Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Fev19

Matar dois coelhos

Maria do Rosário Pedreira

«Matar dois coelhos de uma cajadada» é o que hoje vou fazer à Figueira da Foz, embora o PAN me aconselhasse certamente a «matar» a expressão de uma vez por todas ou trocar talvez os coelhos por duas pedras, ou qualquer outra coisa que se presuma «insensível» e não possa mexer-se ou queixar-se dos meus «tirinhos». Pois bem: às 18h00 lançamos no edifício do Museu e da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz o mais recente romance de António Tavares, Homens de Pó, que já referi aqui no blogue como sendo uma narrativa que atravessa o ano de 1975 e tem por protagonistas uns quantos desgraçados que, vindos das colónias, constroem uma auto-estrada no Norte de Portugal e assistem à desordem do País num ano muito especial (o da Ponte Aérea, onde também vieram). E depois, no espaço da biblioteca, haverá lugar pelas 21h30 a mais uma sessão das 5.as de Leitura, que desta feita convidam Afonso Reis Cabral para falar do seu mais recente livro, Pão de Açúcar, sobre o homicídio de um transexual na cidade do Porto perpetrado por um grupo de adolescentes. Se estiver por aquelas bandas, não falte.

13
Fev19

Em queda

Maria do Rosário Pedreira

Por mais que Umberto Eco nos tenha assegurado em variadíssimas entrevistas que o livro nunca vai morrer, a verdade é que todos os dias me convenço mais de que, se as coisas não mudarem muito depressa em relação ao excesso de atenção dada por jovens e adultos aos dispositivos digitais, a leitura a sério (não só em papel, mas em profundidade, com as sinapses todas a funcionar) tem os dias contados (excepto para a pequena minoria que não desiste, e ainda bem). Depois de, na altura da Feira do Livro de Lisboa, uma agente literária alemã me ter dito que a Alemanha (a Alemanha?) perdeu seis milhões de leitores em quatro anos, ouço agora um testemunho do professor responsável pelo mestrado em Edição na Sorbonne num podcast do site da revista profissional Livres Hebdo e fico de boca aberta: a França teve a sua maior queda de vendas de livros dos últimos dez anos – 45 milhões de exemplares em 2018 contra 54 milhões em 2017. A França, que foi sempre o símbolo do país livre e educado a que aspirávamos (sobretudo, antes do 25 de Abril) está em declínio há já muitos anos (por isso já tão pouca gente aprende francês), mas os resultados da Frente Nacional de Marine Le Pen de há uns tempos para cá e as mais recentes manifestações dos coletes amarelos mostram bem que as coisas vão pior do que gostaríamos. E, sem leitura, a tendência é mesmo para bater no fundo…

12
Fev19

Amor, amor

Maria do Rosário Pedreira

Estamos praticamente no Dia dos Namorados – uma celebração que, quando eu era jovem e namorava, não existia, mas que, como muitas outras coisas que podem dar receitas jeitosas aos comerciantes e fabricantes portugueses (e hoje parece que tudo parte da questão do dinheiro), se importou do mundo anglo-saxónico e se instalou com a mesma força das festas nacionais. Não tem de ser mau só por não ser nosso, atenção. E  é, aliás, objecto de um encontro que acontece hoje ao fim da tarde na Livraria Bertrand do Chiado e que promete ser, no mínimo, divertido. A Quetzal junta dois dos seus autores para a sessão «Vamos falar de... Amor»: Helena Vasconcelos, autora de Não Há Tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas que os Mereçam (sobre o qual escrevi aqui no blogue quando saiu), e José Riço Direitinho, autor de O Escuro Que Te Ilumina, que ainda não li (embora o tenha lá em casa), mas apenas porque raramente me consigo escapar das prioridades, pois tenho imensa curiosidade sobre esta nova faceta do escritor, que começou a sua carreira literária com romances ambientados sobretudo no meio rural. A sessão decorrerá às 18:30h e os intervenientes são ambos críticos literários (será que escreveram sobre os livros um do outro?) mas, ao mesmo tempo, pessoas muito diferentes, o que vai de certeza enriquecer a conversa. Cupido moderará, suponho.

 

11
Fev19

Sete rosas mais tarde

Maria do Rosário Pedreira

É assim mesmo (Sete rosas  mais tarde, roubado ao poema «Cristal», de Paul Celan) o nome de um ciclo dedicado à solidão que terá lugar no Centro Cultural de Belém durante este mês de Fevereiro e a primeira quinzena de Março. Partindo de textos literários e/ou dramáticos de Dostoévski (Confissões de Um Coração Ardente), Hermann Broch (A Criada Zerlina), Jorge Amado (Os Capitães da Areia) ou até a obra poética do já referido Celan (que será objecto de uma conferência de João Barrento, professor de literatura alemã e grande tradutor), a solidão promete tornar-se epidémica no bom sentido (já o é no mau, infelizmente, com meio mundo metido em casa a olhar para um ecrã e a falar com os «amigos» das redes sociais) e estender-se ao teatro (grandes encenações e interpretações no horizonte), à dança e à música (haverá ópera, música sinfónica e música de câmara – para todos os gostos). Tudo para nos sentirmos menos sozinhos, de certeza, e além disso para vermos como tantas formas de arte trataram o tema desta experiência radical e universal que é a solidão. (Gostei do título de uma performance chamada «Sozinhar» no dia 16 de Março.)

08
Fev19

Crónica e exposição

Maria do Rosário Pedreira

Aqui vai a crónica que ainda não tinha partilhado:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/26-jan-2019/interior/erros-seus-ma-fortuna-10482317.html

Aproveito para divulgar uma exposição na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, na Costa de Caparica, de Jorge Calado (também cronista do jornal Expresso), que me pareceu bastante interessante e nasceu de um acaso (uma inundação) com livros (estragados?). Tem que ver com química, claro, mas parece-me belíssima para qualquer leigo na matéria. Deixo um apontamento. Estará patente até final do mês.

 

Água livro convite.jpg

 

07
Fev19

Sessão memorável

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei um livro maravilhoso (gaba-te, cesto) de um escritor flamengo contemporâneo, Stefan Hertmans, que descobri por ter andado quase sempre a par do romance de Han Kang (A Vegetariana) e o New York Times o ter destacado como um dos livros do ano (2017). E é mesmo uma maravilha que não se pode deixar de ler: chama-se Guerra e Terebintina e, resumindo muito, fala de um avô cuja ambição era pintar mas passou anos a combater na Primeira Guerra Mundial e nunca pôde dedicar-se ao que gostava; além disso, casou-se com a irmã da rapariga que amava (só lendo saberão porquê) e acabou a sua vida a registar lembranças nuns caderninhos que foram, depois da sua morte, passados os 90 anos, parar à mão do neto (que é justamente Stefan Hertmans). Aparenta-se com algumas obras de Sebald, foi ultrapremiado internacionalmente e traduzido em metade do mundo. E o autor está cá hoje, para uma sessão que eu presumo vai ser memorável, pois serão dois netos de ex-combatentes na Primeira Guerra Mundial (o autor e Nuno Rogeiro) a conversar sobre os respectivos avôs, e uma grande jornalista a mediar a conversa (Susana Moreira Marques). Venham e não se arrependerão! Na Livraria Buchholz às 18h30.

 

convite.jpg

 

 

06
Fev19

Retratos ambíguos

Maria do Rosário Pedreira

Li no Público da semana passada (na véspera da viagem, julgo eu), que os desenhos que as crianças fazem de si próprias variam consoante a pessoa que as observa enquanto desenham (e as respectivas autoridade e familiaridade em relação à própria criança). Assim, se um menino estiver a desenhar o seu próprio rosto ao lado de um polícia que não conhece, é mais susceptível que o desenhe triste; mas, se uma menina estiver a representar-se ao pé da mãe ou de alguém de quem goste e que goste dela, provavelmente o resultado será o oposto, uma carinha risonha. O estudo incluiu 175 crianças de 8 e 9 anos no Reino Unido e foi levado a cabo pela psicóloga Esther Burkitt, que queria provar que a expressividade das crianças varia com a sua audiência (o que podia ser mais ou menos óbvio a nível de reacções ao conhecido/desconhecido, mas já não tanto no que toca ao desenho propriamente dito) . Bem, quando eu era professora, lembro-me de que tínhamos de trabalhar o retrato físico e psicológico na aula de Português e pedir aos alunos que fizessem o seu auto-retrato por escrito. Será que este exercício estará igualmente ligado à «expressividade» e que, tendo uma professora querida e simpática, a miudagem se descreve de uma forma mais positiva e, no caso contrário, deixa sobressair o menos bom? Um psicólogo que o estude – eu cá não sei a resposta.

05
Fev19

Bibliotecários Lx

Maria do Rosário Pedreira

Jorge Luís Borges via o paraíso como uma espécie de biblioteca – e eu diria que, para quem adora ler, nada é mais natural (e que, abstraindo dos ácaros do pó e dos peixinhos de prata – verdadeiras pragas –, todos os Extraordinários gostariam provavelmente de viver num mundo parecido com esse, cheio de livros à mão). Como será, contudo, com os que passam realmente os seus dias numa biblioteca – os bibliotecários? Uma mestranda da FCSH da Universidade Nova (na área do documentalismo) fez uma tese sobre as leituras dos bibliotecários das Bibliotecas Municipais de Lisboa – e, para mim, as surpresas foram bastante grandes. Em primeiro lugar, dos 16 entrevistados (um por biblioteca), só uma minoria falou da leitura por prazer; pelos vistos, lêem sobretudo coisas que têm que ver com a sua profissão, para se manterem informados e actualizados, mas nem todos «desfrutam» como nós de um bom romance ou ensaio, por exemplo. Em segundo lugar (talvez consequência da circunstância que acima referi), a maioria não requisita livros na biblioteca, compra-os; o que é paradoxal, mesmo que saibamos que as bibliotecas não adquirem tudo o que seria necessário e estão muito sequinhas de publicações de nicho e mais recentes (a crise não ajudou e houve anos em que não houve praticamente aquisições). Por fim, todos afirmaram ter grande disponibilidade para ler e fazê-lo diariamente (quando eu pensava que, por estarem sempre ao pé dos livros, se calhar chegavam a casa e queriam ver séries). No fundo, estamos sempre a aprender.

04
Fev19

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Pode parecer estranho (e é), mas ando a ler As Aventuras de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, não tanto por ser uma amante do género ou uma apaixonada do autor, mas porque me interessa muito uma coisa chamada «lógica dedutiva», ou seja, a quantidade de coisas que se podem deduzir só de olhar para alguém (função, origem, nacionalidade, temperamento, personalidade, saúde) ou de observar alguma coisa. O senhor Holmes é um ás nisso e, por vezes, o cliente nem precisa de lhe dizer quem é e ao que vai, porque ele em três tempos adivinha tudo. Há muitas adaptações das aventuras do detective, seja em televisão, seja em filme, e todas representam Holmes com um chapéu de fazenda aos quadrados e um cachimbo curvo, mas a verdade é que nos livros não existe tal descrição, e li algures que foi numa peça de teatro que o encenador introduziu esse dado que ficou para sempre. Uma coisa que desconhecia até há pouco tempo é que Conan Doyle era um médico com muito tempo livre (tal como Watson, que é o narrador das aventuras e um admirador incondicional do detective) e escreveu livros sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo espiritismo. Boas leituras.

Pág. 2/2