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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Jan19

Hay Festival? Hay!

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã vou fazer uma longa viagem até Bogotá, na Colômbia, para, no dia seguinte, apanhar um avião até Cartagnena das Índias, onde todos os anos se realiza um encontro literário conhecido por «Hay Fest». Vai ser uma loucura, pois chegarei lá na quinta à tarde, «actuarei» na sexta e no sábado de manhã e iniciarei a viagem de regresso ainda nesse sábado, chegando a Lisboa no domingo, se tudo correr bem. Acho que nem vou ter tempo para jet lag... Mas, enfim, sempre quis ver Cartagena ao vivo, mesmo a correr, e além disso a Puro Pássaro, uma editora colombiana que faz livros lindos, quis publicar uma antologia da minha poesia, a que chamou Y Amores Imperfectos, e portanto aceitar o convite para o Hay Festival era uma obrigação. Participarei num debate sobre edição de novos autores (com um editor independente espanhol), numa Gala de Poesia, numa apresentação da antologia e ainda numa ida a uma escola de meninos pequenos, com quem falarei da importância da leirura. Verei também amigos (descobri os nomes de alguns no programa). Até à próxima segunda não estarei por aqui, mas prometo retomar a actividade e fornecer o link da crónica entretanto publicada logo que possível. Até já.

28
Jan19

Sonho e caos

Maria do Rosário Pedreira

Portugal, Verão Quente de 1975. A fervilhante Revolução dos Cravos deu subitamente lugar a um imenso caos social e político; o País, em plena convulsão, está à beira da guerra civil. O poder disputa-se nos quartéis, nas ruas, nos campos, nas fábricas… O velho império de Quinhentos agoniza, com a independência das colónias e o êxodo de centenas de milhares de pessoas que regressam à velha metrópole. Entre estas, vêm também africanos num exílio forçado, imposto pela guerra e pela instabilidade, sobretudo de Angola. Esta é a história de um punhado desses homens em busca da sua identidade e de um lugar, num Portugal fragmentado que desconhecem. Operários de estradas labutam de sol a sol; estão fora e dentro do mundo, vivendo sob o manto de uma poeira que os torna fantasmas e sombras num teatro de mudança, cujo palco é um país que também parece andar à procura de si próprio. Às vezes choram, acreditam, lutam, apaixonam-se, perguntam que será feito dos que ficaram. Discreta e irónica, a presente narrativa, Homens de Pó, interroga o leitor sobre os limites da utopia e da realidade, e a importância da palavra e do sonho na construção das nossas vidas. E tem muito que ver com o que se anda a passar. É o último romance de António Tavares.

 

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25
Jan19

Crónica e enciclopédia

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de partilhar a crónica de sábado passado:

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/19-jan-2019/interior/adeus-futuro-o-outro-e-o-mesmo-10452812.html

 

Uma excelente notícia: foram precisos mais de seis anos para um trabalho de conservação e colaboração sem precedentes, mas a Encyclopédie (a que deu o nome às outras, a famosa e precursora enciclopédia publicada no século XVIII por Diderot, D’Alembert e Jaucourt, está finalmente disponível online no site da Academia das Ciências Francesas, enriquecida – ainda por cima – com um aparato crítico inédito. Para quem goste de meter o nariz nas chamadas obras de referência, é uma felicidade!

 

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P. S. Outra boa notícia: a minha querida fadista Aldina Duarte canta hoje à noite na Fundação Calouste Gulbenkian!

24
Jan19

O sol nas prateleiras

Maria do Rosário Pedreira

Talvez já aqui tenha falado disto, não me recordo; mas, numa busca rápida, não encontrei nada relacionado com o BiblioSol e, como tal, corro o risco de ser repetitiva, mas paciência. Penso muitas vezes, sobretudo por não ter filhos, o que será da biblioteca que eu e o Manel fomos construindo ao longo do tempo e que se vai perigosamente ampliando todos os dias. Até porque, como muitas outras pessoas, sei de  gente que se pelaria por ler e consultar alguns dos livros que ali estão, sobretudo os que já são muito difíceis de encontrar em livrarias e até  em bibliotecas mais pequenas. Pois bem, Renato Soeiro e César Silva propuseram que as bibliotecas privadas passassem a ser «abertas» ao público (com o acordo dos proprietários, bem entendido), no sentido em que muitos estudantes têm se calhar de percorrer grandes distâncias para ir a uma biblioteca ler um determinado ensaio quando, provavelmente, um dos seus vizinhos o tem na estante de casa e não se importaria de lho emprestar. O BiblioSol (é este o nome do projecto) funcionaria então como uma rede de bibliotecas aberta à comunidade: cada dono de  biblioteca inscrever-se-ia num site, disponibilizando-se para ser abordado por leitores à procura de obras específicas. Os leitores fariam o mesmo. E o livro procurado apareceria, provavelmente, com umas trocas de mensagens por e-mail. O BiblioSol estava inscrito no Orçamento Participativo de 2018 e, francamente, não sei se vingou porque nunca mais ouvi falar do assunto (e esta notícia que encontrei lá em casa a arrumar a secretária é de Agosto, pelo que me cheira que não tenha passado nas votações). Mas lá que era bonito, era. Até porque nos permitia falar de vez em quando com gente interessante e interessada e até poder aconselhar outros livros e autores ou receber sugestões. Enquanto, porém, nada acontece, que bata o sol nas nossas prateleiras.

23
Jan19

Outra noite diferente

Maria do Rosário Pedreira

Ontem falei aqui do que é dormir (ou passar a noite acordado a ler) num quarto de hotel parisiense que é ao mesmo tempo uma biblioteca. Seria uma noite diferente, claro, mas as noites podem ser diferentes por variadíssimas razões (e, juro, não estou sequer a falar de sexo). Tenho sentido, sobretudo na minha vida profissional, que hoje se vive muito para o imediato e que se despreza, mesmo que involuntariamente, o médio e longo prazo. À excepção das ciências, que trabalham a pensar no futuro, as outras áreas do conhecimento andam sem ideias – e foi com alegria que vi anunciada uma “noite das ideias” no dia 31 de Janeiro, das 19h00 às 24h00 (data única mundial para um evento que, julgo, partiu da França, no qual é suposto que as pessoas se possam reunir com a finalidade de interagir, aprender e conversar sobre as suas ideias e a forma de as pôr em prática). Cá em Lisboa, vai ser na Fundação Calouste Gulbenkian e serão, creio eu, bem-vindos os contributos de todos. Não vou estar cá nessa altura (convidaram-me para ir a Cartagena das Índias, na Colômbia, ao Hay Festival), por isso, falo disto com a antecedência necessária para que todos fiquem atentos e participem. Haja ideias.

22
Jan19

Uma noite diferente

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns anos, a escritora Inês Pedrosa, então directora da Casa Fernando Pessoa, promoveu uma actividade original em que vários escritores passavam a noite no quarto onde outrora dormiu Fernando Pessoa, em Campo d'Ourique. Não creio que tenha sido fácil ficar sozinho naquela grande casa, mesmo que à porta houvesse um segurança – e para mim seria também tremendo não ter um duche pela manhã... Em todo o caso, sempre deu certamente a quem lá dormiu para coscuvilhar os livros da biblioteca do nosso poeta e ler algumas páginas para ocupar a insónia. Embora não seja saudável ter estantes de livros no quarto de cama por causa do pó, a verdade é que as estantes ficam bem em todo o lado lado – e há um pequeno hotel em Paris, La Librairie, que disponibiliza duas suites fantásticas de tal modo forradas a livros que até na casa de banho podem ser encontrados volumes para leitura. Passar a noite nesta espécie de livraria pode ser bom para quem fale francês, até porque, ao contrário do que acontece no The Literary Man Hotel de Óbidos, que tem um conceito parecido, no La Librairie os livros não foram comprados a peso e em saldo só para encher as estantes, nem há quarenta exemplares de cada título; ali, têm qualidade literária e a marca dos seus antigos proprietários – tratando-se realmente de uma biblioteca com valor que foi levada para ali. Não sabemos quanto custa a diária neste estabelecimento, mas deixo-vos umas fotografias para aguçar o apetite para o que seria, de facto, uma noite diferente.

 

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21
Jan19

Ecos de Eco

Maria do Rosário Pedreira

Tendo morrido há coisa de três anos, Umberto Eco continua, ainda assim, a fazer eco pelas nossas vidas, e não só pelos livros que deixou escritos. Recentemente, encontrei um velho artigo numa revista espanhola (um daqueles acasos em que estamos muito decepcionados com o presente e dá jeito encontrar algo que faça sentido) que, embora não especialmente laudatório para o escritor e pensador italiano, trazia muitas frases dele retiradas de entrevistas que, seguramente, ficarão para a história (e na nossa memória). A primeira – que é conhecida e talvez até já a tenha partilhado aqui a propósito do argumento ecológico contra o livro em papel – é que, se todos os chineses usassem papel higiénico, não haveria bosques (já vi que costumo citar mal; digo: «Se todas as pessoas do mundo […] não haveria planeta», mas não é grave). Quase como profecia (essa entrevista fora dada em 1997 e temia-se pelo futuro do livro por causa do advento do digital), está a afirmação de Eco de que a Xerox teria um projecto utópico sobre as bibliotecas que era pô-las em rede; as pessoas teriam então uma máquina em casa ou no trabalho para aceder aos livros e seria tudo muito simples (projecto que ao filósofo parecia muito melhor do que a pirataria das fotocópias e mais fácil de controlar os direitos de autor). E esta, hã? Não andou muito longe da verdade. Mas a minha tirada preferida é esta: «Nem racistas nem leis poderão evitar a grande mestiçagem cultural que se avizinha.» Que sonho fantástico, senhor Eco. Mas será mesmo assim, apesar do Erasmus e outros programas do género? Umberto Eco, que dizia que os escritores não deveriam fazer profecias nem futurologia, não chegou a saber de muitos muros foram construídos no mundo para evitar essa «mestiçagem»…

18
Jan19

Crónica e editores de poesia

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica e aí vai o link da de dia 12:

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/12-jan-2019/interior/adeus-futuro-as-drogas-e-os-simples-10421268.html

 

Aproveito para vos informar que a Casa Fernando Pessoa estreia hoje às 18h30 um novo ciclo, Verso Livre – Carta branca às editoras de poesia, que inclui sessões de diálogo com editoras que se destacam pelo seu trabalho no campo da edição de livros de poesia em Portugal. Nestas sessões, como reza o título, os editores terão carta branca para dar a conhecer alguns dos seus autores e tradutores e contar o que os move num trabalho que se sabe difícil. A primeira editora convidada  é a não (edições), um projecto editorial  independente conduzido por João Rocha, que abarca várias colecções com identidades gráficas distintas e valoriza muito a estética e o lado visual dos livros (desenhos, colagens, etc.). A acompanhar o convidado desta primeira sessão, que terá lugar no auditório da Casa Fernando Pessoa, estarão dois dos autores que publica: Catarina Nunes de Almeida, poeta e investigadora, e Miguel Martins, poeta e tradutor. Estes últimos vão ler poemas seus e traduções de diversos autores publicados pela não (edições). Uma boa maneira de ficar a conhecer pequenos editores e o que os apaixona.

17
Jan19

Manuel António Pina

Maria do Rosário Pedreira

Na sequência das comemorações dos dos 75 anos de Manuel António Pina (1943-2012), hoje começam em Lisboa as jornadas «Desimaginar o Mundo», dedicadas ao poeta, que se estendem até ao dia 9 de Fevereiro. O programa é promovido pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, a Faculdade de Belas-Artes e a Galeria Mira Forum e inclui, pelas 18h30, o lançamento de dois dois livros a que importa estar atento: Manuel António Pina: Desimaginar o Mundo: Descriá-lo e Manuel António Pina: Dos olhos e das Matérias. A apresentação contará com a intervenção do Professor José Carlos Pereira, que depois participará numa mesa-redonda com Ilídio Salteiro, João Paulo Queiroz, Rita Basílio e Sónia Rafael. Uma hora depois, abrirão duas exposições relativas ao poeta do Porto, uma de fotografia e outra de pintura. Na Invicta, a programação teve como convidados nomes ilustres da nossa Academia, desde logo Arnaldo Saraiva e Maria João Reynaud, mas também o amigo de muitos anos Álvaro Magalhães (poeta e autor de livros juvenis de grande êxito) e a poetisa Inês Fonseca Santos, entre outros. Houve ainda no final de 2018 uma extensão das jornadas a São Paulo para falar do outro lado do mar deste poeta magnífico que adorava gatos e tinha muitos (alguns, como dizia, em meia-pensão, outros em pensão completa). Lembremos, pois, o mestre e a pessoa fantástica que era com o seu poema intitulado Os Livros:

 

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo "eu"entre nós e nós?

16
Jan19

Um desabafo em perguntas

Maria do Rosário Pedreira

Estou aqui sem saber bem o que pensar – e desde já aviso que não vou responder a polémicas porque estou cheia de trabalho e as mãos, com o reumático, ainda me vão maçando.  Arte é arte e não deve ser amputada, certíssimo, disso ninguém duvida, pelo menos em tese. Esta é uma das poucas afirmações que farei hoje e, por isso, passo às perguntas. Será a arte para todas as idades – e daí tanta gente se ter indignado com o «reservado» para maiores de 18 anos na exposição de Robert Mapplethorpe, que eu até achei a parte mais fraca (mas também nunca apreciei muito o trabalho do fotógrafo, para que conste)? Cinema é também arte (a sétima) e tem uma classificação etária definida há anos sem que ninguém se insurja contra isso… Porque será que nas outras artes se refila tanto com balizas etárias, e no cinema não? Cortar três versos à Ode Triunfal de Álvaro de Campos num manual escolar (identificando por traços que houve corte e incentivando assim a busca dos versos em falta) é grave? (A mim cortaram-me muitos versos do Gil Vicente e não me lembro de isso dar notícia, e estávamos já em 1975-1976, ou seja, depois do 25 de Abril.) Um desses versos fala de «pândegos e putas», nada de mais, os alunos dizem palavrões a torto e a direito, não vejo razão para cortes; os outros dois falam de masturbação feita por «meninas de oito anos a senhores com ar decente em vãos de escada» (e o poeta diz que acha isso belo)… Os estudantes do Secundário já têm idade (17, 18 anos) para perceber (estão na idade da masturbação, segundo alguns comentadores), mas os autores do dito manual alegam que não quiseram promover um comportamento pedófilo (deixando ao critério do professor dizer aos alunos quais os versos em falta), e eu  acho que não deixam de ter razão porque, se estivessem lá os versos, alguns paizinhos iam cair-lhes em cima, está bom de ver, como sucedeu com o caso do livro de Valter Hugo Mãe aconselhado pelo PNL que falava de sexo anal. Já fui professora de Português e, uma vez, ao falar de adjectivos  a uma turma, disse simplesmente «A Ana é loira», e houve logo uma alminha que respondeu: «A Ana é loira só se for na… (pausa longa) debaixo dos braços», referindo-se a uma colega Ana, que por acaso era morena. Por isso, imagino que pode haver grande desestabilização numa sala de aula (mesmo aos 17, 18 anos) com os dois versos cortados à vista de todos: risinhos, chacota, convite à bandalhice, desvalorização do sentido do poema, enfim… É até provável que, em algumas turmas, nem se consiga dar a obra do engenheiro Campos como deve ser e tudo fique reduzido àqueles dois versos escaldantes na cabeça dos jovens («Álvaro de Campos? Ah, sim, aquele das meninas de oito anos a masturbarem senhores em vãos de escada?»), o que seria triste e injusto para o grande poeta da língua portuguesa (Campos é o meu preferido dos heterónimos). A senhora da Associação dos Professores de Português (salvo erro) diz que os professores repudiam o corte dos versos, mas falará por si ou por todos os professores? Porque está a notícia sobre este assunto na primeira página dos jornais em letras garrafais (outros assuntos quanto a mim mais importantes nunca vão para esse lugar)? Pergunto ainda se quem agora está chocadíssimo com o corte dos três versos da ode não é também quem ficou chocadíssimo por o PNL ter aconselhado o romance de Valter Hugo Mãe há tempos. (Encontrei pessoas no Facebook que por acaso se sentiram indignadas com as duas coisas; parece-me que há pessoas que simplesmente adoram indignar-se e não perdem uma oportunidade de o fazer, muitas vezes por razões contraditórias.) Também receio que muitos alunos de hoje não pesquem nada da Ode Triunfal (excepto talvez os versos cortados), de tal modo estão treinados a ler pela rama no raio dos seus telemóveis e a não pensar em nada senão no que vão fazer logo a seguir. E era isto. Hoje não respondo a comentários, isto foi mesmo só um desabafo.

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