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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

23
Out20

Coragem

Maria do Rosário Pedreira

Li um destes dias um texto em que uma personagem dizia ao interlocutor que, se fôssemos bem a ver, as coisas em certos aspectos não tinham mudado muito desde o feudalismo: havia uma dúzia de pessoas com mais dinheiro do que quase todas as outras juntas... Claro que é uma comparação exagerada (e já não é a posse de terras que faz a fortuna), mas não deixa de ser verdade que os homens mais ricos do mundo são uma espécie de senhores feudais cujos vassalos são frequentemente escravizados e ganham uma ninharia. Podemos pedir às pessoas que não comprem o que eles produzem? Podemos pedir às pessoas que não lhes dêem mais dinheiro a ganhar e comprem, em vez disso, aos que precisam, aos pequenos? Eu achava que não, mas um livreiro independente de Brooklyn, Nova Iorque, teve a coragem de o fazer. As suas montras são um apelo a que os leitores comprem livros em livrarias independentes e parem de contribuir para o enriquecimento dos que já são ricos. Muito ricos. Mas depois descobri que não é só longe que estas coisas acontecem. Ora vejam estas duas imagens e reflictam.

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22
Out20

A fingir

Maria do Rosário Pedreira

Está desde há dias no mercado o novo romance de um escritor que é, para os Extraordinários, muito especial, até porque no passado ofereceu o retrato a alguns dos membros deste «clube». Estou naturalmente a falar de João Pinto Coelho, o autor de Perguntem a Sarah Gross e Os Loucos da Rua Mazur, romances que foram, respectivamente, finalista e vencedor do Prémio LeYa. Desta feita, saímos da Polónia gelada para a muito mais temperada Toscana, onde conheceremos Annina Bemporad, uma judia linda e rebelde que acorda a meio da noite com o ruído de um tiro e descobre que se tornou adulta. Isso obrigá-la-á a trabalhar, tornar-se uma mulher responsável e buscar um futuro digno. Mas, por se recusar a entregar o seu amor ao sobrinho do fascista-mor da cidade – e, ainda por cima, o humilhar em público –, este vai garantir que ela não possa realizar os seus sonhos. A essa impossibilidade somar-se-á a ocupação da Itália pelos alemães, que, claro, perseguem os judeus. Hão-de valer a Annina a sua amiga Alessia, uma lésbica excêntrica, e Peppino, o homem que monta espectáculos com lixo e é amigo dos homens da Resistência. Profundamente imaginativo e rigorosamente documentado, Um Tempo a Fingir é um romance magistral, cujo enredo tem a rara qualidade de ser ao mesmo tempo absolutamente inesperado e completamente verosímil. Mais um grande livro de João Pinto Coelho.

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21
Out20

Já a ladrar

Maria do Rosário Pedreira

Há cerca de um ano comprei os direitos de um pequeno romance colombiano que achei admirável e muito contra-corrente. Duro, dramático, trágico e profudnamente humano. Chama-se A Cadela e a sua autora, Pilar Quintana, viveu anos na área onde se passa a história, uma zona paupérrima e húmida na costa do Pacífico (e estamos sempre a sentir a chuva no corpo enquanto lemos). O argumento prende-se com uma mulher que não consegue engravidar e, depois de muito sofrimento, resolve substituir o desejado bebé pela última cadelinha de uma ninhada. Não esperem, porém, nada de querido e amoroso a partir daqui, porque nem sempre os cães (ou os filhos) correspondem ao que idealizam as respectivas mães. Soube recentemente que A Cadela está já a ladrar fora de portas. Este livro incrível é finalista de um prémio de peso nos EUA: o National Award, na categoria (introduzida apenas em 2018) de livros traduzidos. E fico aqui em pulgas, a fazer figas e a rezar para que a talentosa Pilar Quintana vença e, claro, possa vir vistar-nos assim que o estupor do vírus permitir.

20
Out20

Poesia roubada

Maria do Rosário Pedreira

No momento em que leio com deleite um pequeno livro de poesia de um autor cujo romance publiquei (falarei dele num post independente), volto à carga com uma história de roubo (na semana passada falei de uma casa esvaziada onde só ficaram os livros), desta feita de um longo poema. (Roubo-a também eu, como agora se diz, ao mural do meu colega editor Vasco Silva.) Diz a notícia por ele lida que desapareceram de uma casa em Hong Kong várias peças valiosas, entre as quais um longo poema de Mao (sim, pelos vistos o ditador chinês também escrevia poemas), manuscrito pelo próprio num pergaminho e avaliado em 250 milhões de euros. Porém, a pessoa que o surripiou não devia acreditar muito no valor da poesia (ou dsconheceria quem era o autor) porque vendeu o dito poema apenas por 54 euros a um «especiallista» que, achando-o muito grande, o rasgou ao meio na esperança de facturar duas vezes... Não sei quanto ganhou com a ignorância, pois isso já não era dito; mas aquilo a que achei graça foi a frase de um sinólogo inglês, Arthur Waley, segundo o qual «os poemas de Mao não são tão maus como as pinturas de Hitler, mas não são tão bons como as paisagens de Churchill». Tenho de ver se leio este meu confrade.

19
Out20

Aprender

Maria do Rosário Pedreira

Li uma entrevista muito interessante no The Guardian a Isabella Rossellini sobre as maravilhas do envelhecimento («mais gordos  mas mais livres», diz ela), entre as quais a actriz destaca o tempo (que, quando trabalhava como modelo, não tinha) e o poder aprender e estudar assuntos que lhe interessam, como, por exemplo, tratar de animais (e não são cãezinhos, mas vacas, galinhas, porcos, pois gere uma quinta e põe a mão na massa). Embora se diga que burros velhos não aprendem línguas, eu gosto de contrapor o «aprender até morrer», sendo a aprendizagem das coisas mais compensadoras e lindas que alguma vez experimentei. E aprendi no mural de um amigo facebookiano a história da primeira poetisa afro-americana a publicar um livro nos EUA, que não conhecia: uma escrava senegalesa chamada Phillis Wheatley (Phillis era o nome do barco que a levou à América, Wheatley o do comerciante que a comprou). Phillis começou a escrever poemas aos treze anos naquela língua que não era a sua e, com vinte anos, como achavam que ela era uma impostora, levaram-na perante uma série de magistrados: mas, além de ter ficado provado que os seus poemas não eram plagiados, ela ainda recitou Virgílio, Milton e passagens da Bíblia, impressionando os dezoito homens de toga e cabeleira: era escrava, negra, mulher, mas... poetisa. Ter aprendido a ler salvou-a mais tarde da escravatura.

16
Out20

Um rio de letras

Maria do Rosário Pedreira

Recebo a notícia de que é já amanhã que, em Almada, se vai realizar um festival dedicado à narração oral, talvez a mais antiga forma de transmissão literária que se conhece. Eu adoro ler alto e penso que todas as crianças deveriam fazê-lo na escola e em casa, pois está provado que tem enormes vantagens para a fidelização à leitura; e gosto também de ouvir ler quando o narrador, dizedor, declamador (seja lá o que for), sabe convencer-nos e atrair-nos. Já ouvi uma actriz ler um conto infantil de David Machado maravilhosamente e escutei até ao fim, na verdade tão interessada como uma criança. Ora, entre as 11h e as 17h de amanhã, é uma boa altura para ouvirmos ler narradores profissionais e convidados neste Rio de Contos, que vai já na sua quarta edição: Ana Figueiras, Cláudia Pulquério, Paula Salema e Telma Marreiros, bem como Ana Sofia Paiva, Luís Carmelo, Paula Carballeda, Patrícia do Carmo, Ricardo Ávila, Thomas Bakk e Válter Peres. A narração será também traduzida para língua gestual portuguesa. Para quem não possa estar no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada, e queira assistir de longe pelo computador, então vai ser preciso fazer a inscrição aqui:

biblactividades@cma.m-almada.pt

 

 

 

15
Out20

Livros roubados

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez ouvi contar a história de umas pessoas que, quando voltaram de férias, tinham a casa vazia. Uma camioneta de mudanças aparecera para empacotar o apartamento e, como era Agosto e estava toda a gente de férias, ninguém desconfiou de que não fossem profissionais (eram profissionais, mas do roubo). Curiosamente, deixaram apenas uma coisa: os livros… É triste, mas é cada vez mais verdade que as pessoas não estão interessadas em ler. E, porém, Amosse Mucavele, que foi curador da Feira do Livro de Maputo durante vários anos, contou no Facebook uma deliciosa história: trouxe de um alfarrabista uma série de livros emprestados e, de repente, descobriu que, entre eles, estavam livros que pertenciam a um seu amigo, tinham lá o nome dele e tudo, embora nunca o tivesse ouvido dizer que fora vítima de roubo ou que os emprestara a um… ladrão, mas também não o achava capaz de os ter vendido. Agora o dilema é se os devolve… e a quem. Depois disto, tornou-se mais atento e já encontrou muita coisa nos alfarrabistas que é, de facto, oriundo de bibliotecas de amigos e conhecidos. Nunca compra esses livros, por precaução… Mas, se foram roubados ou vendidos por algum amigo a quem foram emprestados, isso quer dizer que ainda há países onde os livros são, pelo menos, cobiçados por várias pessoas.

14
Out20

Namorado

Maria do Rosário Pedreira

Sim, sei que o título deste post empurra para assuntos do coração, mas não é nada disso. Falo, para que saibam, do poeta Joaquim Namorado porque acabo de ver que a sua obra poética reunida num volume intitulado Sob Uma Bandeira vai ser apresentada no próximo dia 17, no Museu do Neo-Realismo, pela não de Fernando Pinto do Amaral e com a presença de António Redol, filho do escritor Alves Redol. Joaquim Namorado dirigiu a revista Vértice em Coimbra, para onde o Manel escrevia quando ali estudava na Faculdade de Direito; quando, porém, decidiu vir para Lisboa acabar o curso, foi comunicar a sua mudança para a capital a Joaquim Namorado, querendo saber se continuava a colaborar com a revista e explicando-lhe que, enfim, era em Lisboa que viviam os escritores e que estava desejoso de os conhecer. Foi então que o matemático e poeta estalinista lhe deu uma forte cachaçada e o preveniu: «Os escritores são para ler, e não para se conhecer!» Quanta razão, mestre. Há mesmo alguns que nem deviam pôr os narizes fora das suas casas.

13
Out20

Fora de tempo

Maria do Rosário Pedreira

Nestes dias que correm, sinto-me cada vez mais ultrapassada e fora de cenário, em vésperas de arrumar as botas e, como Herculano, retirar-me para um ermo qualquer. Enquanto há cada vez menos gente a ler, as discussões nas redes sociais tornam-se de uma esterilidade confrangedora – e ainda por cima carregadas de ódio – quando os problemas realmente graves continuam todos por resolver (além da fome, da precariedade e do desemprego, por exemplo, os refugiados do campo de Moria que Portugal disse que receberia continuam lá, e a dormir no chão). Enfim, sinto que tudo está a ser dominado de forma completamente cretina pelo politicamente correcto; e, se é óbvio que as situações de injustiça e desigualdade devem ser combatidas, chegou-se agora a excessos difíceis de aceitar. Recebi esta semana, de uma agente literária, a proposta de um livro que está ainda a ser escrito, mas pelo qual uma editora de nomeada nos Estados Unidos já avançou uma enorme quantidade de dólares. A agente está super-entusiasmada com a originalidade e diz-se convencida de que vai ser um êxito em todo o mundo. Fiquei curiosa o bastante para passar à sinopse, mas fui ficando de cara à banda à medida que a lia. O tema? Pois bem, mais ou menos isto: a tinta branca é racista. Pintar as nossas casas de branco não é inocente nem está isolado da supremacia branca. (Não sei como os arquitectos vão lidar com isto, mas estão tramados.) Para dizer a verdade, ainda pensei que fosse um livro humorístico, mas, lendo o texto até ao fim, percebi que não é uma piada, que pretende mesmo ser sério. Devo ser então eu que estou já fora de tempo e de jogo e acho isto estúpido e perigoso, porque alimenta conflitos onde não os havia (e já chegam os reais, ou não?). E, como adoro luz e tenho, por acaso, a minha casa toda pintadinha de branco, o melhor é preparar-me para ser considerada uma racista insuportável. Não tarda muito ainda vão desaconselhar o leite, diz uma colega minha. Adeus, futuro.

12
Out20

Fome e fartura

Maria do Rosário Pedreira

Costuma dizer-se que não há fome que não dê em fartura... e é o caso. Depois de meses de publicação de livros que não puderam ser lançados ao vivo por razões óbvias (e antes que a situação piore e nos voltem a confinar), as editoras Abysmo e Nova Mymosa fizeram, na segunda-feira dia 5, dia de comemorar a República, no espaço lisboeta do Espelho d'Água, uma maratona de doze lançamentos conjuntos, com apresentações e leituras ao longo de quatro horas e transmissão online para quem, apesar de tudo, continua com medo de sair. Os livros são pequenos, evidentemente, alguns de pouco mais de vinte páginas, e alternam entre poesia e prosa. Entre eles, contam-se os de autores como Márcia Balsas, Mónica Camacho, Andreia Azevedo Moreira, Pedro Loureiro, Isabel Olivença, Luís Carmelo, José Mário Silva, João Paulo Cotrim, Vasco Gato e Paulo José Miranda, este último o primeiríssimo vencedor do Prémio Literário José Saramago com a novela Natureza Morta. Muito que ler!

 

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