Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Out18

Personae na Internet

Maria do Rosário Pedreira

Quando escrevia regularmente livros de ficção juvenil era convidada muitas vezes para ir às escolas falar com os alunos do quinto e sexto anos sobre o meu método de escrita, as histórias que inventava, como tinha começado a escrever, porque decidira criar aquelas personagens e enredos, enfim, um sem-número de assuntos ligados ao ofício do escritor ou a algum livro em particuar que o professor estivesse a trabalhar com a turma. Lembro-me de que frequentemente os miúdos perguntavam aonde ia eu buscar aquelas ideias ou histórias; e eu respondia que, na maioria das vezes, as ia buscar à «massa cinzenta» (mas deixei de o fazer porque grande parte dos alunos já nem conhecia a expressão). No entanto, explicava-lhes que para se ser escritor é preciso ter imaginação e pôr a cabeça a trabalhar, mesmo que nos possamos sempre inspirar em pessoas reais e coisas que aconteceram. Mas agora, pelos vistos, os escritores têm muito aonde buscar inspiração (e não deixa de ser na realidade). Leio no suplemento literário do El país de há uma semana e tal um artigo sobre jovens romancistas espanhóis bastante interessante. Nele, uma das autoras confessa passar bastante tempo no Instagram para recolher ideias para as suas personagens e, o que é mais curioso, ter-se metido num Chat durante vários dias para as tornar mais credíveis... E esta, hein?

11
Out18

Um novo dicionário

Maria do Rosário Pedreira

Para quem gosta, como eu, da nossa língua, é sempre de saudar a chegada ao mercado de um novo dicionário, mesmo quando o novo nem é assim tão novo. Esquisito? Deixem-me explicar. Tendo por base o Dicionário Verbo da Língua Portuguesa que, por desaparecimento desta editora, já não se encontrava disponível, a Texto pegou na sua última edição, que foi completamente revista e aperfeiçoada, e integrou desde logo cerca de 3000 novas unidades lexicais. Mas não só: esta nova edição inclui uma função de gramática e prontuário, a conjugação verbal alargada, definições objectivas com exemplos e paráfrases, frequentemente seguidas de sinónimos..., enfim, é um instrumento fundamental para quem aprende e ensina português (é o único dicionário elaborado com o apoio do Ministério da Educação), mas é também um excelente dicionário para as pessoas que trabalham «com» a língua: tradutores, editores, escritores e por aí fora. Além disso, tem um formato fácil de manusear e uma capa verde alface que se vê bem no meio de todos os outros. Bem-vindo, Dicionário da Língua Portuguesa – Léxico, Gramática e Prontuário, da autoria de Aldina Vaza e Emília Amor.

 

 

 

 

10
Out18

Coisas que já não há

Maria do Rosário Pedreira

Li num destes sábados um artigo belíssimo, no suplemento «Babelia» do jornal El País, sobre os 50 anos da editora espanhola Tusquets (e os 80 de Beatriz de Moura, sua proprietária) e o anúncio da oferta do seu espólio à Biblioteca Nacional de Espanha. Um espólio destes, reparem, não é de deitar fora: contém correspondência manuscrita com García Márquez, Vargas Llosa ou Milan Kundera, entre outros, com mimos, cumplicidades, zangas e reclamações. Fundada por Beatriz de Moura e Toni López Lamadrid, a Tusquets foi das editoras mais importantes do país vizinho. Começou no tempo em que as editoras emprestavam dinheiro aos autores quando eles estavam nas lonas e em que os escritores-estrelas, quando as editoras passavam por dificuldades e lhes pediam ajuda, sacavam da cartola «um presente que te fará rica», como aconteceu com o famoso autor de Cem Anos de Solidão num momento de aflição da Tusquets, dando-lhe para publicação Relato de Um Náufrago (e a capa do original manuscrito pertence ao conjunto de documentos que vão ser oferecidos à biblioteca), reportagem que fora publicada em fascículos num jornal colombiano dirigido por Álvaro Mutis. Quando Beatriz perguntou se tinha de pagar alguma coisa ao jornal, Gabo respondeu que não, que trataria disso... Imagino como é importante conservar a memória destas relações num momento em que já não existem editoras deste modelo (provavelmente, também os autores serão hoje muito diferentes) e se perde facilmente o registo de testemunhos (tudo é digital) que desaparecerão para sempre quando desaparecerem as pessoas.

09
Out18

No Porto com Gisberta

Maria do Rosário Pedreira

Sobre Gisberta, a transexual brasileira assassinada por um grupo de adolescentes institucionalizados há uma dúzia de anos na cidade do Porto, escreveu e compôs Pedro Abrunhosa uma bonita balada que depois foi também cantada por Maria Bethânia. Fizeram-se, além disso, documentários. Escreveram-se artigos. Irá estrear (em Novembro, no Teatro Sá da Bandeira no Porto e, em Dezembro, no Tivoli em Lisboa) uma peça escrita por Luís Lobianco do colectivo Porta dos Fundos que teve um enorme sucesso no Brasil. Enfim, a tragédia pelos vistos gerou arte e é também disso que falaremos hoje à tarde na Invicta, mais precisamente no Café do Rivoli, quando fizermos o lançamento do mais recente romance de Afonso Reis Cabral, Pão de Açúcar, que explora sob a forma de ficção as causas e os efeitos deste acontecimento tanto em relação aos criminosos como à vítima. Fugindo um pouco ao modelo tradicional das sessões de apresentação de livros, celebra-se a saída deste com uma conversa em que participarão o autor e Pedro Abrunhosa e que será moderada pelo jornalista Valdemar Cruz, do semanário Expresso. Apareça!

 

Convite_PaoDeAcucar_Porto.jpg

 

08
Out18

Amigos e coisas boas

Maria do Rosário Pedreira

Tenho amizades firmes de há muitos anos (algumas há mais de quarenta) e sempre achei que fazer amigos depois de certa idade não era fácil, se bem que, mal conheci a fadista Aldina Duarte, senti uma empatia especial e ficámos amigas num instante. Pensei, mesmo assim, que era um caso excepcional. Porém, há cerca de um ano, conheci um poeta espanhol, agora professor do Instituto Cervantes em Lisboa, de seu nome Juan Vicente Piqueras (leiam-no!), e  de repente parecia que ele nos conhecia, ao Manel e a mim, desde sempre, de tal modo eram grandes as afinidades e a intimidade se estabeleceu num ápice. O Juanvi foi também professor em Roma, onde morou muitos anos, e sabe que eu aprendi italiano e que ainda consigo lê-lo, apesar de ser cada vez mais difícil; vai daí ofereceu-me pelos anos uma preciosidade de que tenho de falar aqui: um livro maravilhoso de Dino Buzzati, chamado I miracoli di Val Morel, que, não bastando ser escrito pelo fabuloso autor italiano, é também ilustrado por ele! Tem por base um caderninho de ex-votos muito antigo que Buzzati encontrou na biblioteca do pai quando era jovem e que descrevia os variados milagres realizados por Santa Rita de Cássia na região. Reproduzindo-os um por um (salvação para monstros marinhos, gatos vulcânicos, raparigas raptadas, homens enfeitiçados por um sorriso e muito mais) e juntando-lhes ilustrações incríveis (o prefácio de Lorenzo Viganò fala destes dotes de Buzzati), este livrinho é mesmo uma delícia que me podia ter sido oferecida por uma pessoa que me conhecesse há muitos anos, mas inesperado vindo de alguém que é recente na minha vida. Há, por isso, milagres além dos de Val Morel. Um bocadinho de livro para abrir o apetite:

 

IMG_20180929_122451_resized_20180929_122521501 (2)

 

04
Out18

Aproveitamento

Maria do Rosário Pedreira

Dantes, as pessoas eram mais aproveitadinhas: do resto da carne assada do jantar faziam fatias recheadas com picado ou croquetes para o dia seguinte. Deixem-me fazer algo parecido. Não sei se deram conta (tenho quase a certeza de que não), mas no domingo passado comecei a colaborar como cronista do Diário de Notícias. É uma crónica semanal que me sai do pêlo, como se costuma dizer, sobretudo com tanta coisa que eu já tenho para fazer (este blogue é uma delas). Por isso, tomei a decisão de, às sextas, em vez de publicar aqui um post novinho em folha, vir pôr o link da crónica que saiu no domingo imediatamente anterior. Não vai ter que ver sempre com livros ou edição; não será sempre um assunto novo para os Extraordinários que me acompanham há já oito anos; incluirá recordações da minha infância e preocupações relativamente aos tempos que se avizinham. Chama-se Adeus, futuro e terá um subtítulo que, esse, sim, mudará todas as semanas. Quem não a quiser ler tem bom remédio. E, como amanhã é dia de descanso, começo já hoje a «linkar». Até segunda!

 

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/maria-do-rosario-pedreira/interior/poesia-e-cifroes-9929251.html

 

03
Out18

Escritores ingleses e restaurantes indianos

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, no Facebook, a tradutora Tânia Ganho estava a mostrar a maravilhosa capa do mais recente romance de Alan Hollinghurst (reproduzo-a abaixo, uma vez que o livro é publicado pela minha colega Carmen Serrano), de que foi a tradutora. E lembrei-me de que jantei com o Manel e esse mesmo Alan Hollinghurst há muitos anos (quando saiu A Linha da Beleza) num restaurante indiano que ficava perto de Santa Apolónia (não juro, mas tenho ideia de que o autor inglês era vegetariano). Entre outras coisas, recordo-me de ele ter adorado aqueles brincos que acendem e apagam na orelha de um indiano que vendia flores e coisas desnecessárias (que não comprámos). O Manel disse-me pouco depois que outro escritor britânico que também publicou, Jonathan Coe, lhe contou que, um dia, a operadora de telefone que usava lhe deu a hipótese de não pagar as chamadas para os três números que ele mais ligava (era uma campanha); Coe julgava que o que estava no topo dos seus telefonemas era o da mãe, mas a operadora verificou que não, que era o do restaurante indiano com serviço de entrega ao domicílio que havia ao virar da esquina. Imagino que os escritores portugueses sejam mais do género de comer comidinha caseira… mas, com tanta motorizada pela cidade, talvez recorram ao Uber Eats. Alan Hollinghurst vem a Portugal, a Óbidos, para o lançamento do novo romance.

 

320x.jpg

 

02
Out18

Envelhecer

Maria do Rosário Pedreira

Fiz anos há pouco tempo, como sabem (não escrevi post nesse dia), e não sei se é pela proximidade dos 60 mas a verdade é que fiquei um bocado deprimida. Disse sempre que guardaria alguns destinos de viagem para a velhice (os mais próximos em termos geográficos) e, nova ainda, aproveitei para ir a locais distantes (alguns a trinta horas de avião, incluindo escalas). Mas com os livros fiz o contrário – e deixei algumas coisas de peso que requerem tempo, descanso, maturidade e paciência para a reforma ou, enfim, um pouco antes dela. Ora, percebi que isso não vai acontecer. Estava a arrumar alguns livros no fim-de-semana quando descobri que, relativamente a dois autores de que gosto particularmente (Roth e McEwan), só me lembro bem dos livros que li há mais tempo; e os que li há menos tempo é quase como se não tivesse lido, fizeram-se um apagão… Confundi Humilhação com Todo o Mundo, por exemplo; e, ao ver que o britânico escreveu o guião para o filme A Balada de Adam Henry (que estreou há pouco), tentei lembrar-me do enredo do romance e só via uma juíza em crise de casamento mas já não me lembrava do rapaz que era testemunha de Jeová (tive de ir à Wook para refrescar a memória). Tenho a impressão de que, se é para esquecer em três tempos, vai ser frustrante ler as obras-primas que planeei, mesmo que durante a leitura me dêem muito gozo, e se calhar é melhor não lhes tocar. Que chatice.

 

P.S. De ontem até dia 7 decorre a Escritaria em Penafiel, desta vez dedicada ao escritor angolano Pepetela. Se estiver por essas bandas, vale muito a pena.

01
Out18

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Por acaso, já acabei, mas é dele que falo agora porque se apresenta a oportunidade e depois sei lá se não me esqueço. Em primeiro lugar – há que dizê-lo –, é preciso louvar a autora pela coragem de publicar um romance quando é crítica literária há tantos anos (telhados de vidro, portanto). Ana Cristina Leonardo, uma senhora da minha idade (com um humor verrinoso que quase sempre lhe fica bem), escreveu O Centro do Mundo, uma peça literária bastante diferente dos romances ditos clássicos; a história debruça-se sobre o espião Boris Skossyreff, apátrida, cheio de dívidas e pretenso rei de Andorra, que passa por Olhão (lugar que figura na capa do romance e é a terra natal da autora) nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, em busca de um barco que o leve a Marrocos; é em Olhão que conhece um médico e intelectual que, com várias outras vozes, acabará por ajudar a contar a história da sua passagem por Portugal muitos anos mais tarde. Esta história, cujos episódios se estendem à guerra civil de Espanha e ao nazismo, terminarão com o magro Skossyreff esfomeado num gulag na Sibéria (aqui são belíssimas as descrições, para mim as melhores do livro, juntamente com as das primeiras páginas). A autora interpela-nos, provocadoramente, ao longo da narrativa, inclusive para nos cultivar (há notas de rodapé para quem quiser aprender). Uma interessante estreia na ficção para adultos.