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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

24
Nov20

Passo a passo

Maria do Rosário Pedreira

Quando vi o anúncio, salivei... Isto porque sou uma apaixonada pelas questões da língua, mas infelizmente nunca tive tempo suficiente para pôr o resto de lado e voltar à faculdade para cursar Estudos Clássicos. Mas estou sempre a correr para a etimologia das palavras (o Houaiss tem-me ajudado bastante, mas não chega) e até já tenho escrito textos sobre a origem de certos vocábulos aqui no blogue («cabeça», por exemplo). Mas estava a falar-vos de que fiquei com água na boca quando vi que Frederico Lourenço, além de todo o bem que já nos fez com as suas magníficas traduções de Homero ou da Bíblia e a publicação da Nova Gramática de Latim, acaba de nos presentear com  um volume intitulado Latim do Zero, composto por 50 lições que permitirão aos leitores, mesmo os ignaros em latim como eu, poder, no final deste curso, desfrutar da leitura de Vergílio no original. Latim do Zero começou por ser uma página de Internet estreada durante o confinamento e teve tantos seguidores que era forçoso que se transformasse num livro estruturado. Aprender até morrer. Vamos lá ver se é desta. Obrigada, Frederico Lourenço.

23
Nov20

Primeira mulher, primeira estrangeira

Maria do Rosário Pedreira

Logo mais volta a série Herdeiros de Saramago, estreada na semana passada com os episódios sobre Paulo José Miranda e José Luís Peixoto, os primeiros vencedores do prémio literário que leva o nome do nosso único Nobel da Literatura. E hoje os contemplados serão Gonçalo M. Tavares (que venceu com Jerusalém) e Adriana Lisboa, a primeira estrangeira a receber o galardão com o romance Sinfonia em Branco, que publiquei na Temas e Debates pouco depois de o novo século começar. Falo deste livro porque, embora a obra desta autora esteja a ser regularmente publicada pela Quetzal, este romance não está disponível. E é pena, porque fala de um tema extremamente actual, o abuso sexual dentro da família, mas é um livro literário, e não comercial ou oportunista. Até porque Adriana Lisboa é uma escritora muito elegante (e o seu tom é europeu, pouco tem que ver com a maior parte da literatura brasileira contemporânea, mais urbana e directa ao assunto) e delicada (bastará ver a série e perceberão o que quero dizer). Conheçam-na melhor mais logo e conheçam os seus livros, que valem muito a pena.

20
Nov20

Peixes grandes e peixes pequenos

Maria do Rosário Pedreira

Já se sabe que, no mar, os peixes grandes comem os peixes pequenos, mas em terra, e nos negócios, isso é também cada vez mais verdadeiro. Quando saí de uma editora pequena para um grupo grande, fi-lo porque em pouco tempo perdi vários autores que queriam e precisavam de dinheiro, marketing, espaço em livraria e promoção a sério, coisas que as editoras pequenas não podiam dar; e nem sequer me queixei de falta de lealdade porque as pessoas precisam de viver do que fazem e os escritores não são excepção. Admito que foi um choque para várias pessoas, mas era a única forma de poder continuar a publicar novos autores portugueses. Choque foi também para muitos o que se passou recentemente com a publicação em Espanha da obra da Prémio Nobel da Literatura Louise Glück. Lançada pela Pre-Textos, uma fantástica editora de poesia de Valencia, saíram, quase sem apoios, sete dos seus onze livros; ao que se sabe, nada venderam, mas isso nunca fez o editor vacilar na edição. Mas eis que a poetisa ganha o Nobel, e o seu agente literário, um senhor conhecido no meio por «Chacal», em lugar de recompensar a pequena editora que apostou ao longo de catorze anos sem quaquer retorno, agora não lhe renova os contratos e anda a propor a poetisa aos grandes grupos, que evidentemente podem pagar muito mais. Peixes grandes comendo os pequenos...

19
Nov20

Ler com história

Maria do Rosário Pedreira

Os meus primeiros anos de actividade editorial foram passados em Campo de Ourique. A editora onde então aprendi as diversas fases por que passa um livro (revisão, paginação, composição, fotólito, ozalide, impressão...) ficava nesse bairro de Lisboa, perto do Jardim da Parada, praticamente em frente de uma livraria chamada Ler, que pertencia ao pai de um dos sócios da editora. Pela Ler tinham passado no Estado Novo muitos livros proibidos; e não foi uma nem duas vezes que ouvi essas histórias de resistência da boca do proprietário, o senhor Luis Alves, até porque na altura não havia Internet e, quando eu precisava de fazer consultas e não tinha as fontes necessárias, ia incomodar o prestável livreiro, pedindo-lhe que me deixasse ver determinado volume da Luso-Brasileira que se perfilava numa prateleira bem alta. Pois bem: apesar da concorrência das cadeias de livrarias e hipermercados, a Ler tem sabido resistir e manter-se de pé, honrando o seu passado. E há uns dias li que, com toda a justiça, ganhou a designação de "Loja com História", que de facto merece, não exactamente pelos anos que tem, mas pela história da democracia que passou por ali. Parabéns, pois, à Livraria Ler.

18
Nov20

Dias que correm

Maria do Rosário Pedreira

Todos os anos, pelo Natal, ofereço uma agenda de secretária à minha mãe; e, quando uma única vez me esqueci, ele fez-mo notar logo no dia 26. A minha sogra enchia agendas de carteira com o registo de tudo o que fazia e temos uma arca cá em casa cheia delas. Eu própria gosto de agendas em papel, embora, claro, também use a do Outlook para as coisas profissionais; e, entre vários tipos de agendas, prefiro as literárias, pois, ao mesmo tempo que nelas anoto encontros, consultas, lembretes ou afazeres, aproveito para ler poemas ou excertos de textos literários, alguns dos quais conheço e recordo com prazer, outros descubro com deleite ou espanto. Este ano há agendas destas a que vale a pena prestar atenção. A Dom Quixote, por exemplo, publica Saudades, na qual podem ser encontrados excertos de muitos textos de autores de língua portuguesa, dos trovadores aos poetas e romancistas de hoje, sobre um tema tão português. E a Quetzal publica uma outra, Agenda Literária 2021, elaborada pela escritora Helena Vasconcelos, que regista em cada dia episódios relacionados com a gente das letras, como o aniversário de Mary Shelley logo no primeiro dia do ano. Tudo para passar 2021 a ler e a aprender. Belos presentes.

17
Nov20

Oficina

Maria do Rosário Pedreira

Não tenho grande experiência de dar cursos ou workshops, embora já o tenha feito meia dúzia de vezes e (passe a imodéstia) nem me saí mal (pelo menos, foi o que me disseram); mas resolvi aceitar o repto que há tempos me lançaram de orientar uma oficina de quatro horas (em dois dias diferentes, 20 e 27 de Janeiro de 2021) sobre edição de livros, partilhando com os formandos as minhas opiniões sinceras e a minha experiência. No fundo, vou explicar o que devia ter um livro para ser publicado e aquilo que falta a um livro para ser um LIVRO (de ficção, bem entendido). Vou, portanto, falar de talento, linguagem, história, estrutura, verosimilhança, estilo, leituras, gosto, gramática... e muito mais; e também, claro, responder a perguntas dos que estarão do outro lado do ecrã (sim, é tudo virtual em tempos perigosos como estes, o que é talvez menos simpático, mas facilita a participação de qualquer pessoa em qualquer lugar). Por isso, se estão dispostos a aturar-me cara a cara ou querem saber mais do que aqui vos conto e fazer as vossas próprias perguntas, podem consultar as linhas-mestras da oficina e inscrever-se aqui:

https://euaprendoemcasa.pt/workshop-por-maria-do-rosario-pedreira-livros-e-livros-escrever-editar-e-publicar-ficcao/

Um dia destes, partilharei o programa mais detalhado.

16
Nov20

Os herdeiros

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é o aniversário de nascimento de José Saramago, o único escritor português que foi Prémio Nobel da Literatura. E não há forma melhor de o celebrar (além de ler os seus romances e diários, bem entendido) do que começar já esta noite a assistir ao programa Herdeiros de Saramago, que vai estrear-se em versão dupla na RTP 1 em horário nobre. Cada episódio se debruça sobre a vida de um dos escritores galardoados com o Prémio Literário José Saramago, desde Paulo José Miranda (o primeiro autor português a ganhá-lo) até Afonso Reis Cabral (o mais recente contemplado e o mais novo). Mas não pensem em nada de óbvio, porque o autor do programa, Carlos Vaz Marques, e a realizadora, Graça Castanheira, fizeram um trabalho profundamente original e inesperado (eu vi quatro programas em ante-estreia, integrados no festival de cinema Indie, em Setembro, e fiquei mesmo fã). A imagem é, por isso, uma parte muito especial destes episódios, e os tópicos desenvolvidos sobre cada um destes escritores de língua portuguesa (também há três brasileiros e um africano, além dos portugueses) não estão necessariamente ligados ao patrono do prémio ou à escrita romanesca, mas a factos da sua vida por vezes aparentemente desligados da actividade que os tornou herdeiros de Saramago. Hoje vamos conhecer melhor Paulo José Miranda e José Luís Peixoto e saber o que andam ou andaram a tramar. Para a semana há mais.

13
Nov20

Frestas de luz

Maria do Rosário Pedreira

Há tempos disse aqui que não via nada de positivo nesta pandemia e no confinamento que gerou, mas fui precipitada, porque houve quem tenha sabido aproveitar a má onda com excelentes resultados. Madalena Alfaia, amiga dos livros (trabalhou muitos anos na editora Tinta-da-China e é tambem tradutora e autora), aproveitou uma aberta, seguindo, como ela própria disse, uma afirmação de Electra: «Chegou a hora em que já não se trata de pensar ou hesitar, mas de agir e olhar em frente.» E criou um projecto de escrita, interpretação e vídeo intitulado Aproveitando Uma Aberta: Quatro Monólogos para Quatro Autores em Quatro Divisões da Casa, que representa quatro versões do «encerramento» a que fomos forçados em Março. O trabalho de escrita dos autores visava actores específicos (Matilde Campilho/Vítor D’Andrade; Valério Romão/Carla Bolito; Madalena Alfaia/David Pereira Bastos; Jacinto Lucas Pires/Rita Durão) e um cenário particular: cozinha, casa de banho, quarto e sala. Com música de Filipe Melo e realização de João Gambino, os vídeos foram gravados no Verão e exibidos no Outono, e os textos publicados no suplemento «Ípsilon» do Público, podendo ser lidos nos links abaixo:

«Having a coke with you», Matilde Campilho

«O casaco de Baudelaire», Valério Romão

«Conversa de cama», Madalena Alfaia

«A atriz na sala de estar», Jacinto Lucas Pires

Os quatro filmes estão disponíveis em https://vimeo.com/user123675051

Parabéns à Madalena Alfaia por esta fresta de luz.

12
Nov20

Livros com livros

Maria do Rosário Pedreira

Pensando num livro que quero muito comprar (O Infinito num Junco, de Irene Vallejo), concluí que a melhor receita para a perfeição é um bom livro com livros lá dentro. (Por acaso, ao escrever isto, lembrei-me da recente publicação d'O Cânone, com organização de Miguel Tamen, António Feijó e João R. Figueiredo, e, pensando na polémica que desencadeou, diria que não deve ser perfeito; mas, quando o ler, o que ainda não fiz, poderei ajuizar.) Em todo o caso, um bom romance em que os livros são como personagens geralmente resulta às mil maravilhas, e li recentemente no The Guardian um artigo que enumera uns quantos, embora nem todos cá traduzidos. A mim ocorrem-me de repente Farenheit 451, de Ray Bradbury, A Sombra do Vento, do recentemente falecido Carlos Ruiz Zafón, O Nome da Rosa, de Umberto Eco, A Noite do Oráculo, de Paul Auster, ou Casa de Papel, de Carlos María Dominguez, mas Italo Calvino e Vila-Matas são exímios em introduzir os livros nas suas obras. E, em língua portuguesa, podemos falar de A História do Cerco de Lisboa, entre outros livros de José Saramago, de Os Naufrágios de Camões, de Mário Cláudio, ou mesmo d'Os Loucos da Rua Mazur, do mais jovem João Pinto Coelho, sobre um livro que está, afinal, por escrever e desencadeia toda uma história incrível. E aos Extraordinários, que lhes ocorre no âmbito das ficções com livros dentro?

 

 

 

11
Nov20

Geografia da ausência

Maria do Rosário Pedreira

Ontem ao fim da tarde (desculpem não ter avisado, mas quase de certeza que a sessão foi gravada) houve um lançamento virtual do mais recente livro de Mia Couto, O Mapeador de Ausências, que pôde ser visto nos murais do Facebook de uma série de bibliotecas, teatros e centros culturais por esse País fora. O autor é o mais conceituado escritor moçambicano contemporâneo, detentor, entre outros, dos prémios Vergílio Ferreira, União Latina de Literaturas Românicas, Eduardo Lourenço e Camões, tendo também sido finalista do Man Booker International e o primeiro autor de língua portuguesa a integrar a final deste importante prémio internacional. O romance fala de um prestigiado intelectual moçambicano branco, professor na Universidade de Maputo, que regressa à terra onde nasceu, na Beira, ao fim de muitos anos de ausência, para ser homenageado nas vésperas do ciclone que assolou aquela região em 2019; e a história oscila entre as suas recordações de infância (quando Moçambique era ainda uma colónia), os episódios que se seguiram à independência (como, por exemplo, o facto de um criado da casa se ter transformado num dirigente da FRELIMO) e uma história de amor na actualidade. São 416 páginas de deleite para os muitos fãs de Mia Couto desfrutarem nestes dias em que têm de ficar em casa. Não há desculpas com a falta de tempo, hã?

 

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