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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Set18

Folio

Maria do Rosário Pedreira

Começou ontem mais uma edição do Folio, o festival literário mais famoso do Outono, que decorrerá na Vila Literária de Óbidos até ao próximo dia 7 de Outubro e cujo tema é desta feita Ócio. Negócio. A Invenção do Futuro. Como de costume, o festival contará com a presença de variadíssimos autores estrangeiros, como Alan Hollinghurst, Claudia Piñeiro, Cynan Jones, Felipe Benítez Reyes, Gregório Duvivier... e também de muitíssimos portugueses que ali estarão em mesas-redondas e lançamentos de livros (Afonso Reis Cabral, Nuno Camarneiro e João Pinto Coelho, por exemplo, só para puxar a brasa à minha sardinha e pôr o comentador anónimo a reclamar). As exposições não faltarão (ilustração, fotografia, cerâmica...), nem os concertos, que desta vez englobam desde a música clássica (com um recital por Ana Paula Russo) ao fado (Ricardo Ribeiro e Fábia Rebordão) e à pop (Mafalda Veiga e Samuel Úria, por exemplo). Serão comemorados os 20 anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago e vai haver homenagens justíssimas a Eduardo Lourenço e Ribeiro Teles. Organizaram-se boas oficinas de escrita e de matemática, entre muitas outras actividades pensadas para todas as idades. O programa é extenso e pode ser consultado na Internet. Apareça por lá.

27
Set18

Mulheres

Maria do Rosário Pedreira

Escrevi anos a fio livros juvenis, muitos dos quais foram adaptados à televisão, mas a partir de uma certa altura fiquei um bocado farta de aventuras para adolescentes; depois disso, penso que só abri a excepção da literatura para adultos para escrever uma biografia de Amália Rodrigues chamada A Minha Primeira Amália (que, por sinal, me deu imenso gozo). Não imaginava por isso que fosse reincidir no género, mas não resisti a aceitar o convite de Filipa Casqueiro, editora da Booksmile, até porque foi ao meu lado que ela começou nos livros e hoje está aí a dar cartas e estou eu aqui a escrever para ela. Pois bem, como parece que as mulheres estão em alta no mundo inteiro, o livro que a Filipa me encomendou e é lançado hoje (e que tive o maior gosto em escrever, sobretudo por tudo o que aprendi na fase de investigação) é sobre mulheres: mulheres portuguesas e extraordinárias. Por decisão minha, preferi seleccionar apenas mulheres que já morreram, para estarem todas em igualdade de circunstâncias; mas no conjunto existem figuras históricas, cientistas, desportistas, aventureiras, políticas e muito mais, de vários séculos até à actualidade. O livro, ilustrado pela talentosíssima Elsa Martins (que apanhou lindamente as figuras sem as pôr com ar de caricaturas) está à venda desde dia 17, mas a apresentação oficial, com apresentação de Isabel Soares (ela própria filha de uma portuguesa extraordinária), ocorrerá mais logo no Colégio Moderno, em Lisboa, às 18h30. Apareçam por lá e levem as vossas crianças, rapazes e raparigas. Estão todos convidados!

 

Convite Lançamento Portuguesas Extraordinarias.jp

 

26
Set18

Mais Eça

Maria do Rosário Pedreira

Eça de Queirós foi recentemente objecto de uma infinidade de textos de opinião na imprensa portuguesa pelo facto de o Ministério da Educação ter tornado facultativa a leitura do seu romance Os Maias (e, mais tarde, ter revisto a sua posição). Há quem pense que, de facto, metade dos alunos, viciados em smartphones e leitura rápida, já não conseguem compreender a prosa queirosiana (ou mesmo grande parte do que é literário); e há quem saiba também que muitos professores dão Os Maias apoiados nos manuais e guias do professor que lhes fazem a papa toda, mas que eles próprios, afinal, não os leram quando eram da idade dos seus alunos. Eça, nos 130 anos da publicação da sua obra-prima, vai ser o tema de mais uma sessão do Ler no Chiado, conduzida pela jornalista Anabela Mota Ribeiro (se calhar ainda não refeita das actividades na Feira do Livro do Porto, que ainda agora terminou). É já hoje à tarde, pelas 18h30, na Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, e contará com a prestimosa colaboração do professor Carlos Reis, que falará decerto das figuras maiores criadas pelo grande mestre: Carlos da Maia e João da Ega, José Fernandes e Jacinto, o conselheiro Acácio, o José Matias, o padre Amaro, Maria Eduarda e tantas outras. Para quem queira aprender sobre Eça sem ser pelos insossos manuais, aconselho esta sessão.

25
Set18

O senhor Lobo Antunes

Maria do Rosário Pedreira

Se há coisa de que não se pode acusar o escritor António Lobo Antunes é de escolher maus títulos: os seus títulos são sempre um primor, mesmo que frequentemente surripiados a versos de alguns dos seus confrades portugueses e estrangeiros, e o do seu mais recente romance não é excepção: A Última Porta antes da Noite. Vai seguramente correr-lhe bem, já que, nos últimos tempos, lhe têm acontecido coisas bem boas – e há períodos assim, em que parece que tudo se conjuga de forma positiva. Pois então, depois do mais famoso escritor português lá fora – Fernando Pessoa, pois claro –, foi a vez de António Lobo Antunes chegar à prestigiada colecção Pléiade, da editora Gallimard, um privilégio de que mesmo muito poucos podem gabar-se. Está contente o senhor Lobo Antunes, e estamos nós, por ver a França distinguir pela segunda vez um autor português, elevando-o à categoria de escritores como Kundera, Proust, Dickens ou Vargas Llosa, para mencionar apenas alguns. Se toda a gente comenta que Lobo Antunes perdeu a oportunidade de ganhar o Nobel da Literatura quando Saramago lho arrebatou há vinte anos, invalidando que o mesmo fosse para a língua portuguesa por um longo período, pois agora deve estar de papinho cheio.

24
Set18

Qual pátria?

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui disse que, durante as minhas férias, li muitas páginas, mas poucos livros. Talvez tenham pensado que li sobretudo jornais e revistas, mas não: o que quis dizer foi que «papei» um calhamaço de 700 páginas que me ocupou quase duas semanas. Trata-se do aplaudido e multipremiado Pátria, de Fernando Aramburu: um grande romance que todos devem ler para entender da melhor forma possível o que aconteceu no País Basco com a ETA, os que abraçaram a «luta armada», as suas vítimas (não estou a falar apenas de juízes, polícias e políticos, mas de pobres diabos que, por terem meia dúzia de tostões, foram intimados a dar dinheiro para «a causa» e assassinados quando se recusaram a fazê-lo) e os que simplesmente nasceram em Donostia e tiveram de viver diariamente com o medo ao longo de muitos anos. O romance é exemplar, tomando como ponto de partida a história de duas famílias muito chegadas (dois casais e os seus filhos) e aparentemente inseparáveis – as mulheres tomando chá juntas na pastelaria, os homens andando de bicicleta aos domingos ou jogando cartas, as raparigas cúmplices nos momentos difíceis, os miúdos a aprenderem a andar de bicicleta na casa dos outros. O problema é que, numa das famílias, há um filho problemático (o do meio) que se torna etarra ainda adolescente e, na outra, uma morte às mãos dos terroristas… A narrativa começa, curiosamente, pelo fim: no dia em que a ETA anuncia a cessação da luta armada; e, mesmo que se trate de uma óptima notícia, é tarde demais para quase tudo, sobretudo para perdoar – ou talvez não. Um livro maravilhoso que mostra como a política marca as vidas dos cidadãos todos os dias das suas vidas e como, por vezes, a amizade é invencível.

20
Set18

Incapacidades

Maria do Rosário Pedreira

O meu pai era um homem muito inteligente (não sou só eu a dizê-lo, isto para que percebam que não se trata de uma filha a elogiar o pai); mas tinha uma extrema dificuldade, por exemplo, em atravessar a rua ou fazer um simples levantamento no Multibanco. Conheci pessoas brilhantes que nunca conseguiram tirar a carta de condução ou preencher os papéis do IRS. Ainda hoje há um senhor que é considerado um dos nossos grandes autores literários que só faz voos que tenham escalas se alguém o acompanhar, pois de outro modo é provável que se engane nas portas e fique em terra. Mesmo mandar um fax, no tempo anterior aos computadores, foi para um intelectual de excepção que todos nós conhecemos, Eduardo Lourenço, uma tarefa complexa (creio que já falei disso aqui no blogue). Existe, enfim, um certo tipo de inteligência que não se articula com o pragmatismo e a vida de todos os dias, e não podemos chamar burro a alguém que não sabe atar os atacadores dos sapatos, porque uma coisa não tem nada que ver com a outra. Um dia destes, tropecei, de resto, numa frase de Natália Correia no mural do Facebook da escritora Filipa Martins que exprime bem o que digo. Partilho por ser belíssima e também porque percebo melhor o meu pai através dela: «Eu sou desastrada, sou uma pessoa débil, uma pessoa falhada, alegremente, conscientemente falhada em muitas coisas. Não sei tratar de nada, na ordem das coisas práticas, não sei assinar um cheque, sou perfeitamente desastrada. Só sei escrever.»

19
Set18

Fado da saudade

Maria do Rosário Pedreira

Há pessoas que, embora não tendo sido propriamente íntimas, conhecemos relativamente bem; e, porque já morreram (e demasiado cedo), de vez em quando sentimos saudade delas. Além das saudades, fazem-nos falta (a nós, pessoalmente, e ao País). Falo, por exemplo, do ecléctico Eduardo Prado Coelho (nunca mais houve outro intelectual assim tão versátil e aberto a escrever nos nossos jornais, e ele fazia-o TODOS os dias) e do poeta Vasco Graça Moura (VGM), o maior lutador contra o Acordo Ortográfico que tivemos em Portugal, um grande poeta e um enormíssimo contador de anedotas. Fiquei, aliás, bastante feliz quando soube recentemente que a Quetzal acaba de publicar um livro de inéditos de VGM que parece mesmo feito a pensar em mim. Chama-se A Puxar ao Sentimento e é uma compilação de letras para fado (Trinta e Um Fadinhos de Autor, reza o subtítulo). Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Mísia, Patrícia Costa e outras fadistas já cantaram letras do grande poeta que estão publicadas num livrinho chamado Letras do Fado Vulgar; vamos ver agora quem se atira a este livrinho e empresta a sua voz aos textos. Eu vou lê-lo, isso é mais do que certo, excelente forma de recordar VGM quatro anos passados da sua morte (já?!).

 

A puxar ao sentimento.jpg

 

 

18
Set18

Pão de Açúcar

Maria do Rosário Pedreira

Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores do Porto resgataram do fosso de um prédio abandonado um corpo com marcas de agressões e nu da cintura para baixo. A vítima, que estava doente e se refugiara naquela cave, fora espancada ao longo de vários dias por um grupo de adolescentes, alguns dos quais tinham apenas doze anos. Inicialmente, tinha sido descoberta por um deles numa espécie de barraca por causa de uma bicicleta velha; e a relação até podia ter sido pacífica, mesmo que a atracção às vezes e transformasse em repulsa – mas que vale um tesouro que não pode ser mostrado? Esta é a história que serve de base ao segundo romance de Afonso Reis Cabral, o mais novo vencedor do Prémio LeYa desde sempre (venceu-o em 2014 com O Meu Irmão e não teve pressa de voltar a publicar, o que é um bom sinal). Pão de Açúcar (que é também o nome por que ficou conhecido o local da tragédia porque para ali fora projectado um grande supermercado), romance vertiginoso sobre um caso que abalou o País, é uma combinação magistral de factos e ficção, com personagens reais e imaginárias meticulosamente desenhadas, e sai hoje para as livrarias. Merece, sem dúvida, ser lido de fio a pavio.

 

ARC Pão de Açucar K 4 (3).jpg

 

17
Set18

Traficar com estilo

Maria do Rosário Pedreira

Há notícias que até parecem anedotas, e esta li-a recentemente no Jornal de Notícias. Sei como a ortografia deve ser estimada e respeitada; mas, com tudo o que vejo por aí, mesmo por parte de quem quer ser escritor, nunca me passaria pela cabeça que se conseguissem confiscar quatro toneladas de marijuana por causa de um erro ortográfico. A verdade, porém, é essa. Tudo aconteceu no Brasil, na zona de São Paulo, e a droga vinha escondida entre embalagens de peitos de frango congelados num camião que se dirigia a Vila Velha (Espírito Santo). Numa operação stop, o camião foi interceptado, mas, ao que parecia, a documentação da carga estava em ordem e poderia seguir. O problema foi que a guia de transporte mencionava «dorço de frango»  (pelos vistos, é «dorso» que lá chamam ao nosso «peito») e o erro alertou as autoridades que, em poucos minutos, descobriram que a papelada era forjada e encontraram 3920 quilos de erva no meio das embalagens. O condutor, de 31 anos, foi imediatamente preso e a droga confiscada. Ainda há polícias rodoviários que sabem ortografia, que sorte. Uma boa primária faz muita falta... Até para traficar, claro.

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