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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

11
Jul19

Títulos

Maria do Rosário Pedreira

Em todos estes anos de trabalho editorial, encontrei títulos francamente maus e nada apelativos nas primeiras versões de certos romances (que foi preciso alterar), mas também títulos óptimos que, por vezes, até prometiam livros melhores do que depois se revelavam. Pôr um título num romance ou num livro de poesia não é uma tarefa fácil, porque o título tem de sintetizar todo um programa ficcional ou poético e é aparentemente impossível dizer muita coisa em poucas palavras. Na imprensa,  mesmo assim, o título não tem de ser bonito, mas informativo e sintético. Noto, porém, de há uns tempos para cá como os títulos das notícias ultrapassam em larga medida a sua função. Falo por exemplo do facto de um jornal querer atacar um sistema político que não é da sua simpatia pondo títulos em parangonas que apontam para uma crítica a esse mesmo sistema e explicando depois em letra pequenina o contrário (e nós todos sabemos que muitos leitores só lêem as gordas). Um dia destes, por exemplo, o título de uma notícia fazia crer que os chefes militares queriam a trabalhar a tempo inteiro um soldado amputado (o que parecia chocante) quando, lendo as primeiras linhas, percebíamos que afinal os chefes o queriam no quadro permanente para que não sofresse dificuldades financeiras nem afastamento social. Enfim, uma coisa que devia ser directa tornou-se perniciosa, umas vezes por aselhice, outras por má-fé. Esperemos que a ficção não siga estas pisadas e passe a inventar títulos muito bons só para épater le bourgeois.

10
Jul19

Máquinas de escrever

Maria do Rosário Pedreira

O Extraordinário Henrique Vogado, leitor deste blogue, enviou-me um interessantíssimo artigo do Courrier Internacional (e, para mim, algo assustador), publicado originalmente no Los Angeles Times. Fala sobre a plataforma Wattpad, criada no Canadá em 2006 para que os utlizadores da Internet partilhassem as histórias e os textos que escrevessem, não tendo de esperar pela publicação por uma editora para receberem críticas e comentários. Esta rede social de partilha literária atingiu em poucos anos cerca de 70 milhões de membros (toda a gente quer ser escritora!), a maioria dos quais do sexo feminino com menos de 35 anos. Observando os comentários laudatórios e entusiastas que alguns textos recebiam parágrafo a parágrafo (a sequência e o desfecho acabavam frequentemente por ser alterados de acordo com a vontade dos fãs), os senhores da Wattpad arranjaram maneira de criar ferramentas para identificar best-sellers em potência que, por sua vez, fossem adaptados ao formato audiovisual e originassem séries e filmes  de grande sucesso. Investindo em Inteligência Artificial, no ramo de machine-learning, desenvolveram então um algoritmo próprio que pesquisa na plataforma em que há milhões de textos êxitos mais do que certos; e depois pega neles, reescreve-os sob a forma de guiões e vende-os a grandes produtoras. Se, como diz o artigo, tudo o que dantes se via na TV ou no cinema era decidido por meia dúzia de cabeças, agora o público tem uma palavra a dizer e participa, mesmo sem o saber, no produto final.  Diz um dos senhores da Wattpad que qualquer dia os robôs também vão começar a escrever histórias e os humanos não terão outro remédio senão competir com eles... Já me devo ter reformado nessa altura.

09
Jul19

Jules e os seus irmãos

Maria do Rosário Pedreira

Conheço mal a literatura alemã contemporânea. Embora tenha estudado alemão durante quatro anos, nunca foi suficiente para conseguir ler um romance; e o facto de haver certamente muitos editores como eu é, provavelmente, o que impede que mais obras alemãs cheguem a Portugal (eu, pelo menos, tenho dificuldade em comprar direitos de livros que não li). Mas tenho em mãos uma preciosidade, O Fim da Solidão, de Benedict Wells (pseudónimo de um escritor nascido em Munique em 1984), publicado pela ASA e vencedor do Prémio da União Europeia para a Literatura. É a história de Jules, Marty e Liz, três irmãos amados e felizes até que os pais lhes morrem num acidente de aviação. Têm então de ir viver para um internato, onde cada um lidará à sua maneira com o desgosto (Liz experimentará drogas, Marty estudará loucamente, Jules começará a escrever). O colégio aceita também alunos da região e, entre eles, está Alva, uma ruiva introspectiva que gosta de literatura e música e de quem Jules se tornará muito próximo. O acompanhamento da vida dos irmãos ao longo do tempo é muito interessante, pois assistiremos às mudanças sofridas pela sociedade (o aparecimento da Internet e das start-up, por exemplo). Em todas as fases do livro, dividido em grupos de anos, há grandes surpresas, o que serve para manter sempre o leitor interessado. Recomendo.

 

08
Jul19

Passar ao lado

Maria do Rosário Pedreira

Foi logo desde a sua fundação – em 1944, ainda durava a Segunda Guerra Mundial –, que o jornal francês Le Monde (um dos mais respeitados internacionalmente) começou a publicar críticas e fazer destaques a livros. Recentemente, um artigo no mesmo jornal faz uma espécie de revisão da matéria dada e mostra as obras que, em cada ano, tiveram maior destaque. E, embora – como é natural – a tónica tenha sido dada ao «domaine français» (não só por chauvinismo, mas também), foram incluídas algumas traduções de autores de nomeada. Mas o que é mais curioso é que o Le Monde passou completamente ao lado de alguns livros que hoje têm uma importância indiscutível e marcaram a história da literatura, o que podia indicar que, entre tudo o que recebem, nem sempre os críticos intuem o que vai vingar e cativar a academia e os leitores. Camus – que recebeu o Prémio Nobel da Literatura com 50 e tal anos – é, por exemplo, um dos grandes ausentes. E, enquanto têm parangonas alguns livros de autores que foram rapidamente esquecidos, existem obras que tinham tudo para ter sido destacadas e não o foram: Moderato Cantabile, de Marguerite Duras, ou (pasme-se!) A Bela do Senhor, de Albert Cohen. Em relação a este último, o Le Monde deve ter ficado tão perplexo que até foi tentar saber o que pode ter acontecido junto do então responsável, e a resposta deste foi o mais sincera possível: «Preguiça.» Sim, o livro tinha uma lombada de 5 cm que metia medo, 800 e tal páginas em letra pequena, parágrafos longos e proustianos; além disso, era Verão, pedia-se qualquer coisa mais leve, e havia um apetecível livrinho de Françoise Sagan a piscar o olho entre os montões de pacotes com livros que as editoras generosamente enviavam. Foi simplesmente assim, em suma. Pode chocar-nos, claro, mas, ao msmo tempo, serve para nos «consolarmos» quando não sai uma crítica a um livro que nos parecia fundamental (mas era muito grande) e explica porque tantas críticas a livros pequerruchos (e importantes) saem quase logo a seguir à publicação.

05
Jul19

Crónica e regresso

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de partihar a crónica e o link aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-jun-2019/interior/os-iletrados-11026539.html

 

É também o dia do lançamento do mais recente romance de José Luís Peixoto, que não publicava ficção desde Em Teu Ventre. Chama-se Autobiografia e conta a história de um jovem escritor incumbido de escrever a biografia de Saramago. Diz a editora na sua nota de imprensa: «A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.» Vou ler.

04
Jul19

Para jovens e adultos

Maria do Rosário Pedreira

Parece que esta semana apostei sobretudo no tema da literatura infanto-juvenil com os posts dos últimos dias sobre autores consagrados que escreveram para crianças e as ofertas de livros infantis do (pato) Donald Trump; e hoje reincido, mas juro que isto não constitui qualquer espécie de programa, foi simplesmente um acaso (e, aqui para nós, dos bons). A verdade é que recebi a notícia de que sairá para as livrarias muito e breve uma adaptação de A Ilídia, de Homero, para os leitores jovens, levada a efeito pelo seu grande tradutor, Frederico Lourenço, e com os desenhos originais de Richard de Luchi. Já tinha saído A Odisseia aqui há tempos, mas A Ilíada é que é o primeiro texto da literatura europeia, «um canto de sangue e lágrimas, o mais belo épico da tradição ocidental». É realmente um texto bastante mais violento do que o que se lhe segue, até porque a guerra e o sofrimento estão sempre presentes, e esta ideia de a «abreviar» pode realmente servir também para adultos mais preguiçosos, pois acredito que não se deva deixar este mundo sem tomar o pulso a estas duas obras seminais.

03
Jul19

Recusar livros

Maria do Rosário Pedreira

Tenho dificuldade em recusar livros, mesmo quando sei que os não vou ler; e também de dizer logo que não quando me estendem aqueles sacos pesadíssimos nas Câmaras Municipais e nas bibliotecas, mesmo que à partida sejam coisas que não me vão interessar. Mas há quem não pense assim e faça até desse «não» uma afirmação de carácter político. Quiçá para se reconciliar com os professores, no Dia Nacional da Leitura Trump resolveu oferecer em nome da mulher às bibliotecas de escolas primárias que tinham atingido o padrão de excelência (uma em cada Estado) uma colecção de dez livros ilustrados pelo Dr. Seuss (bastante conservadores e cheios de lugares-comuns, mas também não seria de esperar outra coisa). E «mandou» também a sua Melania, que tem um rosto bem bonito, a algumas dessas escolas ler as histórias às crianças. Porém, a bibliotecária do Massachusetts cuja escola foi visada recusou o presente, dizendo que havia escolas de comunidades muitíssimo mais carenciadas que não tinham tido direito à oferta e que era a essas que deveriam ter sido dadas as colecções de livros. E que, além disso, os títulos daquela colecção eram demasiado caricaturais, com estereótipos antiquados, e um deles incluía mesmo comportamentos racistas. Antes de assinar, aconselhava dez títulos alternativos. Chama-se Liz Soeiro. Deve ser cá das «nossas».

02
Jul19

Grandes autores para pequenos leitores

Maria do Rosário Pedreira

A literatura infantil é pouco valorizada – tendo, sobretudo, em conta que é por ela que se começa a ler (e, se algo falhar então, é provável que os miúdos nem se tornem leitores). Apesar de algumas excepções, os autores de livros infanto-juvenis não são tratados com o mesmo respeito dedicado aos outros escritores e, por outro lado, também não se dá grande importância aos livros infantis escritos por escritores consagrados de literatura adulta. Li um artigo sobre os livros infantis desconhecidos de nomes maiores da literatura universal e cheguei à conclusão de que não tinha conhecimento de grande parte deles. Por isso, escrevo hoje este post para chamar a atenção para isso e dizer que Faulkner e Joyce, por exemplo, escreveram livros para crianças (The Wishing Tree e The Cat and the Devil, respectivamente); Carson McCullers escreveu um colectânea de poesia para os mais pequeninos; James Baldwin, Gertrude Stein, Sylvia Plath, Umberto Eco, Patricia Highsmith – todos eles são autores de pelo menos um livro para os mais novos, muitos dos quais com ilustrações de sonho (a que mostro abaixo é de Yoran Cazac, do livro Little Man, Little Man, de Baldwin), tal como os pouco prováveis escritores de literatura infantil T.S. Eliot, Salman Rushdie, Saramago, Ian Fleming ou Toni Morrison.

 

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01
Jul19

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

A tradição de publicar em fascículos independentes, ou às pinguinhas em jornais e revistas, morreu, até porque os jornais e as revistas também já não são o que eram e ninguém hoje lê e encaderna fascículos (e muita gente já nem lê jornais). Mas houve um tempo em que era bastante comum (Dickens começou assim a carreira, por exemplo) e o hábito durou quase até à era do digital (sim, ainda comprei um atlas em cadernos que depois mandei coser dentro de uma capa que também ofereciam). O que agora ando a ler também começou a ser publicado em capítulos, e curiosamente na revista Playboy. Trata-se um romance de Yukio Mishima (o grande Mishima que amava as tradições e se matou desencantado com a modernidade) que, graças a Deus, a Livros do Brasil acaba de publicar em livro. Chama-se Vida à Venda e conta como um jovem publicitário de 29 anos, na sequência de um suicídio fracassado, resolve despedir-se e pôr um anúncio dizendo que vende a sua vida. Claro que esta estratégia de acabar com ela vai criar peripécias que terão frequentemente o efeito contrário, ao ponto de o fazer talvez reequacionar o valor da vida. Veremos, claro.

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