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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Mar19

Quintas de leitura

Maria do Rosário Pedreira

Hoje o post é pobre porque estou a norte, na Invicta, para participar nas Quintas de Leitura, um espectáculo de poesia no Teatro do Campo Alegre, às 22h00, dedicado à minha escrita para fado. E, como estou com uma bestial rinite, porque apanhei sol na cabeça no domingo passado e um ventinho no pescoço a que devia ter estado atenta, o meu nariz pinga e a minha voz está uma lástima, embora haja pessoas que consideram o rouco sensual, mas eu já passei dos 50... Os diseurs vão ser, além desta vossa criada, Jorge Mota, Pedro Lamares e a fadista portuense Patrícia Costa. A conversa será com o grande Rui Vieira Nery, e cantará no final o enorme António Zambujo. Tenho mesmo sorte de ter comigo estas pessoas todas. Até me vou esquecer da rinite. Amanhã ponho apenas o link da crónica, não dá para mais. Obrigada pela paciência.

13
Mar19

Literatura e empatia

Maria do Rosário Pedreira

Leio um artigo maravilhoso do grande Alberto Manguel sobre a capacidade que a literatura tem de nos tornar pessoas melhores. Diz ele que um dos seus livros de infância foi o romance Coração, de Edmundo de Amicis (que curiosamente o Manel também refere sempre como um dos que mais o terão marcado em jovem), hoje praticamente esquecido. É a história de um rapaz genovês que sai de casa para ir à procura da mãe, que trabalha na Argentina, e Manguel conta que chorou pela dor do rapaz e se perguntou se seria capaz de fazer o mesmo. E que, daí em diante, muitas das personagens dos romances – Jane Eyre, Anna Karénina, Robinson Crusoe, Dom Quixote – o ensinaram a pôr-se na pele do outro e a perceber o que era realmente o sofrimento e a alegria alheios.  Diz que a literatura, não tendo aparentemente utilidade, tem-na, justamente por nos tornar muito mais atentos para o outro, disponíveis para escutar as suas angústias, nomear as nossas e partilhar problemas quotidianos. E conclui que isso é mais importante hoje do que no passado, pois muitas lutas têm hoje de se fazer de forma colectiva e solidária (em relação às crises migratórias, por exemplo). Depois apresenta números de um estudo universitário sobre a relação entre a leitura literária e a empatia. E ela existe, claro: quem lê literatura é de longe mais empático. Se ensina crianças e jovens, pense nisto.

 

A pedido de várias famílias, junto os links pedidos:

 

https://www.nytimes.com/es/2019/03/03/literatura-empatia/

http://science.sciencemag.org/content/342/6156/377.abstract?sid=f192d0cc-1443-4bf1-a043-61410da39519

 

12
Mar19

O obsceno literário

Maria do Rosário Pedreira

Ouço e leio que Bolsonaro, para criticar a pornografia, postou também ele pornografia, não fossem as pessoas não saber o que era e precisarem de ver um exemplo especialmente edificante. Obscenidade por obscenidade, o melhor é ter em atenção a colecção de livros «obscenos» que a British Library está a digitalizar, obras escritas entre 1658 e 1940, mas com especial tónica nos séculos XVIII e XIX, em que a literatura dita erótica ou pornográfica (eu sei lá qual a melhor classificação) floresceu. Todos conhecemos o Marquês de Sade, evidentemente, mas desconhecemos, por exemplo, John Cleland, que escreveu em 1748 um romance intitulado Fanny Hill que, segundo o artigo da Open Culture, não desilude nem como livro pornográfico nem como literatura de entretenimento. Muitos outros títulos, proibidos na sua época, tiveram como destino os «cofres» da British Library, sobretudo para não chegarem às mãos do público (o que os queria ler e o que os queria destruir)  – o que acabou por ser bom pois tornou agora fácil a sua digitalização para todos os subscritores dos Arquivos de Sexualidade e Género da biblioteca. E, segundo o que leio, há obras imensamente interessantes, escritas por homens e mulheres, em variadíssimas épocas, sobre educação sexual, homossexualidade e fluidez de género. Para os interessados, há mais informações (entre as quais deliciosas capas) aqui:

 

http://www.openculture.com/2019/02/the-british-library-digitizes-its-collection-of-obscene-books-1658-1940.html

11
Mar19

A poesia como cura

Maria do Rosário Pedreira

Foi o grande poeta John Milton, o autor de Paraíso Perdido (cuja tradução portuguesa é do poeta Daniel Jonas), quem disse que a palavra tem a capacidade de curar uma mente perturbada e é um bálsamo para as feridas. Pois bem: uma sua leitora do século XXI, Deborah Alma, poetisa também, decidiu abrir a primeira farmácia de poesia, como nos conta o sempre gratificante The Guardian. Aí, a poeta de urgência vai receitar, em vez de analgésicos, comprimidos para dormir e antidepressivos, poemas de Blake, Eliot, Shakespeare, Elizabeth Bishop, Robert Browning e muitos mais, à semelhança do que tem andado a fazer na última década numa ambulância que é também uma biblioteca itinerante de poesia, mas agora num espaço fixo de um antigo convento. Diz que está a ficar velha para andar por aí a conduzir e que se apaixonou pelo lugar, com estantes, prateleiras e armários antigos que fazem aquela farmácia de poesia parecer mesmo uma antiga farmácia. Em dois anos conseguiu pagar a hipoteca e agora está mesmo apostada em ajudar quem precisa por meio da poesia, que é o género literário que, segundo Deborah, mais fala à alma das pessoas, mais dialoga com os leitores e os ajuda, por exemplo, a perceber que não são os únicos a sofrer de determinado desgosto, ou perda, ou depressão. No espaço aberto ao público vai haver também uma secção infantil, um gabinete de consultas, um café e um auditório para leituras, performances, oficinas e até refúgios para quem quiser escrever. Por cá, ouço dizer que mais de 40% dos portugueses sofrem de uma ou mais doenças crónicas. E se se pusessem a ler poesia, hã?

08
Mar19

Crónica e Abecedário

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica e aqui vai o link:

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/23-fev-2019/interior/desperdicios-10602453.html

 

Começa hoje em Lisboa (e vai até segunda) a primeira edição do Abecedário – Festival da Palavra, um evento literário que visa «promover as livrarias de rua e o livro enquanto veículo cultural». A palavra homenageada este ano é «fronteira», que será explorada  no programa por escritores, pensadores, encenadores, realizadores, artistas plásticos, gestores culturais e músicos lusófonos, através da realização de tertúlias, cafés literários, declamações e concertos. A iniciativa foi de Carlos Moura-Carvalho e tem o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Lisboa, da DGLAB e da APEL. Informações sobre temas, participantes, locais e horários nos links abaixo.

 

http://dglab.gov.pt/wp-content/uploads/2019/02/programa.jpg

https://observador.pt/2019/03/06/lisboa-ao-sabor-da-palavra/?fbclid=IwAR3iiNoUkthMAwLdSUC6sXmIQLM3JLNblluwfKLqqw7ZvqlgMRz1VY5-FeM

07
Mar19

S.

Maria do Rosário Pedreira

Parece que é hoje que estreia o novo filme de Patrícia Sequeira (a também realizadora da longa-metragem Jogo de Damas, com um grupo de grandes atrizes, que tive oportunidade de ver há uns dois anos). Trata-se desta feita de uma obra que parte da história verdadeira de Snu Abecassis, a dinamarquesa nascida Ebba Merete Seidenfade, que se casou com o português Vasco Abecassis e por isso veio parar a Portugal, onde teve três filhos, fundou as Publicações Dom Quixote e conheceu Francisco Sá Carneiro, com quem acabaria por viver (e morrer, na controversa queda de uma avioneta em Camarate, no final de uma campanha para a Presidência da República, em 4 de Dezembro de 1980). Sobre este assunto, escreveu Miguel Real há alguns anos um pequeno livro intitulado O Último Minuto na Vida de S., que recria o que terá sido pensado pela editora dinamarquesa durante o último minuto da sua vida ao lado daquele que era então primeiro-ministro de Portugal, e que já teve adaptação teatral. E escreveu a jornalista Cândida Pinto o livro Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro, que vai em quarta edição. Uma boa razão para voltarmos a eles nesta altura em que se vai certamente continuar a falar  de Snu (recentemente, ela foi uma das personagens visadas numa série intitulada Três Mulheres, que está  nomeada para vários prémios).

 

 

06
Mar19

Escher numa livraria chinesa

Maria do Rosário Pedreira

Estou quase certa de que falei aqui há tempos numa exposição do grande Escher, um dos génios maiores do Desenho e da Pintura da sua Holanda natal e do mundo. Creio que a exposição da sua obra em Lisboa deveria ter findado em Setembro de 2018, mais coisa menos coisa; mas devido à grande afluência de visitantes (sobretudo de escolas), estendeu-se por mais uns meses e só agora está a chegar ao Porto, onde ficará, pelo menos, até 28 de Julho (aproveite!). Ora, falo de Escher outra vez aqui no blogue porque ele parece ter inspirado uma grande livraria chinesa absolutamente irreal (mas real). E não só por se parecer com um desenho do referido mestre, mas por ter 80.000 livros à venda (é obra)! Desenhada por Li Xiang, jovem artista, a livraria é composta por uma série de escadas escherianas que, segundo o que leio, copiam as montanhas da cidade, e tectos de vidro que permitem entrar a luz. Anda tudo doido com a livraria, e eu espero sinceramente que isso queira dizer que muitos dos que lá vão querem, mais do que tudo, comprar um livro para ler. Deixo-vos imagens:

 

cgente.jpg

 

sgente.jpg

 

 

01
Mar19

Crónica e o que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica, e aí vai o link:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/16-fev-2019/interior/morrer-em-directo-10576484.html

 

Mas também é dia de dizer o que ando a ler, pois o mês de Março começa hoje; e ando a ler um interessante livro que me ofereceu Itamar Vieira Júnior, o mais recente vencedor do Prémio LeYa, sabendo como gosto de poesia. O projecto é, de resto, muito interessante, porquanto configura uma correspondência entre duas pessoas (dois poetas conterrâneos e contemporâneos de Itamar chamados Ana Martins Marques e Eduardo Jorge), correspondência essa que diz respeito a um período muito específico em que a poetisa morou na casa do poeta (mas não com ele, entenda-se). Quando alugamos um apartamento (como, aliás, refere o texto de contracapa), não alugamos só a casa, mas vizinhos, porteiros e muito mais. Estou a deliciar-me com este Como Se Fosse a Casa (Uma Correspondência).

 

P. S. Vou fazer ponte carnavalesca e só volto na quarta. Descansem e leiam.

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