos, disse-me que talvez estivesse na altura de reunir em livro essas anedotas (na maioria, é o que são) com as quais o público iria aprender qualquer coisa e seguramente divertir-se. Já antes, algumas pessoas me tinham dito que um dia devia escrever as minhas memórias. Não penso fazê-lo, pelo menos para já (na velhice, se me sentir demasiado rabugenta e zangada, ainda poderei pensar nisso); no entanto, há vários editores – esses, sim, importantes – cujas memórias podem ser realmente fascinantes. Já aqui falei de Max Perkins, por exemplo, o editor da Scribner que, além de os descobrir e publicar, aturou as bebedeiras de Hemingway, emprestou dinheiro a Fitzgerald e perdeu um tempo infinito com Thomas Woolfe, tendo sido recentemente imortalizado num filme em que o protagonista era desempenhado pelo actor Colin Firth. Mas poderia falar igualmente de Kurt Wolff, fundador em 1908 de uma editora com o seu nome, cujas memórias acabam de sair no Brasil (foi o jornalista e escritor Paulo Nogueira quem escreveu um artigo sobre o livro no Estado de S. Paulo e me chamou a atenção). Kurt é o editor de Axel Munthe (lembram-se de O Livro de San Michelle?), Kafka, Pasternak, Calvino e muitos outros. Uma das suas frases lapidares: «Ter sorte é imprescindível – a esterilidade de uma época é pura fatalidade e, num período pouco criativo, o editor está condenado à impotência.» Como o compreendo.

11
Jul18

Uma inglesa em Portugal

Maria do Rosário Pedreira

Uma inglesa apaixonada por cavalos chegou a Portugal nos anos sessenta com o sonho de aprender a tourear. Determinada, aventureira e apoiada por famílias portuguesas importantes, Ginnie Dennistoun – que escolheria o nome artístico Virginia Montsol – não só venceu todas as barreiras como se tornou uma pequena celebridade no mundo fechado, elitista e masculino dos toiros, arrebatando o público com a sua elegância e beleza. Mas como se sentiria esta rapariga de vinte e poucos anos, alternando entre a Inglaterra dos Swinging Sixties, da emancipação da mulher, dos Beatles, da construção de uma sociedade mais igualitária, e o Portugal salazarista, pobre e marialva, onde as mulheres deviam ser obedientes e discretas e a sua relação com o mestre, bem mais velho do que ela, era certamente um escândalo? A Inglesa e o Marialva narra a vida de uma mulher de coragem que, contra tudo e contra todos, incluindo a própria família, venceu os constrangimentos do seu tempo. Amanhã fazemos o lançamento, apareça por lá.

 

A Inglesa e o marialva_ digital_convite.jpg

 

10
Jul18

Sinceridade e meia

Maria do Rosário Pedreira

Quando se recusa um original por falta de qualidade, está-se na verdade a fazer um grande favor ao autor e aos leitores. Mas a pessoa que o escreveu, a menos que seja alguém muito especial que prefira ser poupado a um enxovalho e a críticas negativas a ter um livro publicado, não vê as coisas assim. É bem certo que custa deitar fora um manuscrito que representou provavelmente um grande investimento em tempo, emoções e às vezes investigação; mas frequentemente a recusa é mesmo a única solução... O escritor Mário Cláudio, que é muito generoso com os que vêm pedir-lhe opinião sobre os seus escritos, contou recentemente no Facebook algumas histórias maravilhosas a este respeito. Numa delas, uma senhora entregou-lhe uma “versalhada do seu punho” para uma avaliação, e o escritor foi sincero e disse-lhe que aquela poesia não tinha qualidade; ao que a madame, em lugar de encaixar o veredicto, ripostou que então iria mandar os poemas a Gunther Grass, que até sabia português, porque ele talvez gostasse. Tinha uma cunhada na Alemanha que era cabeleireira da mulher do romancista alemão e, portanto, não seria difícil lá chegar...

09
Jul18

Ficheiros Secretos

Maria do Rosário Pedreira

Já tive vários computadores desde o meu velhíssimo Schneider, de 1990, com disquetes que se metiam numa ranhura no teclado e gravavam o documento. Quase sempre troquei de máquina quando apanhava um susto (até um copo de água entornei num portátil) e percebia que ela já estava mesmo a dar o berro; mas não me lembro de ter alguma vez perdido coisas demasiado importantes. Mesmo assim, gostaria de ter voltado a alguns desses discos em busca de rascunhos e coisas começadas, pois na verdade, nunca se sabe quando vem uma ideia boa para as continuar... Num velho computador de José Saramago, por exemplo, encontraram recentemente um novo Caderno de Lanzarote, o sexto e último, escrito no ano em que o escritor recebeu o Prémio Nobel da Literatura (1998). O ficheiro, na verdade, esteve sempre lá, numa pasta maior. No entanto, Pilar del Río pensava que só estavam dentro dela os cadernos publicados, até que um estudioso da obra de Saramago precisou de vasculhar os ficheiros dos cadernos (talvez para realizar buscas, que são muito mais práticas no ficheiro digital do que no exemplar em papel) e se descobriu uma pasta que tinha o número 6! Vamos poder saber o que escreveu o nosso Nobel nesse ano tão especial para ele (em que deve ter sido convidado para tudo e mais alguma coisa) no próximo mês de Outubro. O diário será lançado durante um congresso que dedicado ao escritor que assinala o vigésimo aniversário do recebimento do galardão. Imagino que, a par do contentamento, também tenha havido momentos de angústia e de um grande cansaço. Veremos.

Pág. 1/2