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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Jan21

Desconfinar

Maria do Rosário Pedreira

As escolas estão abertas, mas as bbliotecas fecharam e os supermercados foram proibidos de vender livros. Há muitas cidades e vilas neste país onde neste momento não se podem, por isso, comprar livros ou pedi-los emprestados. Os livros não foram considerados bens essenciais pelas autoridades que ditaram o confinamento. Porquê?

Desconfinar.jpg

 

 

15
Jan21

Uma profissão muito antiga

Maria do Rosário Pedreira

Uma das etapas mais importantes na conclusão de qualquer trabalho escrito, não necessariamente um livro literário, é a revisão. Uma pessoa que entrega um texto por rever está a desrespeitar o leitor e a pôr-se em muito maus lençóis. Se um professor universitário, por exemplo, receber um trabalho de um aluno cheio de erros e gralhas, deve, quanto a mim, descontar valores quando for dar a classificação final, assinalando a falta de cuidado. Respeito muito os revisores de texto (mesmo quando não concordo com algumas das suas achegas, pois alguns tendem a ser donos da língua) e li recentemente que esta é uma profissão realmente muito antiga. Quando ainda não existia imprensa, os copistas faziam (desculpem a redundância) cópias de textos para que pudessem estar ao mesmo tempo em bibliotecas e arquivos vários e ser consultados por muitas pessoas em locais diferentes. Porém, por desatenção, estes copistas introduziam erros nas suas cópias. Ora, quando se deu por isso em textos de tragediógrafos e poetas conhecidos, foi decidido que alguém devia passar a fazer um cotejo a seguir à cópia, evitando assim a reprodução escusada do erro em cópias posteriores. Ainda hoje é fundamental a prática de uma boa revisão em qualquer texto (e os correctores dos computadores dão jeito, mas não chegam). Vivam, pois, os revisores de texto.

14
Jan21

Escreve ou não escreve?

Maria do Rosário Pedreira

Estou, já aqui o disse, a preparar um curso sobre escrita e edição; e foi nesse âmbito que me surgiu a questão (julgo eu que bastante pertinente) que aqui trago hoje e que tem que ver com aquele a que chamamos «escritor». Ora, na página de um escritor bem conhecido (sua página «oficial», diria eu) o nome aparece seguido de: «Escritor, poeta, ensaísta.» E, embora seja tudo verdade (ele é tudo isso), estou intrigadíssima com a sequência porque... Então um ensaísta não é escritor? E um poeta não é escritor? Escritor é apenas o autor de livros de ficção, o romancista? Bem sei que a poesia nasceu numa tradição de oralidade, mas o tempo de Homero ou dos trovadores já lá vai há séculos e não consigo entender porque, em pleno século XXI, se mantém esta mania de, nos jornais ou na Internet, se escrever debaixo de um nome de uma pessoa que escreve poesia e ficção «escritor e poeta» , como se o poeta não escrevesse, fosse apenas um dizedor. Também se pode discutir que «escritor» aponta para um criador literário e que o ensaio nem sempre implica criatividade. Mas há ensaístas altamente criativos, e lá que o ensaísta escreve não há dúvida. Outra coisa esquisita é, nos jornais portugueses, meterem geralmente a poesia na categoria da ficção, quando a poesia é talvez (por mim falo) o menos ficcional dos géneros. «Ficção» estará então ali em vez de «literatura»? Donde virão estas malfadadas confusões?

13
Jan21

Receitas milagrosas

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui  falei de um médico britânico que receitava leituras aos seus doentes, sobretudo os mais stressados ou ansiosos (e que falta fazem agora, em que o mais indicado é ficar em casa). O Museu da Farmácia também não desdenha dos livros e tem uma actividade bastante regular relacionada com a literatura geral, incluindo um clube de leitura mensal (dedicado a um livro ou autor e muitas vezes com a presença deste), passatempos, palestras, encontros... Desta feita, divulga receitas literárias para 2021, auscultando as opiniões de personalidades ligadas a várias áreas (Pedro Abrunhosa, Carlos Tê...), além, claro, de gente mais próxima das letras: escritores, editores, tradutores, divulgadores. Cada uma destas figuras dá umas quantas sugestões de livros para os leitores que precisam que lhes dêem ideias. E o mais curioso é que o título que aparece citado mais vezes é justamente um livro sobre livros... Entretenham-se então com estas receitas, inscrevam-se para receber a newsletter do museu e leiam o mais que puderem, claro.

Receitas_Literarias.pdf (miktd6.com)

 

12
Jan21

Portas abertas

Maria do Rosário Pedreira

O ano que passou foi muito duro para as livrarias em geral, excepto para as que vendem apenas online e que, imagino, facturaram mais do que nos anos anteriores. Mas as livrarias que também são uma espécie de museus, como a Lello, no Porto, devem ter sofrido um duro golpe com a falta de visitantes estrangeiros sobretudo durante os meses de confinamento, tal como, aliás, tudo o que é turístico. Desejemos-lhe por isso que este ano as coisas corram melhor, porque a linda Lello da Rua das Carmelitas faz amanhã 115 anos! Caramba, velhinha mas de pedra e cal e sempre bonita. O programa da festa de aniversário vai ser variado e terá transmissão digital, incluindo música com Marisa Liz, discurso do excelente Siza Vieira e bolo de aniversário lá para o meio-dia Depois as portas ficarão abertas até às 18h00 para que quem queira entre sem ter de pagar (de máscara, claro!). Que venham pelo menos mais 115, Miss Lello!

Aproveito para lembrar a minha oficina, cujas inscrições estão mesmo mesmo a terminar, nos próximos dias 20 e 27 às 18h30. Duas sessões de duas horas a falar daquilo de que todos gostamos: livros! Segue o link com todas as explicações.

https://euaprendoemcasa.pt/workshop-por-maria-do-rosario-pedreira-livros-e-livros-escrever-editar-e-publicar-ficcao/

11
Jan21

Apagão

Maria do Rosário Pedreira

Sempre que pergunto a um escritor ou editor norte-americano quem acha que é o maior escritor vivo do seu país, a resposta é Don DeLillo (e acescentam que já devia ter recebido o Nobel). Isto já acontecia, aliás, quando eram vivos autores como Philip Roth,  David Foster Wallace ou Joseph Salter, por exemplo. Para mal dos meus pecados, nunca fui grande fã do senhor DeLillo, sempre gostei mais das vozes de Roth ou Cormac McCarthy, só para citar dois grandes, mas, claro, os gostos não se discutem e talvez o problema seja meu e me falte inteligência para a ironia de DeLillo. Ele é, sem dúvida, um escritor parecido apenas consigo, o que diz muito das suas qualidades, e merece ser lido mesmo por quem não o aprecia especialmente. Li por isso a sua última novela publicada em Portugal (O Silêncio), e de uma penada, até porque é um livrinho de meras 80 e tal páginas. Imaginem então um apagão electrónico que dá cabo de tudo quanto é sistema tecnológico; e assistam a uma espécie de Terceira Guerra Mundial através do quotidiano de dois casais norte-americanos (amigos um do outro) e de um jovem professor de Física do Secundário que foi aluno de uma das mulheres. O primeiro casal vem num avião e espera aterrar em segurança em NY quando... (não vou contar); o outro, na companhia do jovem professor, prepara-se para ver a final da Super Bowl na televisão quando... (também não vou contar). Esta inesperada quebra de ligações (deixam de funcionar elevadores, telemóveis, etc.) é o mote para percebermos o que aconteceria a cada um de nós e ao mundo se de repente houvesse um apagão digital e em que é que nos poderia ajudar a Teoria da Relatividade de Einstein papagueada por alguém enlouquecido. O pequenino romance foi terminado pelo autor antes da pandemia, mas curiosamente avisa-nos bastante sobre a catástrofe do presente. Interessante e actual, mesmo que o autor não faça as minhas delícias.

08
Jan21

Salvam-se os poetas

Maria do Rosário Pedreira

2020, já aqui o disse, foi um ano péssimo. Mas, até nos anos excepcionalmente maus, há coisas boas. A poesia teve em 2020 um ano bom. Além de a contemplada com o Prémio Nobel da Literatura ter sido uma poetisa (Louise Glück, com vários livros no prelo em Portugal para nos deliciarmos em 2021 com a sua voz), a minha sobrinha Rita, de 17 anos, escreveu poemas bons e bonitos. Quatro amigos poetas foram premiados: Ana Luísa Amaral venceu o Prémio Leteo em Espanha, atribuído por livreiros à sua obra What’s in a Name?, e por cá o Prémio Vergílio Ferreira; Luís Filipe Castro Mendes arrecadou o Grande Prémio de Poesia APE/CA com os seus Poemas Reunidos; António Carlos Cortez levou o Teixeira de Pascoaes com Jaguar; e João Luís Barreto Guimarães um galardão que homenageia um confrade, o Prémio Armando Silva Carvalho, com o seu livro Nómada. Adília Lopes publicou Dias e Dias (que fala da experiência do confinamento), José Carlos Barros publicou dois livros (A Educação das Crianças e o curioso Estação com os poemas que publicara no DN Jovem) e até regressou das brumas, tal um D. Sebastião, Paulo Teixeira, de quem já tinha saudades, com o livro A Comoção do Mundo. Saiu a Poesia Grega traduzida por Frederico Lourenço e o segundo volume da Obra Poética de António Ramos Rosa. Carlos Oliveira Santos não só comentou um post deste blogue com muitos anos em Dezembro passado (Poetas não publicados), confessando ser ele o autor de um poema de que eu lá falava, como me enviou o seu volume de Poemas Escoceses que responde pelo título principal Aye Aye Aye (falarei dele mais tarde aqui no blogue). Descobri que Vítor Gameiro Pais, marido de uma prima de quem nada sabia há uns trinta anos, era poeta e publicara o livro Filhos do Betão e do Aço, de que reproduzo abaixo um belo poema. Eu própria, que já não publicava nada há anos, juntei uns textos antigos e fiz outros novos sobre uma viagem a Macau para uma miniatura de vinte e poucas páginas publicada pela Nova Mymosa a que dei o título Estampas Chinesas. E houve mais, claro, mas não posso ser exaustiva. Num ano tão prosaico, pelo menos de falta de poesia não nos pudemos queixar.

 

Boletim meteorológico

 

O boletim meteorológico previu o mesmo

que na palma da mão já me tinha sido lido:

chuva, mau tempo, desassossego, vento forte,

nevoeiro, má sorte.

 

Sangrem as nuvens, revolvam-se as ondas,

agitem-se vendavais no meu caminho.

Que me importa?

Tenho um gorro, um impermeável,

um guarda-chuva

e um calo na linha da vida.

07
Jan21

QI e leitura

Maria do Rosário Pedreira

Num artigo de Christophe Clavé, professor universitário de Estratégia com vários MBA nas melhores universidades, li consternada a notícia de que o QI médio, que desde o final da Segunda Guerra Mundial até aos anos 1990 aumentou sempre, está em queda há vinte anos, sobretudo nos países ditos desenvolvidos. Uma das razões apontadas para esse declínio é o empobrecimento da linguagem. Tal como um bebé não tem memória por não ter uma linguagem que lhe permita fixar a recordação (é por isso que só temos lembranças de coisas que nos aconteceram depois de termos aprendido a falar, lá para os três ou quatro anos), sem linguagem é impossível formar ideias, pensamentos, argumentos. E não se trata apenas de pobreza lexical, pois sem estrutura (por isso a pontuação é importante) não é possível elaborar ideias complexas. O professor nota que desapareceram por exemplo alguns tempos verbais (o conjuntivo e o condicional, por exemplo) e que o facto de a linguagem que se emprega estar reduzida ao tempo presente faz com que, por exemplo, seja difícil fazer projecções (estou sempre a dizer que os jovens autores escrevem tudo no presente, finalmente há alguém que me entende). O uso excessivo de abreviaturas, a abolição dos géneros (mesmo com «boas» intenções) e a sistemática ausência de pontuação nas SMS e nos e-mails são «golpes mortais» na precisão e na variedade da expressão linguística. Quanto menos léxico e menos verbos conjugados, mais difícil se torna construir um argumento, defender uma posição, expressar uma opinião. Menos linguagem, menos reflexão; menos pensamento crítico, menos controlo. Pior ainda: quando a emoção não se expressa por palavras, pode exprimir-se, como sabemos, por actos... violentos. Cito do artigo: «A história está cheia de exemplos, e muitos livros (1984, de Georges Orwell, ou Fahrenheit 451, de Ray Bradbury) contam como todos os regimes totalitários sempre minaram o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.» Posto isto, por favor, leiam cada vez mais e ensinem os vossos mais pequenos a gostar de ler, mesmo que seja complicado. Como diz o professor Clavé, é «nesse esforço que existe liberdade». Sejamos livres.

06
Jan21

Informação solidária

Maria do Rosário Pedreira

Compro diariamente desde que foi lançado o jornal Público. Gosto de o ler em papel e, apesar das mudanças que foi sofrendo ao longo do tempo e que nem sempre fizeram dele um bom jornal, ou um jornal melhor, não consigo deixar de o comprar nem ficar-me pela leitura no computador, como faz o Manel, que é assinante. Apesar de tudo, é com a TSF e o Público que me mantenho informada, porque já raramente vejo telejornais (perde-se demasiado tempo e as notícias são repetidas até à exaustão, como se não percebêssemos à primeira). Ora, o Público associou-se recentemente à Santa Casa da Misericórdia numa acção solidária que penso bastante valorosa: um pacote de 2500 assinaturas gratuitas para leitores desempregados. De facto, não é por não poder pagar o jornal que uma pessoa deve ficar sem direito à informação – e esta é uma forma de ajudar. Quanto mais vulneráveis estivermos, mais precisamos de informação credível, opiniões avalizadas, conhecimento fundamentado, factos verdadeiros. O Público ainda pode gabar-se de tudo isso. E de ter tido esta ideia feliz para quem já está a sofrer na pele os efeitos económicos da COVID-19. Para quem esteja interessado, aqui vai o link:

PSolidario | PÚBLICO (publico.pt)

05
Jan21

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Ao contrário do que costuma acontecer-me nas férias, li muito pouco desde que me despedi aqui no blogue a desejar boas festas (no dia 23 de Dezembro) até ontem. As razões não são partilháveis, mas são-no as páginas do que, apesar de tudo, consegui ler. Trata-se, de resto, de uma obra que eu já aqui tinha aflorado e está a fazer furor em todos os lugares onde é publicada. Recebeu elogios dos jornais espanhóis (à direita e à esquerda) e foi louvada por craques como Juan José Millás, Vargas Llosa ou Alberto Manguel. Fala daquela coisa de que gostam os que aqui vêm ao blogue: livros, pois claro! Chama-se O Infinito num Junco – A Invenção do Livro na Antiguidade e o Nascer da Sede de Leitura e assina-o Irene Vallejo, uma leitora apaixonada, doutorada em Estudos Clássicos em Saragoça e Florença e com uma ampla cultura sobre a história do livro. Trata-se de um ensaio que se lê como ficção; e, entre as dezenas de passagens que fui sublinhando e com as quais vos brindarei ao longo deste ano sempre que vier a propósito, está uma pequena história muito bonita sobre o amor que uniu Marco António e Cleópatra. Como se sabe, a poderosa rainha do Egipto tinha tudo, riqueza e jóias; e, quando começou a pensar num presente de que ela não fosse desdenhar (tinha-a visto derreter uma pérola em vinagre e bebê-la), Marco António resolveu deitar-lhe aos pés 200.000 livros para a Biblioteca de Alexandria. Claro que ela não resistiu a tal oferenda e foi o que se sabe. Bem, se se interessam pelos livros como capital de paixão, não hesitem em ler este. E em sublinhá-lo, porque em todas as suas páginas há pérolas que convém não dissolver.

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