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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Jun19

Crónica e Cesariny

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica. O link aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/15-jun-2019/interior/caes-como-nos-11009502.html

As biografias estão na moda, como o prova uma colecção da Contraponto, para a qual foram convidados jovens autores de nomeada como Bruno Vieira Amaral, Filipa Martins ou Isabel Rio Novo. Além desses trabalhos, uns concluídos, outros em progresso, espero com curiosidade uma biografia de Cesariny pela mão de António Cândido Franco, na Quetzal, intitulada O Triângulo Mágico.

27
Jun19

Definições

Maria do Rosário Pedreira

Lembro-me de um dos autores que publiquei há alguns anos contar que, num encontro literário já não sei bem onde, era tradição, depois do jantar e terminados os trabalhos, os participantes jogarem ao jogo do dicionário. Pedia-se aos escritores presentes que redigissem definições de certas palavras escritas num papelinho: definições bastante sintéticas e enigmáticas ou mais complexas, que de certa forma poderiam constar de um dicionário. Depois, eram lidas alto e os outros tinham de adivinhar de que palavra se tratava. É um exercício interessante pensar numa definição assim e, a seguir, compará-la com a de um dicionário já publicado. Porém, além de sugerir que joguem este jogo em família (sem complicar demasiado a vida aos adolescentes, que têm um vocabulário em geral tão pobrezinho), quero dizer que me lembrei disto por ter lido algures que numa universidade australiana todos os anos pedem aos estudantes que apresentem definições para palavras, termos ou expressões contemporâneos. Este ano, para "politicamente correcto", um aluno (sábio, diria eu) avançou a ideia de que se tratava de "uma doutrina, defendida por uma minoria iludida, que sustenta a ideia de que é inteiramente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo". Eu não diria melhor.

 

26
Jun19

Na América

Maria do Rosário Pedreira

Um dos mais conhecidos escritores negros norte-americanos, James Baldwin, que lutou pelos direitos civis dos negros e, perseguido, acabou por se exilar em França, é o autor de uma pequena maravilha que em português dá pelo título de Se Esta Rua Falasse (no original, a rua tem nome, mas cá fica melhor assim), publicado pela Alfaguara. Não se afastando das questões que sempre precuparam o autor (o racismo e os bodes-expiatórios que foram tantos negros nos Estados Unidos, acusados de crimes que não cometeram e condenados a anos de cadeia onde perderam o melhor da vida), o romance é escrito na primeira pessoa por uma jovem grávida, a querida Tish, incrivelmente apaixonada por Fonny, o seu amigo de infância e namorado de sempre, que se encontra na prisão apenas porque o polícia Bell nunca suportou que um negro tivesse uma namorada tão gira, que fosse um artista (escultor, na verdade) e que andasse à procura de umas águas-furtadas fora do Harlem. A voz é surpreendentemente convincente, e as personagens femininas neste romance (Sharon, Ernestine e o trio da família Hunt) são, realmente, incríveis, apesar de Fonny e o pai não lhes ficarem atrás. O livro foi escrito em Saint-Paul de Vence (creio que era por aí que morava Eduardo Lourenço quando vivia em França) e publicado originalmente nos anos 1970; e não tem nada de panfletário apesar de trazer à tona o racismo e a violência praticada com os negros nos bairros de Nova Iorque. Uma cinta refere que existe (ou existirá) um filme realizado por Barry Jenkins (que realizou o premiado Moonlight), mas desse (ainda) não posso falar.

25
Jun19

Ler os mestres

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei de um livro muito curioso de Adolfo García Ortega, O Comprador de Aniversários, que parte de uma cena de um ou dois parágrafos descrita em A Trégua, de Primo Levi, para inventar a vida e o passado de uma personagem e dos seus ascendentes na Hungria. Ora, vale a pena lembrar aqui o próprio A Trégua, que se assume como uma espécie de continuação da obra-prima Se Isto É Um Homem, do mesmo escritor italiano; porém, em lugar de descrever o terror do campo de concentração, A Trégua é dedicada ao que se passa a partir do momento em que os alemães, sabendo que os russos estão a caminho, fogem do campo de Buna, abandonando na enfermaria todos os convalescentes e doentes graves, entre os quais, de resto, se encontrava o próprio Levi, delirando de febre. Depois, a viagem até casa, em muitíssimas etapas, acompanhada de figuras verdadeiramente incríveis que se vão cruzando com Levi, alguns companheiros de desgraça e outros polacos postos ao serviço do exército russo, é uma espécie de odisseia cheia de momentos terríveis mas também muito especiais, de cumplicidade, medo, alegria, trauma. A libertação às vezes custa muito. Mas vale sempre a pena. A Trégua também.

18
Jun19

Saído da casca

Maria do Rosário Pedreira

É bastante difícil a um escritor português ser traduzido; por mais que a sua língua seja uma das mais faladas do mundo, a verdade é que as editoras estrangeiras raramente têm leitores de português e, se não é muitas vezes um tradutor interessado num livro que o apresenta a um editor, nada se consegue. Se se trata de poesia, ainda é mais difícil, até pela tarefa incrível da tradução, mas a colectânea de poemas Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães, saiu da casca, furou o esquema e acaba de ser anunciada como finalista no prestigiado Prémio Literário Camaiori - Francesco Belluomini, em Itália na categoria de prémio internacional. Parabéns ao seu autor! Curiosamente, entre os cinco finalistas, encontra-se também um livro de um poeta espanhol que conheci no ano passado,  José-María Micó, que entre outras coisas traduziu a Divina Comédia, de Dante, e toca guitarra acompanhando a magnífica voz de Marta, sua mulher. Em edições anteriores o Prémio Camaiori foi atribuído a Lawrence Ferlinghetti, Seamus Heaney, Nuno Júdice ou Evgueni Evtuchenko. Mediterrâneo recebeu em 2016 o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa.

17
Jun19

Branco

Maria do Rosário Pedreira

O Livro Branco, de Han Kang, é o mais recente livro da escritora sul-coreana de quem a Dom Quixote já publicou A Vegetariana e Actos Humanos, ambos livros muito originais, o primeiro dos quais recebeu o Man Booker International Prize. Trata-se desta feita de uma meditação sobre a cor, que começa com uma simples lista de coisas brancas: a neve, o sal, a espuma das ondas, o papel, o arroz, os cabelos dos velhos, as cobertas em que a mãe da autora embrulhou a primeira filha, que nasceu prematura, muitos anos antes de existir este livro. É também uma reflexão sobre o luto, o renascimento e a tenacidade do espírito humano, sobre a beleza, a fragilidade e a estranheza da vida: se, por exemplo, a sua irmã tivesse sobrevivido, teria Han Kang chegado a nascer? Poderíamos nós ler a sua história tão tocante? Este é o mais autobiográfico e simultaneamente experimental livro de Han Kang até ao momento: uma pequena obra-prima inesquecível, a dor transformada em promessa pela mão de uma grande escritora contemporânea. Lindo.

O Livro Branco K 3D (2).jpg

 

12
Jun19

Viajar

Maria do Rosário Pedreira

A Quetzal tem uma lindíssima colecção de livros de viagem chamada Terra Incognita (também há outra, igualmente bonita, na Tinta-da-China, mas existe há bastante tempo e provavelmente os Extraodinários já a conhecem). Nela, saem este mês dois livros, um dos quais do grande viajante Paul Theroux, que já esteve em Portugal no festival LeV, em Matosinhos, a falar de comboios; mas nesta sua Viagem por África, além do comboio, o norte-americano apanha autocarros e veículos de transporte de gado, jipes e canoas, e vai do Cairo à Cidade do Cabo para descobrir cenários que são mesmo o berço da beleza. O outro livro é de um filósofo contemporâneo: Teoria da Viagem, de Michel Onfray, é um ensaio sobre o que nos leva a desejar tanto viajar e a razão por que alguns têm bicho-carpinteiro e estão sempre prontos para partir, enquanto outros, pelo contrário, gostam de ficar no mesmo lugar como se tivessem raízes que os pregassem ao chão. Duas propostas muito interessantes, cada uma no seu género, sobretudo para quem se interessa pelo tema da viagem.

11
Jun19

Um clube de leitura para crianças

Maria do Rosário Pedreira

Enfrentamos um sério problema em termos de hábitos de leitura e já há estudos que provam que ela faz imensa falta, não apenas para a aquisição de conhecimentos e cultura, mas também para a interiorização de valores como a solidariedade e a empatia. Como de pequenino se torce o pepino, a LeYa teve a belíssima ideia de criar um Clube de Leytura para crianças, em que os pais poderão ter dois livros por mês pelo valor simbólico de 9,90 euros (e, atenção, nem precisam de ser da LeYa) e ainda umas surpresas e brindes. É, porém, a criança que vai receber tudo pelo correio em seu nome, numa caixa à maneira, mês a mês. Esta parece-me uma iniciativa a ter em conta, partilhar e subscrever, pelo que deixo o link para todos os pais, tios e padrinhos (e amigos, claro) de crianças até aos 13 anos. É fácil, é barato e promete dar bons resultados.

nlstore.leya.com/leyaeducacao/2019/CLUBE_DE_LEITURA/clube_de_leYtura_apresentacao.html

 

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