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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Jan19

Dona Flor e o censor

Maria do Rosário Pedreira

Apanhei esta maravilha no Facebook, rede social donde por acaso ando afastadíssima há já uns tempos (quase só lá vou ver os aniversários e pôr o link deste blog e da crónica do Diário de Notícias, porque não me apetece estar sempre a assistir à agressividade alheia e ultimamente parece que as pessoas só querem insultar-se umas às outras). Portanto, foi mesmo uma sorte o achado, e parece que tinha sido partilhado por Francisco José Viegas (no Twitter ou no Instagram, já não me lembro) e alguém pegou nele e o ofereceu no seu mural. Trata-se do relatório de um censor, durante o Estado Novo, relativo ao livro Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. E o que tem mais graça é que se consegue perceber perfeitamente que o senhor da PIDE gostou tanto do livro e da prosa do autor que faz tudo para «salvar» o romance de não ser vendido e distribuído em Portugal. Arrisco-me a dizer que também apreciou sobremaneira as cenas de sexo, certamente raras ou inexistentes na literatura portuguesa da época. Deixo-vos o documento para degustarem. E aproveito para dizer que saiu recentemente uma biografia de Jorge Amado assinada por Josélia Aguiar, que também já foi programadora da FLIP, o mais internacional festival literário do Brasil, que acontece anualmente em Paraty. A ler, claro.

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14
Jan19

A importância do contexto

Maria do Rosário Pedreira

Tem-me irritado bastante um certo discurso politicamente correcto a propósito do passado histórico de Portugal e Espanha – conquistadores, escravocratas e colonizadores, ninguém nega –, fazendo tábua rasa do contexto em que tudo se passou e tornando uma empresa que foi realmente épica (sobretudo a nível do desenvolvimento da ciência e da navegação) num acto de violência puro e duro. Não é aqui o lugar para fazer tal discussão, mas serve esta introdução para dizer que até as frases, fora do contexto e da época em que foram escritas, se tornam difíceis de compreender. O exemplo é chamar «milionária» a uma cidade como Havana, calculem, que hoje é tudo menos isso – e até já foi mesmo uma cidade de profunda miséria, nos anos 1990, em que as pessoas pediam aos estrangeiros que andavam na rua coisas tão elementares como sabão, azeite, pensos higiénicos e roupa interior (estive lá nessa altura e assisti a muitas cenas dessas). Mas esqueçamos essa época triste de Havana e voltemos então à sua glória cem anos antes para ver o que Eça de Queirós, diplomata na cidade, dizia dela numa carta a Ramalho Ortigão (sim, fui à exposição sobre Eça num destes domingos de manhã e foi aí que li esta pérola): «Detesto-a a esta cidade esverdeada e milionária, sombria e ruidosa – este depósito de tabaco, este charco de suor, este estúpido paliteiro de palmeiras!» Embora não concorde (conheço outra Havana), vê-se logo o génio do autor.

 

11
Jan19

Crónica e nervo

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica (e aqui vai a de dia 29, a última de 2018, com tema a pedido do próprio jornal para aparecer ao lado de um artigo sobre o Nobel e também mais curtinha):

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/29-dez-2018/interior/quanto-vale-o-talento-10375864.html

(link corrigido)

 

Está já disponível o quarto número da revista Nervo (é bom sabermos que certos projectos bonitos sobrevivem), e desta feita tem poesia de, entre outros, Ana Marques Gastão, André Domingues, Manuel Halpern, Margarida Vale de Gato, Nuno Júdice, Rosa Oliveira, António Carlos Secchin. Vamos ler?

10
Jan19

Uma mansarda

Maria do Rosário Pedreira

Um grupo de amigos de diversas áreas do conhecimento (Patrícia Vasconcelos, Rui Horta, Jorge Salavisa, Camané, Rui Cardoso Martins, Henrique Cayatte, José António Pinto Ribeiro, Anabela Mota Ribeiro, entre muitos outros) trabalha já há vários anos para a criação de uma residência para artistas, já que «os criadores e todos aqueles que diariamente dedicam a sua energia à arte e aos palcos estão, tantas vezes, entre os mais frágeis e desprotegidos da nossa sociedade». A associação, que é uma IPSS, chama a este bonito projecto Mansarda e está quase a começar a ver cumprido o seu sonho, pois o escritório, cedido pela Câmara Municipal de Lisboa (Rua Mário Cesariny, 6), vai ser inaugurado no próximo dia 17 de Janeiro, às 18h00, numa sessão em que os fundadores vão revelar o local onde será construída a residência. O objectivo é que esta possa ajudar os artistas nos momentos em que a vida lhes troca as voltas (conhecemos tantos casos de actores e escritores que perderam o emprego, viveram pelas ruas, acabaram na miséria...), que lhes dê casa mas também um ombro amigo («verdadeiro antídoto para a solidão») e favoreça uma interacção entre jovens e mais velhos, para que estes últimos, que já nos deram tanto, possam envelhecer activamente e com dignidade.

09
Jan19

Que mais irá acontecer?

Maria do Rosário Pedreira

Em mais ou menos dez anos, os Estados Unidos perderam quase metade dos seus pontos de venda de livros. Entre a crise financeira chegada em 2008 e o ano de 2017, despareceram também milhares de empregos em todos os ramos de negócio que talvez nunca venham a ser repostos; mas, se a indústria do tabaco acusou uma queda respeitável (sem dinheiro, as pessoas não podem ter vícios, donde passam a ser necessários menos funcionários nas tabaqueiras), esta foi bastante menos acentuada do que a verificada na indústria editorial e gráfica e também no retalho. Porém, todo o sector ligado às publicações entrou verdadeiramente em colapso com a chegada ao poder de Donald Trump (que prefere o Twitter, já sabemos, e cortou apoios sem fim à cultura), pelo que os estabelecimentos que vendem, além de livros, revistas e jornais perderam mais de 43% dos postos de trabalho que detinham em 2007, e todas as actividades ligadas aos livros – encadernadores, gravadores, etc. – mais de 44%. O pior é que os ordenados dos que ainda têm emprego não aumentaram (menos gente a fazer o trabalho de mais gente poderia implicar um salário melhor); e, com o desdém mostrado pelo Presidente relativamente à informação e à leitura, não sabemos o que o futuro reserva a todas estas pessoas e empresas. Suponho que más notícias, para variar.

08
Jan19

Escolhas

Maria do Rosário Pedreira

Como sempre, os jornais de final de ano encheram as suas páginas de listas de livros, discos, peças de teatro, exposições, etc., classificando-os como os melhores de 2018. Fico sempre um pouco reticente com algumas das escolhas, sobretudo quando recaem sobre livros que já saíram há muito tempo e têm apenas uma nova edição (às vezes, com a tradução de sempre), ou pequenas obras de nicho (só para meia dúzia), ou até livros que não foram sequer traduzidos. Mas, pronto, que fazer? Eu própria não resisto a passá-las a pente fino, e a última que me veio parar à mão foi a do Centro Nacional de Cultura (CNC) que, na ficção, inclui vários livros e autores com os quais tenho bastantes afinidades e ligações: Memórias Secretas, de Mário Cláudio, por exemplo, que publiquei com muito gosto e constrói as memórias de heróis de BD; mas também os mais recentes romances de João Tordo e Djaimilia Pereira de Almeida (escritores de quem publiquei as obras de estreia); a obra completa de Maria Judite de Carvalho (uma grande senhora da nossa literatura que por acaso é também avó de uma querida amiga) e até o romancista principiante Rui Lage (com o livro O Invisível, que gira à roda do Pessoa e li numa versão anterior à que ganhou o Prémio Agustina Bessa-Luís). No ensaio, o primeiro lugar foi para um livro de Romero Magalhães sobre o Algarve no século XVI (o professor morreu há pouco mais de uma semana, nem sei se chegou a saber), seguindo-se-lhe o livro de Onésimo Teotónio de Almeida sobre a ciência na era dos Descobrimentos. Na poesia, deu-se primazia à obra completa de Ramos Rosa. O CNC fez uma lista de que gostei, para variar.

07
Jan19

Afinidades

Maria do Rosário Pedreira

Não falei do que andava a ler no início do mês, mas falo agora: trata-se de um romance de capítulos bastante curtos escrito por uma catalã, Tina Vallès, e intitulado A Memória da Árvore (Dom Quixote). A capa e o título despertaram a minha atenção, mas foi sobretudo a sinopse da contracapa que me convocou, porque falava de um neto e de um avô, cuja relação é aprofundada (mas também alterada, e de que maneira) pelo facto de o último sofrer de Alzheimer e ter de deixar a própria casa para ir morar com a filha e o genro na cidade. Quando comecei a lê-lo, tocaram logo campainhas: em primeiro lugar, A Despedida de José Alemparte, de Paulo Bandeira Faria (autor que infelizmente morreu cedo e não pôde brindar-nos com outras maravilhas), que tocava o mesmo assunto (embora tivesse outra história importante de permeio), o de um avô com Alzheimer que quer fixar as coisas enquanto ainda é possível recordá-las, e de um neto cómico que lhe faz companhia e usa o seu computador. Mas também Rugas, um romance gráfico notável que conta a história de um homem a quem é diagnosticada a referida doença e é internado num lar onde a vida não é uma coisa bonita de se ver (este teve filme, que apanhei por acaso há uns anos num canal por cabo, e nem era mau). São três livros afins, apesar de o de Tina Vallès ser muito mais enternecedor e comovente do que os outros. Todos valem a pena.

04
Jan19

Crónica e domínio público

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de partilhar a crónica; e desta feita ponho aqui a do dia 23:

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/23-dez-2018/interior/ementa-de-natal-10343409.html

 

Comunico ainda, segundo a «notícia» dada pela jornalista Isabel Lucas no Facebook, que este ano entram no domínio público, entre outras, as obras dos seguintes escritores: Marcel Proust, Edith Wharton, Joseph Conrad, Willa Cather, D. H. Lawrence, Agatha Christie, P. G. Wodehouse, Rudyard Kipling, Robert Frost, Katherine Mansfield, Wallace Stevens. Isso quer dizer que, não tendo de pagar direitos, muitas editoras por todo o mundo se afadigarão a publicá-los ou republicá-los. Uns terão novas traduções, estou certa, outros verão pela primeira vez a luz em certos países. Gostaria muito de ter tempo e unhas para traduzir Robert Frost, poeta norte-americano que adoro. Mas o que importa é ler estes senhores e senhoras que continuam a ser conhecidos e citados tantos anos depois de terem morrido. Isso é o que os torna clássicos.

 

03
Jan19

Leituras

Maria do Rosário Pedreira

Ando com mil coisas para fazer, entre pessoais e profissionais; e, claro, o blog vai sofrer com isso nos próximos dias... É que comecei o ano com o que aparentemente é um surto reumático nas mãos (a idade a dar sinais?) e, além de escrever se tornar mais penoso, há que fazer análises e ir mostrar as manápulas ao médico, o que tira tempo e vontade. Por isso, hoje digo-vos apenas que me ofereceram quatro belos livros este Natal, esperando que desse lado, se quiserem, façam o mesmo. Foram: Uma História Antiga, romance de Jonathan Littell (que já antes escrevera o muito bem-sucedido As Benevolentes); Eliete, de Dulce Maria Cardoso (que é, segundo as críticas que li nos jornais, um primeiro volume de uma história maior); Berta Isla, de um dos maiores autores espanhóis vivos, Javier Marías; e Tantas Palavras, que inclui (maravilha abolsuta) todas as letras de Chico Buarque! Mas ainda não li nenhum dos quatro e, assim, não posso comentar. No entanto, estas foram prendas belíssimas e até raras, porque a mim as pessoas quase nunca oferecem livros, pensando se calhar que os arranjo mais baratos ou de graça, o que não é verdade.

02
Jan19

Para todos os gostos

Maria do Rosário Pedreira

Hoje seria o dia de dizermos o que andamos a ler, mas deixei este post alinhavado antes de partir para férias, sabendo que não iria ter tempo de me dedicar ao blog antes do regresso. Amanhã ou depois falarei das minhas leituras e também porei os links das crónicas que entretanto foram publicadas no Diário de Notícias (dias 23 e 29, respectivamente). Hoje estou aqui praticamente para dizer olá e aconselhar alguns cursos e oficinas no El Corte Inglés (cujas inscrições terminam em breve e daí a urgência em mencioná-los já hoje). Se gosta de policiais, não perca O Adeus à Arma, curso que ministrará Francisco José Viegas, um grande conhecedor do género (e autor de livros com trama policial, embora inequivocamente literários), já a partir de dia 18, às 18h30 (serão nove sessões). Por outro lado, Miguel Real vai dar um curso intitulado O Pensamento Português do Século XX, com sete sessões bem recheadas, entre 21 de Fevereiro e 14 de Março. Tudo isto decorre em Lisboa, mas nas instalações de Gaia Mário Augusto vai dar A Volta ao Mundo em 80 Filmes já a partir de 15 de Janeiro e Joel Cleto oferecerá, mais ou menos nas mesmas datas, um curso sobre o Porto no espaço da Livraria. Há mais temas, claro, desde o Egipto dos faraós ao vinho, mas isto já chega para uma pessoa se entreter… Até amanhã.