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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Jul18

Não ler

Maria do Rosário Pedreira

A percentagem de leitores que lêem por prazer nos Estados Unidos não cessa de cair desde 2004, segundo um artigo publicado recentemente no Washington Post e assinado por Christopher Ingraham. Caiu, durante estes anos, 30%... e em todos os intervalos etários; a descida menos acentuada foi nos leitores entre os 15 e os 24 anos, mas, entre estes, muitos ainda nem criaram hábitos de leitura, andam a experimentar. Por outro lado, a queda mais significativa é entre os leitores do sexo masculino – 40% –, enquanto entre as mulheres leitoras a queda é de 29%. O problema é que as coisas estão a acontecer demasiado depressa: em 1982 eram 57% as pessoas que tinham lido pelo menos um romance, um poema, um conto ou uma peça de teatro no ano anterior, mas em 2015 já eram apenas 43%... Por toda a parte a mesma coisa, o audiovisual a ganhar ao texto, o smartphone e a Netflix a ganharem ao livro. Como já referiu um dos Extraordinários um destes dias, um artigo recente do El Pais relata que, dos livros colocados nas livrarias espanholas, cerca de 40% são devolvidos às editoras… E um dos editores entrevistados diz que de um autor menos conhecido já só imprime 1500 exemplares (o que em Portugal – que tem um mercado insignificante comparado com o espanhol e pouco exporta para a América latina – corresponderia, sei lá, a 250 exemplares?). O desânimo é grande. A ver se o curo nas férias, que se aproximam a olhos vistos, a remar contra a corrente: lendo, claro.

16
Jul18

Último reduto?

Maria do Rosário Pedreira

O mundo perde leitores todos os dias para o audiovisual (conheço um jovem leitor furioso que se mudou recentemente para o Youtube e já não creio que volte aos livros; na sua última visita, não tirou os olhos do ecrã e pouco falou connosco). Contudo, num país pequeno como o nosso, também é verdade que se publicam demasiados livros por ano e que alguns deles têm efectivamente um público tão reduzido que certamente seria mais ecológico e prático editá-los apenas em versão digital (menos desperdício, enfim). Também há autores que, tendo visto os seus livros publicados em papel há muitos anos em editoras que já desapareceram ou simplesmente não os querem reeditar, gostariam de ter agora pelo menos uma versão e-book disponível para que um leitor interessado ainda pudesse aceder ao texto. Ora, a Sociedade Portuguesa de Autores tem, desde finais de Abril, uma plataforma de autopublicação para os seus associados, colocando os livros digitais numa rede de bibliotecas e livrarias onde podem ser vendidos ou alugados sem custos para os membros. Será que, com a perda acentuada de leitores, ainda vamos ter todos de recorrer a este tipo de publicação?

13
Jul18

Literatura e gastronomia

Maria do Rosário Pedreira

Não é todos os dias que o acaso junta à mesma mesa dois autores que publico; mas, desta vez, uma actividade no âmbito do 42.º aniversário do Teatro Amador de Pombal chamada Praça das Letras reunirá amanhã às 18h45, numa tertúlia subordinada ao tema «Gastronomia Portuguesa», Paulo Moreiras (autor de romances históricos e de um sem-número de livros curiosos de pendor etnográfico, muitos deles sobre gastronomia, dos quais destaco Pão e Vinho) e Guida Cândido, uma especialista em História da Alimentação de quem recentemente publiquei Comer como Uma Rainha, obra que explica, entre outras coisas, o que se comia nas cortes de cinco rainhas de Portugal que abarcam cinco séculos. Os dois estarão acompanhados pela sumidade que é Fortunato da Câmara (escritor, investigador e crítico gastronómico do Expresso) e, portanto, quem gostar de comer, tem decerto muitíssimo para ouvir. Uma vez que o ano 2018 foi escolhido como o Ano Europeu do Património Cultural, a Câmara de Pombal entendeu que seria importante reflectir sobre a importância da gastronomia portuguesa como elemento fundamental do património, não esquecendo que a dieta mediterrânica foi classificada em 2013 como Património Mundial e Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Mas também haverá música e outros divertimentos! Os autores esperam-vos em Pombal.

12
Jul18

Memórias

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes, por ocasião de lançamentos de livros – e tentando escapar a um discurso que de algum modo atropele o do orador convidado – conto umas histórias chocantes, curiosas ou engraçadas da minha vida editorial. Um dia destes, um autor de quem já publiquei vários livros ao longo dos anos, disse-me que talvez estivesse na altura de reunir em livro essas anedotas (na maioria, é o que são) com as quais o público iria aprender qualquer coisa e seguramente divertir-se. Já antes, algumas pessoas me tinham dito que um dia devia escrever as minhas memórias. Não penso fazê-lo, pelo menos para já (na velhice, se me sentir demasiado rabugenta e zangada, ainda poderei pensar nisso); no entanto, há vários editores – esses, sim, importantes – cujas memórias podem ser realmente fascinantes. Já aqui falei de Max Perkins, por exemplo, o editor da Scribner que, além de os descobrir e publicar, aturou as bebedeiras de Hemingway, emprestou dinheiro a Fitzgerald e perdeu um tempo infinito com Thomas Woolfe, tendo sido recentemente imortalizado num filme em que o protagonista era desempenhado pelo actor Colin Firth. Mas poderia falar igualmente de Kurt Wolff, fundador em 1908 de uma editora com o seu nome, cujas memórias acabam de sair no Brasil (foi o jornalista e escritor Paulo Nogueira quem escreveu um artigo sobre o livro no Estado de S. Paulo e me chamou a atenção). Kurt é o editor de Axel Munthe (lembram-se de O Livro de San Michelle?), Kafka, Pasternak, Calvino e muitos outros. Uma das suas frases lapidares: «Ter sorte é imprescindível – a esterilidade de uma época é pura fatalidade e, num período pouco criativo, o editor está condenado à impotência.» Como o compreendo.

11
Jul18

Uma inglesa em Portugal

Maria do Rosário Pedreira

Uma inglesa apaixonada por cavalos chegou a Portugal nos anos sessenta com o sonho de aprender a tourear. Determinada, aventureira e apoiada por famílias portuguesas importantes, Ginnie Dennistoun – que escolheria o nome artístico Virginia Montsol – não só venceu todas as barreiras como se tornou uma pequena celebridade no mundo fechado, elitista e masculino dos toiros, arrebatando o público com a sua elegância e beleza. Mas como se sentiria esta rapariga de vinte e poucos anos, alternando entre a Inglaterra dos Swinging Sixties, da emancipação da mulher, dos Beatles, da construção de uma sociedade mais igualitária, e o Portugal salazarista, pobre e marialva, onde as mulheres deviam ser obedientes e discretas e a sua relação com o mestre, bem mais velho do que ela, era certamente um escândalo? A Inglesa e o Marialva narra a vida de uma mulher de coragem que, contra tudo e contra todos, incluindo a própria família, venceu os constrangimentos do seu tempo. Amanhã fazemos o lançamento, apareça por lá.

 

A Inglesa e o marialva_ digital_convite.jpg

 

10
Jul18

Sinceridade e meia

Maria do Rosário Pedreira

Quando se recusa um original por falta de qualidade, está-se na verdade a fazer um grande favor ao autor e aos leitores. Mas a pessoa que o escreveu, a menos que seja alguém muito especial que prefira ser poupado a um enxovalho e a críticas negativas a ter um livro publicado, não vê as coisas assim. É bem certo que custa deitar fora um manuscrito que representou provavelmente um grande investimento em tempo, emoções e às vezes investigação; mas frequentemente a recusa é mesmo a única solução... O escritor Mário Cláudio, que é muito generoso com os que vêm pedir-lhe opinião sobre os seus escritos, contou recentemente no Facebook algumas histórias maravilhosas a este respeito. Numa delas, uma senhora entregou-lhe uma “versalhada do seu punho” para uma avaliação, e o escritor foi sincero e disse-lhe que aquela poesia não tinha qualidade; ao que a madame, em lugar de encaixar o veredicto, ripostou que então iria mandar os poemas a Gunther Grass, que até sabia português, porque ele talvez gostasse. Tinha uma cunhada na Alemanha que era cabeleireira da mulher do romancista alemão e, portanto, não seria difícil lá chegar...

09
Jul18

Ficheiros Secretos

Maria do Rosário Pedreira

Já tive vários computadores desde o meu velhíssimo Schneider, de 1990, com disquetes que se metiam numa ranhura no teclado e gravavam o documento. Quase sempre troquei de máquina quando apanhava um susto (até um copo de água entornei num portátil) e percebia que ela já estava mesmo a dar o berro; mas não me lembro de ter alguma vez perdido coisas demasiado importantes. Mesmo assim, gostaria de ter voltado a alguns desses discos em busca de rascunhos e coisas começadas, pois na verdade, nunca se sabe quando vem uma ideia boa para as continuar... Num velho computador de José Saramago, por exemplo, encontraram recentemente um novo Caderno de Lanzarote, o sexto e último, escrito no ano em que o escritor recebeu o Prémio Nobel da Literatura (1998). O ficheiro, na verdade, esteve sempre lá, numa pasta maior. No entanto, Pilar del Río pensava que só estavam dentro dela os cadernos publicados, até que um estudioso da obra de Saramago precisou de vasculhar os ficheiros dos cadernos (talvez para realizar buscas, que são muito mais práticas no ficheiro digital do que no exemplar em papel) e se descobriu uma pasta que tinha o número 6! Vamos poder saber o que escreveu o nosso Nobel nesse ano tão especial para ele (em que deve ter sido convidado para tudo e mais alguma coisa) no próximo mês de Outubro. O diário será lançado durante um congresso que dedicado ao escritor que assinala o vigésimo aniversário do recebimento do galardão. Imagino que, a par do contentamento, também tenha havido momentos de angústia e de um grande cansaço. Veremos.

06
Jul18

Briony e Florence

Maria do Rosário Pedreira

Lembram-se certamente do filme Expiação – baseado no romance homónimo na versão portuguesa (no original, Atonement) do escritor britânico Ian McEwan. Nessa obra, a irmã mais nova da protagonista desempenhada pela belíssima Keyra Knightley – a tremenda Briony que muda para sempre o destino de duas pessoas que se amam – era a actriz Saoirse Ronan, então uma miúda de apenas 13 anos que, ainda assim, foi nomeada para o Óscar de Melhor Actriz Secundária. Pois tem graça que esta mesma actriz, agora com uns aninhos em cima, é a protagonista de um filme recente baseado noutro romance de McEwan. Trata-se desta feita de A Praia de Chesil – e estou certa de que aqui escrevi em tempos sobre este livro excepcional que decorre nos anos 1960, antes ainda das grandes mudanças sociais (e sexuais) que acabaram por influenciar grande parte do mundo (os swinging sixties). O filme deve estar a estrear (ou já estreou) e vou tentar ir ver como o realizador, Dominic Cooke, passou para o grande ecrã uma história que está cheia de subtilezas e que tem como personagens centrais Florence e Edward, jovens recém-casados, em lua-de-mel na Praia de Chesil. Em todo o caso, mesmo que não queiram ir ver o filme, leiam o livro.

05
Jul18

Pseudónimos

Maria do Rosário Pedreira

Quando era ainda universitária conheci um poeta mais velho que, ao saber pelo meu pai que eu escrevia, pediu que lhe mandasse alguns textos. A sua resposta foi gentil e estimulante (mesmo assim demorei anos a publicar) mas, entre as várias afirmações simpáticas, continha uma que não o era: dizia que o meu nome (Maria do Rosário) não era um bom nome literário – e que eu, no momento em que me decidisse a dar à estampa os meus textos, deveria escolher outro. Não foi que não quisesse seguir o conselho de alguém mais sábio; mas, como comecei a publicar pelos livros juvenis, pediram-me na editora que assinasse com o meu nome por ter sido professora e assim poder ser reconhecida pelos ex-alunos (ainda eram bastantes) – e acabei por pensar que fazia sentido. Quando publiquei o meu primeiro livro de poesia, tantos anos mais tarde, pareceu-me estranho ter dois nomes e mantive o do BI. Nunca gostei de ser Maria do Rosário, e um pseudónimo talvez me aliviasse dessa carga pesada; porém, quando olho para os Top de livros e descubro nomes como Raul Minh’Alma e Afonso Noite de Luar, começo a pensar que fiz bem... Já não haverá pseudónimos normais?

04
Jul18

Uma questão de orgulho

Maria do Rosário Pedreira

Conheço José Tolentino Mendonça há muitos anos e até posso dizer que já recitámos poemas (de Cesariny, já agora) um ao outro, sentados nos degraus de uma feira de exposições na Bélgica (num intervalo entre sessões um tanto ou quanto aborrecidas) e que já tivemos um ataque de riso por causa de uma senhora que vestiu um cão a preceito para uma festa (tínhamo-lo visto nessa tarde com uma toilette mais casual, enfim). Não nos encontramos muito frequentemente, é verdade, mas sinto uma grande empatia e ternura pela pessoa que é, além de o considerar um grande poeta, um excelente tradutor, um homem muito culto, e de gostar do seu sorriso e do seu abraço. Por tudo isso – e também, vá lá, por ser patriota – enchi-me de orgulho ao ler nos jornais que esta grande figura da nossa cultura (que é também padre, vice-reitor da Universidade Católica e director do curso de Teologia) foi escolhido pelo papa Francisco para ser bibliotecário do Vaticano (do arquivo secreto e tudo, caramba!). Portanto, não podia deixar de partilhar com os Extraordinários a grande felicidade que senti e de aproveitar o blogue para felicitar o futuro arcebispo, título que vai também ser-lhe concedido. Espero que, com as tarefas que tem pela frente, ele não esqueça Portugal, a literatura e, claro, os seus fiéis amigos e leitores. Parabéns, querido Tolentino.

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