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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Set19

Bestiário

Maria do Rosário Pedreira

Inspirando-me num artigo muito divertido de García Ortega e Pérez Zuñiga na revista Zendra, falo-vos hoje da relação dos animais com os livros e vice-versa. Antes de mais, claro, as traças, os ácaros e os peixinhos-de-prata – esses horrores que devoram livros no pior dos sentidos. Depois falo de um animal fundador – a serpente – que está dentro de todas as Bíblias para mal dos Adões e  Evas deste mundo; não será mesmo assim o único réptil da literatura, se o dragão, tanto no livro de Kazuo Ishiguro O Gigante Enterrado como em Eragon, for um réptil. No que toca a insectos, temos a famosa barata da Metamorfose, de Kafka, as moscas de O Deus das Moscas, de William Golding, ou o bicharoco (já não me lembro do nome) que se infiltra na Arca de Noé em Uma História do Mundo em Dez Capítulos e Meio, de Julian Barnes. Cavalos não faltam, por certo, mas o mais famoso é seguramente o Rocinante de D. Quixote. No mar, os animais mais conhecidos serão a baleia de Moby Dick e o peixe terrível de O Velho e o Mar. Já quanto a animais comuns, lembro-me de repente dos terríveis cães ao serviço dos nazis em Cães Pretos, de Ian McEwan, da cadela de La Perra, de Pilar Quintana, que em breve publicarei, do Cão como Nós, de Manuel Alegre, ou de Buck, de O Apelo da Selva, de Jack London (mas há muitos mais). Existe um burro maravilhoso em Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, um gato em Kafka à beira mar, de Murakami, montes de gatos em Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto, vários gatos naquele livro de Luís Sepúlveda que tem igualmente uma gaivota, e fico-me por aqui, de contrário nunca mais acabaria o post. Bestiário, já agora, é um fantástico livro de Cortázar. Divirtam-se.

13
Set19

Crónica e oficinas de escrita

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica, e o link aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/27-jul-2019/interior/o-fim-da-correspondencia-11150192.html

 

Chegou também o regresso das Sessões Ícone na Escola de Escritas EC.ON, na Travessa do Possolo, em Lisboa. No dia 7, esteve presente a romancista Alexandra Lucas Coelho e ainda este mês, no dia 21, o poeta Miguel Martins é o escritor convidado. Mas, até ao fim do ano, vão participar Valter Hugo Mãe, Andreia C. Faria, José Rui Teixeira, Joana Bértholo, Marta Bernardes, Sérgio Godinho, Rodrigo Guedes de Carvalho, enfim, consulte a página e inscreva-se:

http://escritacriativaonline.net/

 

12
Set19

Amiga dos livros

Maria do Rosário Pedreira

No mesmo ano em que uma sondagem do semanário Expresso revelava que 43% dos portugueses não liam um único livro há seis meses, leio que na Finlândia as pessoas são bastante mais amigas da leitura e que são vendidos por ano no país cerca de 20 milhões de livros, o que indica aproximadamente 4 livros por pessoa, incluindo as crianças. Um em seis finlandeses entre os 15 e os 79 anos compra em média 10 livros por ano; e não se pode dizer que as novas tecnologias tenham afectado estes bons hábitos, pois em 1995 os números eram significativamente mais baixos. Há também muita gente (40% da população) que requisita livros nas bibliotecas regularmente (pelo menos, duas vezes por mês). As bibliotecas são mais de 800 (entre centrais e filiais), sem contar com as itinerantes (150), que circulam pelo país com cerca de 4000 títulos, representam 10% dos empréstimos totais de livros e chegam a percorrer 50 000 quilómetros num ano. O que é ainda melhor é que as bibliotecas adquirem todos os anos grandes quantidades de livros novos, investindo cerca de 300 euros por cidadão (!!!) em livros, revistas, jornais e outros materiais. Caramba, que paraíso.

11
Set19

A arte do romance

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui anunciei, creio que em finais de Junho, a saída do novo romance de José Luís Peixoto, Autobiografia. Para começar, é bastante intrigante chamar a um romance Autobiografia; e talvez seja ainda um maior atrevimento meter dentro de uma Autobiografia o autor de romances José Saramago (sim, o nosso Nobel da Literatura) e um autor mais jovem que tem com ele uma relação formal e reverente, a quem é encomendada uma biografia do grande escritor (biografia que ele tentará transformar numa obra de cariz ficcional, como, de resto, é o próprio romance que estamos a ler). Podíamos também pensar, já agora, que o romance que estamos a ler é autobiográfico (afinal, José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago das mãos do próprio Saramago) e que o protagonista, que devia escrever a biografia de Saramago, mas nunca o faz, é o próprio autor desta Autobiografia (que, por acaso, é um romance). Contudo, parece-me que não há aqui exactamente um espelho: como publiquei os seus primeiros livros e conheci JLP nessa altura mais de perto, há no romance (perdão, na Autobiografia) rotinas que não podiam estar mais longe das que relembro; mas, com o avançar do tempo, tudo é possível, claro (algumas coisas, sinceramente, espero que sejam só ficção). Como o Extraordinário Artur já referiu no dia 1, também tem graça encontrar nomes de personagens dos romances de Saramago (e um senhorio amoroso chamado Bartolomeu de Gusmão é engraçadíssimo). Porém, o que para já posso dizer sobre este livro é que ele não tem nada que ver com os livros de ficção de JLP que li (e foram todos) e que é um curioso exercício literário, algo muito mais experimental do que é costume (mesmo que a criança neste livro, filho da Lídia que Artur referiu, também esteja «em ruínas»). Só lendo.

10
Set19

Festa com jantar

Maria do Rosário Pedreira

Na próxima sexta começa mais uma Festa do Livro da Amadora, que se prolonga até domingo à noite. Este ano o tema que dá mote ao certame é a biografia, o que faz, aliás, todo o sentido num ano em que a produção portuguesa alimentou o género com obras que já se sabia iriam dar que falar sobre a vida de escritores como Sophia, Cesariny ou Agustina, e a ficção se deixou, de algum modo, contaminar pela biografia, com livros «híbridos» como os de Paulo M. Morais ou José Luís Peixoto. Alguns dos autores dos mencioandos livros (e muitos outros) vão estar na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos em conversas sobre tudo o que tem que ver com «bio», vida; haverá também oficinas, música, uma livraria, e a festa termina com um jantar literário no domingo às 20h30, aberto ao público, para o qual fui convidada juntamente com o jornalista Carlos Vaz Marques para dizer também alguma coisa sobre a vida, mesmo que me tenham ensinado que não se fala enquanto se come. Se algum dos Extraordinários quiser aparecer por lá, é muito bem-vindo, os dados vão abaixo:

Inscrição prévia em bibliotecas@cm-amadora.pt ou 214369054 até 13 de Setembro. Preço: 10 euros.

FestaLivro_Evento_dia15_20h30.jpg

 

 

09
Set19

Portugal ao correr da pe(r)na

Maria do Rosário Pedreira

Se nunca atravessou o País de norte a sul – a pé, quero eu dizer –, pode fazê-lo agora por interposta pessoa e, além disso, guardando o encanto da literatura. Afonso Reis Cabral – um dos mais jovens romancistas portugueses, vencedor do Prémio LeYa com O Meu Irmão e autor também do romance Pão de Açúcar, sobre o homicídio da transexual Gisberta – saiu da sua «zona de conforto» e pôs-se a caminho de um livro de não-ficção sem o saber. O sonho era percorrer Portugal a pé pela mítica Estrada Nacional 2, o que fez com coragem e um par de ténis milagrosos, ora debaixo de chuva, ora debaixo de um sol ardente, ao longo de 24 dias; no fim de cada um, escrevia no Facebook o resumo da sua jornada, mas o resultado era muito mais do que um simples relato, porque estamos a falar de um Escritor com E maiúsculo; e, por isso, a sua bonita prosa foi convidando mais e mais leitores (muitos deles preocupadíssimos com as caminhadas diárias de 40 quilómetros e assustados enquanto o texto não aparecia, prevendo alguma tragédia) e desencadeando não raro cerca de 500 comentários ou mais. Nos dias derradeiros, quando Afonso se aproximava da meta, os seus leitores manifestavam já saudades daqueles textos e pena de que a viagem estivesse no fim. Por isso, não se podia deixar morrer ali a aventura. Agora, que tudo acabou (e bem), Leva-me Contigo – Portugal a Pé pela EN2 está aí, revisto, refeito, aumentado e ilustrado: é um livro que atesta a solidariedade dos portugueses (que deixaram almoços pagos a um rapaz que nem conheciam, lhe ofereceram iogurtes, lhe deram dormida, o acompanharam em alguns troços) e que vale muito a pena ler por todas as razões e mais algumas, incluindo porque pode lá estar a sua voz. Experimente e verá.

 

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06
Set19

Crónica e fabulário

Maria do Rosário Pedreira

Aqui vai a crónica, porque hoje é sexta-feira:

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/20-jul-2019/interior/o-corpo-de-cristo--11126796.html

 

Especialmente para quem gosta dos surrealistas, recomendo a leitura de um livrinho de Graciano Seixas, aliás, Côta Seixas, ilustrado por Tiago Seixas, intitulado Fabulário Amoral de Fauna & Flora, em que há ovelhas negras e de outras cores, uma pulga raptada por um cão num orfanato, anjos da Guarda e carapaus de corrida. Foi publicado pelas Edições Sem Nome e está à venda, por exemplo, na Leituria, na Poesia Incompleta e na Férin em Lisboa e, no Porto, na Poetria ou na Flâneur. Um exemplo:

 

O Sol para a Lua:

– A luar?

– Sim... e tu?

– Solzinho, muito solzinho. E tu?

– Tenho fases.

 

05
Set19

Sempre Lorca

Maria do Rosário Pedreira

A revelação do El País em 2012 da que seria provavelmente a última carta escrita por García Lorca, juntamente com um poema de amor inédito, teve uma enorme repercussão internacional. Trata-se de uma carta ao estudante de dezanove anos Juan Ramírez de Lucas, que em Julho de 1936, altura em que carta foi escrita, seria o namorado com quem Lorca planeava fugir para o México, sabendo porém que o rapaz não era maior de idade e precisaria de autorização do pai para deixar Espanha. É a última carta que Juan terá recebido do amante, antes de este ter sido fuzilado em Agosto de 1936 «por rojo y maricón», como refere o El País; e o que é mais engraçado: nem ao homem ao lado de quem viveu mais de trinta anos contou Juan desse seu relacionamento de juventude com Lorca, o que é incrível numa altura em que toda a gente quer reconhecimento público e as luzes da ribalta à sua volta. Sabe-se agora que, antes de morrer, Juan Ramírez deixou alguns documentos com a irmã, dizendo que gostaria de que um dia vissem a luz. Ela terá talvez partilhado a carta com o jornal, não sei. Fiquemos, então, à espera de que a família de Lorca (metade dela avessa à exposição, metade dela com vontade de partilhar tudo) se decida a mostrar-nos mais uns inéditos do grande senhor da poesia espanhola. (Esta história foi relembrada no último 18 de Agosto, data da morte do escritor, mas, apesar de a descoberta já ter uns anitos, vale sempre a pena falar dela.)

04
Set19

O poder da palavra

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se sabem que Dulce Maria Cardoso é, desde há algum tempo, cronista da Visão; mas, se não sabiam, ide já a correr lê-la, porque as suas crónicas são deliciosas! Vejam lá que, numa das últimas, a escritora contava que, em miúda, desobedecendo à família e mentindo a pais e irmã, correu destemida para o mar da praia de S. Jorge, em Luanda, não sabendo nadar; e quase se afogava não fosse ter aparecido um tropa que a salvou das ondas que a arrastavam para longe, trazendo-a para o areal, onde ela se fartou de vomitar água salgada. O texto é muito vivo, e nele Dulce Maria Cardoso lamentava ter perdido o rasto do dito tropa, que durante algum tempo ainda convivera com a família agradecida em Luanda, mas de quem nada sabia desde 1975, quando voltara para Portugal na Ponte Aérea, facto que, de resto, inspiraria o seu romance O Retorno; não se lembrava sequer do seu nome, achando isso terrivelmente injusto para alguém responsável por lhe ter salvado a vida... Só que a palavra tem um poder incrível e às vezes chega muito longe. O «tropa» infelizmente já não está vivo, mas está vivíssima da costa uma sobrinha sua, que vive na Madeira e se lembra de o tio contar a história de uma menina chamada Dulce Maria que resgatara dos mares de Luanda... E, 47 anos depois, a história desta descoberta também acabou escrita na revista Visão, e Dulce Maria Cardoso já nunca mais se vai esquecer do nome do seu salvador.

03
Set19

Muito por onde escolher

Maria do Rosário Pedreira

No regresso de férias, recebo a revista Magazine do El Corte Inglés. Os cursos variados que se anunciam neste número, tanto para as instalações de Lisboa como para as de Gaia, não cessam de me surpreender – e a verdade é que, se trabalhasse mais perto do local onde são ministrados, não haveria de falhar uns quantos, até porque as inscrições são gratuitas. Falo, por exemplo, de um ciclo de conferências a cargo de Bagão Félix (um político e economista que estimo muito – e que percebe imenso de árvores) sobre a Emergência da Ética (de 9 de Outubro a 6 de Novembro) ou de uma sessão que promete sobre o poeta Daniel Faria, conduzida por José Anjos, Cláudia R. Sampaio, que farão leituras, e João Morais a acompanhá-los musicalmente (2 de Outubro). Mas há muito mais por onde escolher – do cinema à música, da história à escrita criativa, da filosofia ao vinho… e até ao amor (um psicólogo falará disso). Se não recebeu a revista, pode consultar a página do Âmbito Cultural do El Corte Inglés e ver o que lhe interessa. Antes que se acabem as vagas.