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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Set19

Forum Fantástico

Maria do Rosário Pedreira

Decorre na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, no bairro de Telheiras, de 11 a 13 de Outubro, o Fórum Fantástico 2019, orientado pelo jornalista e animador João Morales. O programa, de que abaixo deixo o link, inclui lançamentos de livros, mesas-redondas, sessões de autógrafos, projecção de filmes, worskshops vários, jogos literários e outros, exposições e muito mais. Sublinho a conferência O Futuro da Ficção pelo cineasta António-Pedro Vasconcelos, no sábado 12, às 15h45, certamente baseada num livro homónimo de que gosto muito e foi dado à estampa pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. A entrada é livre.

https://forumfantastico.wordpress.com/programa-do-forum-fantastico-2019/

Este já histórico encontro é realizado anualmente pela Epica – Associação Portuguesa do fantástico nas Artes com o apoio da Junta de Freguesia do Lumiar e da BLX – Rede de Bibliotecas de Lisboa e congrega diversas actividades e convidados, em torno do Fantástico, da Fantasia, da Ficção Científica e do Horror.

27
Set19

Crónica e celebração

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica. Ela aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-set-2019/interior/os-deuses-das-moscas-11298602.html

Amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian, celebram-se os 40 anos de vida literária de António Lobo Antunes. Um dia inteirinho dedicado ao escritor pela voz de várias personalidades. Fica o convite para passar um sábado diferente. Se estiver longe, pode acompanhar por aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=IVOl-KKIWgo

 

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26
Set19

Fingir

Maria do Rosário Pedreira

«Ficção» vem de «fingir», mas, curiosamente, no livro de que hoje vos falo, é sobretudo na pintura que se finge muito. Este romance, Hotel Melancólico, que é a segunda obra da argentina María Gainza e menos fragmentária do que O Nervo Óptico, está quase a pousar nas mesas das livrarias (sábado já deve estar à mostra em alguns sítios) e fala de falsários e falsificações, o que não é estranho se pensarmos que a autora é crítica de arte. A história reza assim: o tio da narradora, farto de a ver sem fazer nada, arranja-lhe emprego num banco para trabalhar com uma avaliadora de obras de arte. E, contra todas as expectativas, o ofício torna-se fascinante, não só pelas incríveis descobertas sobre falsificações, mas sobretudo pelas histórias secretas que a chefe acaba por lhe contar, uma das quais é a do Hotel Melancólico, onde viviam artistas que copiavam quadros para ganharem a vida e por onde passou a misteriosa Negra, que se especializara em falsificar a obra de uma pintora famosa que fazia retratos da alta-sociedade de Buenos Aires. Um belo dia, porém, a chefe estranhamente não aparece para trabalhar e o mais certo é que lhe tenha acontecido algo de grave; mas, se assim for, como continuar a viver sem saber o fim de todas aquelas histórias que ficaram a meio? É uma delícia este livro, onde o que é real parece inventado e vice-versa.

 

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25
Set19

Avant la lettre?

Maria do Rosário Pedreira

Hoje em dia estamos sempre a falar do politicamente correcto, até porque em nome dele se tem chegado a extremos de uma idiotice gritante. Mas lembro-me de que, ainda nos anos 1980, li um livro de crónicas de um historiador americano que apelava já para os perigos da doutrina do politicamente correcto, falando de um grupo feminista que queria mudar o vocábulo «woman» para «womin» só para não ter a partícula «man» lá dentro. Também o grande Julian Barnes, de quem li nestas férias O Papagaio de Flaubert (como é que ainda não o tinha lido é um mistério), escreve nesta obra vencedora de muitos prémios (curiosamente, tanto de ficção como de ensaio, porque se trata de um híbrido literário) muitas passagens que falam do politicamente correcto, entre elas a que cito abaixo:

 

«Hoje evita-se usar a palavra louco. Que disparate. Os poucos psiquiatras por quem tenho respeito falam sempre da loucura das pessoas. Usam as palavras curtas, simples, autênticas. Não digo […] desordem de personalidade […] Digo doida, é isso que digo. Doida tem o som certo, é uma palavra vulgar, uma palavra que nos diz como a loucura pode vir bater-nos à porta como uma camioneta de entrega de encomendas. As coisas horríveis também são vulgares.»

 

Um dia destes volto a este livro notável aqui no blog. Hoje foi só para sublinhar as tolices que por aí andam.

24
Set19

Testamento

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que me vou poder passar a queixar de ser sexagenária (oh, como detesto a palavra), não posso deixar de falar de um livro que foi recentemente reeditado pela Quetzal de um grandíssimo poeta português que acabava de cumprir esses mesmos 60 anos quando o escreveu. Falo de Vasco Graça Moura e do seu testamento – Testamento de VGM, para ser mais precisa – que se republica no quinto aniversário da sua morte e é, como o próprio autor disse oportunamente, «um divertimento muito sério». Citando a editora, trata-se de «um poema autobiográfico» em que Graça Moura, com a elegância e o talento de sempre, «canta os amores, trabalhos, filhos, amigos, inimigos, a cidade natal, o ofício literário, a paixão pela pintura e a sua natureza mais íntima.» Fica aqui um exemplo do que vos espera e a recomendação: leiam-no (ao poema e ao livro).

 

deixo a meus filhos versos cultos

e também prosas às centenas

(os meus dois filhos são adultos

e as minhas filhas são pequenas)

e muito amor: não deixo apenas,

tudo somado, alguns direitos,

e fui bom pai, nunca fiz cenas

e fi-los sãos e escorreitos.

23
Set19

O pão que o diabo amassou

Maria do Rosário Pedreira

Mário Lúcio Sousa, o escritor e músico cabo-verdiano autor dos romances O Novíssimo Testamento e Biografia do Língua, ambos premiados e publicados pela D. Quixote, regressa este mês com O Diabo Foi Meu Padeiro, um belíssimo romance sobre a vida de centenas de presos no campo de concentração do Tarrafal, desde a sua fundação até ao seu encerramento (sendo o Tarrafal também o lugar de criação do autor, que ali viveu até ir para a universidade). Por este campo (e pelas privações, doenças e torturas várias) passam muitos homens (no final, uma lista refere-os a todos) vindos da Metrópole e também de Angola e da Guiné, já depois de o campo ter fechado as portas aos portugueses. A várias vozes, todas elas de Pedros condenados à prisão num ano distinto e com um director distinto, esta é uma obra de ficção que interessa também como documento e que ganhou um belo elogio do escritor António Lobo Antunes, muito aproriado a um livro com «padeiro» no título: «Bom como o pão.» E eu, que adoro pão, adorei publicar este livro.

 

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20
Set19

Crónica & Pessoa

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica aqui no blog. O link aí vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-set-2019/interior/vacinados-11272820.html

 

Na editora Tinta-da-China, sai daqui a uma semana, mais coisa menos coisa, uma novela policial de Steffen Dix intitulada O Mistério da Boca do Inferno, que trata da relação do nosso Fernando Pessoa com o ocultista Aleister Crowley. A tradução é de Sofia Rodrigues, com coordenação do especialista na obra de Pessoa, o colombiano Jeronimo Pizarro, que dirige a colecção pessoana naquela editora.

19
Set19

Mais nervos

Maria do Rosário Pedreira

Temos certamente razões para andar nervosos (o clima, a saúde, as eleições, o estado do mundo...), mas estes nervos de que venho falar hoje são bem bons. É bonito ver que, num país que lê tão poucochinho (estou sempre a falar disto, bem sei, mas é verdade), uma revista de poesia como a Nervo subsiste e está melhor a cada número. Já vai em meia dúzia, e o número 6 sai com poemas de muitos autores portugueses consagrados (José Emílio Nelson ou Luís Quintais, por exemplo), poetas a caminho de o serem (Marta Chaves ou Renata Correia Botelho) e poetas (para mim, pelo menos) desconhecidos (Elsa Alves ou Teresa M. G. Jardim). A eles se juntam os estrangeiros Josep M. Rodriguez, traduzido por André Domingues, e Mordechai Geldman, traduzido por João Paulo Esteves da Silva (sim, o músico que é também poeta e tradutor). Vamos lá então lê-los e ficar ainda mais nervosos.

18
Set19

50 anos a escrever

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se já aqui o disse – creio que sim – mas considero uma verdadeira proeza um escritor completar 50 anos de vida literária e ainda ter tantos planos para romances e outros projectos de escrita na gaveta. É o caso de Mário Cláudio, que se estreou em 1969 com um livro de poesia e, depois disso, nunca mais parou de nos encantar, tendo publicado em quase todos os géneros, do teatro à crónica, do romance à monografia, do conto à poesia, e sido premiado bastas vezes em todos eles. Hoje, no âmbito da Feira do Livro do Porto, vou estar na Invicta a assistir a uma sessão que tem por centro o escritor (já homenageado com uma tília no parque onde a feira se realiza há uns três anos). Conduzida por Nuno Artur Silva, consta da apresentação de um livro de Martinho Soares sobre a obra do escritor (O Essencial sobre Mário Cláudio) feita por Ana Paula Arnault, seguida de uma conversa com o autor do ensaio e o escritor sobre estes cinquenta anos de produção literária, cujo título mais recente é Tríptico da Salvação, leitura de Verão de Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente, de resto, condecorou Mário Cláudio no dia da abertura da Festa do Livro de Belém pelo seu fantástico percurso literário. Amanhã, espero, estarei de volta.

17
Set19

Um género

Maria do Rosário Pedreira

Embora já exista há bastante tempo, é sobretudo na actualidade que o romance gráfico está a dar que falar, mais ainda por Sabrina (já aqui falei disto) ter sido o primeiro livro do género seleccionado para a final do Man Booker Prize em 2018 (não ganhou mas despertou a atenção de milhões de pessoas no mundo inteiro e já está traduzido cá na terra). Li no The Guardian que, até 1989, era proibido num livro de BD ou afim reproduzirem-se cenas de sexo, porque o género era visto como mais popular e destinado a leitores de todas as idades. Curiosamente, hoje os romances gráficos podem ser mesmo «gráficos» em matéria de sexo, violência sexual, nudez, exploração do corpo (leio no mesmo artigo que é uma reacção ao puritanismo anterior e uma forma de «empoderamento», essa palavra que hoje se usa quiçá demasiado frequentemente). Parece até que o género «romance gráfico» foi essencial para as autoras-mulheres se despirem, metaforicamente falando, e pela primeira vez exporem o seu corpo tal como o vêem e acham que ele é visto por homens e mulheres. Em Portugal, os romances gráficos começaram a multiplicar-se – e ora se trata de obras originalmente escritas e desenhadas para este formato, como Sabrina, ora de adaptações de livros clássicos (Albert Camus, Harper Lee, Anne Frank, etc.). Fiquemos atentos.

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