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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

02
Out18

Envelhecer

Maria do Rosário Pedreira

Fiz anos há pouco tempo, como sabem (não escrevi post nesse dia), e não sei se é pela proximidade dos 60 mas a verdade é que fiquei um bocado deprimida. Disse sempre que guardaria alguns destinos de viagem para a velhice (os mais próximos em termos geográficos) e, nova ainda, aproveitei para ir a locais distantes (alguns a trinta horas de avião, incluindo escalas). Mas com os livros fiz o contrário – e deixei algumas coisas de peso que requerem tempo, descanso, maturidade e paciência para a reforma ou, enfim, um pouco antes dela. Ora, percebi que isso não vai acontecer. Estava a arrumar alguns livros no fim-de-semana quando descobri que, relativamente a dois autores de que gosto particularmente (Roth e McEwan), só me lembro bem dos livros que li há mais tempo; e os que li há menos tempo é quase como se não tivesse lido, fizeram-se um apagão… Confundi Humilhação com Todo o Mundo, por exemplo; e, ao ver que o britânico escreveu o guião para o filme A Balada de Adam Henry (que estreou há pouco), tentei lembrar-me do enredo do romance e só via uma juíza em crise de casamento mas já não me lembrava do rapaz que era testemunha de Jeová (tive de ir à Wook para refrescar a memória). Tenho a impressão de que, se é para esquecer em três tempos, vai ser frustrante ler as obras-primas que planeei, mesmo que durante a leitura me dêem muito gozo, e se calhar é melhor não lhes tocar. Que chatice.

 

P.S. De ontem até dia 7 decorre a Escritaria em Penafiel, desta vez dedicada ao escritor angolano Pepetela. Se estiver por essas bandas, vale muito a pena.

01
Out18

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Por acaso, já acabei, mas é dele que falo agora porque se apresenta a oportunidade e depois sei lá se não me esqueço. Em primeiro lugar – há que dizê-lo –, é preciso louvar a autora pela coragem de publicar um romance quando é crítica literária há tantos anos (telhados de vidro, portanto). Ana Cristina Leonardo, uma senhora da minha idade (com um humor verrinoso que quase sempre lhe fica bem), escreveu O Centro do Mundo, uma peça literária bastante diferente dos romances ditos clássicos; a história debruça-se sobre o espião Boris Skossyreff, apátrida, cheio de dívidas e pretenso rei de Andorra, que passa por Olhão (lugar que figura na capa do romance e é a terra natal da autora) nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, em busca de um barco que o leve a Marrocos; é em Olhão que conhece um médico e intelectual que, com várias outras vozes, acabará por ajudar a contar a história da sua passagem por Portugal muitos anos mais tarde. Esta história, cujos episódios se estendem à guerra civil de Espanha e ao nazismo, terminarão com o magro Skossyreff esfomeado num gulag na Sibéria (aqui são belíssimas as descrições, para mim as melhores do livro, juntamente com as das primeiras páginas). A autora interpela-nos, provocadoramente, ao longo da narrativa, inclusive para nos cultivar (há notas de rodapé para quem quiser aprender). Uma interessante estreia na ficção para adultos.

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