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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

19
Nov18

Dilemas

Maria do Rosário Pedreira

Todos temos, como vimos há dias, pouco tempo (e vontade?) para ler jornais. Mesmo assim, há jornais que são para nós uma referência – e há muito que tomei The Guardian como uma delas. Subscrevo, de resto, algumas das suas newsletters (assim, fico a par de coisas em que, possivelmente, não repararia) – uma das quais é a que respeita às suas muitas masterclasses, esperando um dia ter tempo, dinheiro e loucura suficientes para me meter num avião e ir assistir a uma lição dada por um daqueles craques que eu adoro (escritores, jornalistas, actores – há muito por onde escolher). Na sexta, de resto, recebi uma mensagem da secção de masterclasses, e o assunto era : «O que oferecer a alguém que tem tudo?» Por um segundo, pensei que só mesmo o meu jornal de eleição para conseguir organizar uma masterclass sobre isso (quase pensei apanhar o avião para resolver o próximo Natal em termos de presentes); mas, ainda estava a clicar sobre o link quando percebi que o que eles queriam era que eu oferecesse a alguém a quem não sei o que dar uma masterclass das deles. Ou seja, que eu oferecesse conhecimento. É uma boa ideia, claro que é, e não fosse ter de juntar também a passagem aérea já tinha prenda para muitos amigos…

16
Nov18

Crónica e site

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica e, como tal, aqui vai o link da última:

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/11-nov-2018/interior/adeus-futuro-o-fim-da-intimidade-10149511.html

 

Acrescento que há na Net um excelente site para visitar, o do escritor e tradutor Frederico Lourenço, e não só porque é fundamental consultá-lo para conhecer melhor como trabalha este grande conhecedor dos clássicos, mas também porque, numa secção chamada «Apontamentos», tem inéditos, e os seus textos são sempre bons, mesmo os pequenos apontamentos pessoais que publica no Facebook. Vão, por favor, espreitar:

 

http://fredericolourenco.booktailors.com/

 

15
Nov18

Nas ruas de Lisboa

Maria do Rosário Pedreira

Sabem quem vai andar pelas ruas de Lisboa entre amanhã e o final do mês? Basta pensar um pouco, porque acontece todos os anos: Pessoa e Saramago! Sim, vêm aí os Dias do Desassossego e haverá actividades diariamente, ou quase, até dia 30. A Fundação Saramago recebe logo no dia da inauguração um espectáculo musical às cinco da tarde (El Sur) e, em Campo de Ourique, vai haver muito que fazer no dia seguinte, desde uma oficina de silêncio para crianças da parte da manhã, na Casa Fernando Pessoa, pela mão de Marina Palácio (de quem já falei aqui no blogue), até uma leitura de poemas espirituais do Oriente e do Ocidente, seleccionados por João Barrento, na Igreja de Santa Isabel, às 16h30. Mas a oferta é, como sempre, variada: mesas-redondas, leituras, teatro, passeios, música, debates e até uma «leitura-concerto» sobre o Pessoa prosador no dia 24 (mas nessa altura estarei a caminho de Guadalajara, no México, para a Feira do Livro). Na rua do Patrocínio haverá ainda arte por Opiemme, a quem chamam «poeta da arte urbana». Enfim, já merecíamos algum desassossego.

 

P. S. Hoje, na Livraria Arquivo, em Leiria, apresentamos o romance Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral. Se estiver por perto, dê lá um saltinho.

14
Nov18

Cem anos de Sophia

Maria do Rosário Pedreira

Martim Sousa Tavares, neto de Sophia de Mello Breyner Andresen, cujo centenário se comemora em 2019, foi convidado para ser o curador da Galeria de Biodiversidade – Centro Ciência Viva,com sede na Casa Andresen, em pleno Jardim Botânico do Porto, lugar onde a poetisa viveu durante a infância e que é referido várias vezes na sua obra. Confessando que a avó era bastante avessa a homenagens, Martim Sousa Tavares (músico e maestro que gosta de descomplicar a música erudita, filho do conhecido jornalista e da não menos conhecida jornalista Laurinda Alves) vai centrar a sua intervenção nos apoios à criação, forma de celebrar a vida da escritora através de obras que dialoguem com a sua e de algum modo a interpretem. «Haverá exposições inéditas de fotografia e pintura, teatro, contos em música, concertos, literatura e pensamento, num esforço de convocar o melhor da criatividade actual para esta efeméride», diz o jovem curador. Ficamos, naturalmente, a aguardar datas e programas com muita curiosidade.

13
Nov18

Defender a verdade

Maria do Rosário Pedreira

Hoje a maioria das pessoas já não compra jornais, o que não quer dizer que não os leia na Internet (não estou a falar de assinatura). Eu compro. Gosto do jornal em papel com as páginas todas a estalar e de o folhear de trás para a frente, hábito que julgo ter ganho há anos com a leitura da crónica de Eduardo Prado Coelho na última página do Público – e que agora aplico a todos os outros diários e semanários que costumamos comprar lá em casa (embora leia as revistas do princípio para o fim). Quando vejo uma notícia num jornal impresso, tendo a acreditar nela – o que já não me acontece, por exemplo, se a vir divulgada numa rede social (a morte de um actor ou escritor, um acidente, etc., tantas vezes seguida de um comentário a dizer que é treta). Em tempo de fake news usadas em campanhas políticas contra os adversários (há quem receba um ordenado para espalhar boatos desagradáveis e acusações graves), temos de ter cada vez mais sentido crítico e desconfiança em relação ao que lemos por aí – e, por isso, os jornais tradicionais continuam a ser uma espécie de porto seguro, sobretudo enquanto ainda lá trabalharem profissionais da verdade. Mas, para garantirmos que mantêm alguma isenção e não se deixam influenciar, que têm jornalistas a sério que não se vendem por tuta e meia, precisamos urgentemente de fazer com que se vendam mais, ou seja, precisamos de os comprar. Eu compro um todos os dias e três ao fim-de-semana. Compre também um jornal de vez em quando.

12
Nov18

Listas

Maria do Rosário Pedreira

Para não perdermos o hábito das listas – que, pelos vistos, são sempre boas sugestões para este ou aquele leitor, descubro uma longa lista de mais de 100 livros bons numa revista brasileira, de resto encabeçada por uma fantástica frase de Umberto Eco: «O mundo está cheio de livros que ninguém lê.» Pois, é isso mesmo, e a Revista Prosa Verso e Arte resolve conjugar autores clássicos e contemporâneos que acha que um dia vão ser clássicos, desde O Nome da Rosa, do próprio Eco, O Estrangeiro, de Camus, 1984, de Orwell, O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, O Principezinho, de Saint-Exupéry, ou Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky – isto para falar apenas dos títulos que ocupam os primeiros lugares (não sei se por serem os mais votados, se a ordem é arbitrária). Mas lá pelo meio há coisas se calhar mais inesperadas, como As Flores do Mal, de Baudelaire, e A Tarde de Um Fauno, de Mallarmé (que, quanto a mim, já são livros algo exigentes e pressupõem o gosto pelo género e hábitos de leitura mais firmados), ou mesmo Diante da Dor dos Outros, de Susan Sontag, autora que raramente vemos nestas listas. No entanto, se quiser perder uns minutos a ganhar ideias para as próximas leituras ou a ver quantos destes já «papou», aqui fica o link:

https://www.revistaprosaversoearte.com/160-livros-essenciais-da-literatura-mundial-quais-voce-ja-leu/

09
Nov18

Crónica e surpresa

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de partilhar a crónica de domingo passado. Aí vai o link:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/04-nov-2018/interior/adeus-futuro-copy-paste-10114554.html

 

Para acrescentar qualquer coisa antes de irem para fim-de-semana, descobri que hoje, no Museu de Imprensa da Madeira, em Câmara de Lobos, Alberto João Jardim lança o seu... preparem-se... romance! Romance? É que fiquei mesmo surpreendida. Chama-se diz «Não!» (a minúscula é do autor), e uma cinta amarela berrante avisa-nos de que se trata de «Uma ficção sobre as mudanças na sociedade portuguesa neste século XXI». Pela contracapa, as personagens são estudantes que, nos anos 1970, vieram tirar os seus cursos para o continente, onde travaram conhecimento, e que, quarenta anos depois, são homens e mulheres de sucesso, actores da política nacional, integrando ou pelo menos acompanhando de perto um novo partido regenerador que pretende alterar os poderes instalados e ganhar as eleições para governar em 2020. Enfim, não decidi ainda se vou ler.

08
Nov18

A pontuação de um Nobel

Maria do Rosário Pedreira

No mês passado, a propósito das longas e variadas comemorações dos vinte anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, contaram-me uma história deliciosa. Tendo-se Saramago tornado muito mais conhecido em todo o mundo depois de receber o galardão, o que é natural, acordou, pelos vistos, o desejo de ser lido por muitos emigrantes portugueses em vários países, subitamente orgulhosos de verem um seu conterrâneo assim distinguido. Um desses emigrantes, vindo de férias a Portugal, lá comprou antes de regressar ao país de adopção um exemplar de um dos romances do escritor. Porém, pouco depois de iniciar a leitura, sentiu-se defraudado e, pondo o pé em terra, enviou imediatamente à editora uma reclamação. Dizia que o exemplar que lhe coubera em sorte era ilegível porque a pontuação estava toda errada e era frequentemente omissa; e que de certeza muitos outros leitores já tinham dado pela calamidade, pelo que por certo a editora tinha maneira de substituir os exemplares defeituosos por outros que tivessem as vírgulas no sítio. Afinal, o leitor não tinha culpa nenhuma do sucedido e, não tencionando voltar a Portugal antes do mês de Agosto do ano seguinte, era mais do que justo que lhe enviassem por correio, sem custos, um exemplar «legível»…

07
Nov18

O meu gosto

Maria do Rosário Pedreira

A pedido de várias pessoas, quase todas visitantes deste blogue, venho partilhar a lista dos dez livros que escolhi para o programa de sábado passado, O Gosto dos Outros, na categoria "Os 10 Livros mais Importantes da Literatura Portuguesa do Século XXI" (e da qual só um título coincidia com a lista do meu interlocutor, Rui Zink, que deve estar disponível na Net). Porém, tenho de dizer antes de mais que, quando aceitei o convite para esta sessão, percebi que se tratava de obras de autores estreados neste século (o que para mim seria muito mais fácil) e, quando vi que me tinha enganado, fiquei aflita... Assim, a minha lista não é de certeza dos 10 livros mais importantes, porque em dezoito anos haverá certamente muitos que não li mais importantes do que os que li; além disso, nos tempos livres, leio mais livros estrangeiros do que portugueses e menos ensaio do que ficção. Tentei, mesmo assim, listar livros para todas as idades e de vários géneros (esqueci-me do teatro, pois foi) e coisas de que ainda me lembrava bem, uma vez que, ao ir para velha, tenho tendência a esquecer rapidamente o que li uma semana antes, mas a lembrar-me bem do que li há muitos anos. Finalmente, para que não dissessem que estava a puxar a brasa à minha sardinha ou criar zangas com autores, decidi não incluir um único escritor que publiquei (à excepção de Pacheco Pereira, de quem de facto fui editora, mas no século passado, por isso não conta). Tomem lá, para o que der e vier:

 

O Meu Avô – Catarina Sobral

Um livro infantil edificante, e não estupidificante, como tantos.

 

Irmão Lobo – Carla Maia de Almeida e António Jorge Gonçalves

Um livro juvenil que os adultos adorarão ler

 

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa – Antônio Houaiss (org.)

O melhor instrumento para amantes da língua portuguesa

 

O Futuro da Ficção – António-Pedro Vasconcelos

Um pequeno ensaio negro mas luminoso

 

Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política – José Pacheco Pereira

Uma biografia essencial

 

A Morte sem Mestre – Herberto Helder

A despedida de um poeta

 

Uma Viagem à Índia – Gonçalo M. Tavares

O diálogo com os clássicos

 

O Retorno – Dulce Maria Cardoso (escolhido também pelo Rui Zink)

O livro que põe o dedo na ferida

 

As Primeiras Coisas – Bruno Vieira Amaral

O nascimento de um escritor

 

Adoecer – Hélia Correia

A consolidação de uma grande escritora

 

 

 

06
Nov18

O stress da liberdade

Maria do Rosário Pedreira

Uma amiga francesa mandou-me um link sobre um livro francês que defende a criação de novos vocábulos em substituição da adopção de palavras estrangeiras, baseando-se na afirmação de Wittgenstein de que «os limites da minha linguagem significam os limites do meu próprio mundo». Uma dessas palavras que, pelos vistos, faz falta à língua francesa (e à portuguesa) é Freizeitstress, palavra alemã que quer dizer à letra «stress do tempo livre» e traduz a angústia do homem do século XXI, «devastado entre procrastinação, sede de viver e medo de agir». O autor do livro, Laurent Nunez, explica porquê: antes de 1914, um camponês ou operário francês vivia 500 000 horas, trabalhando 200 000 e dormindo outras 200 000; restavam-lhe 100 000 para tudo o resto; hoje, a esperança de vida em França é de 700 000 horas. Dedicam-se 30 000 ao estudo, 70 000 ao trabalho e dorme-se menos duas horas por dia do que antes da Primeira Guerra Mundial. Temos, pois, 400 000 horas para tudo o resto – e é tanto que não sabem as pessoas o que fazer dele, pensando erradamente que não têm tempo para nada… Laurent Nunez conclui que talvez não gostemos assim muito de liberdade. Mesmo quando não temos uma palavra para dizer o que sentimos, ao contrário dos alemães.

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