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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

26
Fev21

Censurados

Maria do Rosário Pedreira

A primeira vez que fui a Copenhaga, há muitíssimos anos, talvez uns vinte e dois ou vinte e três, apanhei um ferry para ir a Malmö, na Suécia. A travessia era rápida, a visita a Malmö não demorava muito tempo e, duas horas volvidas, estávamos de regresso e podíamos dizer, todos contentes, que já tínhamos posto o pé na Suécia (país que visitei depois no tempo dos dias enormes e achei bem bonito). Mas hoje Malmö valeria certamente uma visita mais demorada porque tem uma biblioteca bastante original que não havia na altura. Chama-se Dawit Isaak, que é o nome de um escritor preso há mais de vinte anos na Eritreia por se opor ao regime, e só lá há livros censurados. Desde aqueles que a Inquisição mandou queimar aos Versículos Satânicos, de Salman Rushdie, passando por obras aparentemente tão inocentes como Harry Potter, ali estão mais de mil e seiscentos livros que em algum momento e em algum lugar foram proibidos pelas autoridades. Se um dia as viagens voltarem a ser completamente livres e despreocupadas e for a Copenhaga, atravesse até Malmö e vá lá coscuvilhar. Deve por lá haver alguns portugueses...

25
Fev21

Correntes d'Escritas

Maria do Rosário Pedreira

Pois bem, amanhã começam as Correntes d'Escritas, que vão já na sua 22ª edição. Desta vez, claro, vão chegar até nós digitalmente, embora preferíssemos de longe lá estar para cumprimentar a Manuela Ribeiro e toda a equipa que as organiza brilhantemente há tantos anos e encontrar autores e amigos de várias partes do mundo. Ainda assim, posso dizer que as Correntes não baixaram os braços e vão estar dois dias online com muitas actividades e convidados. Haverá uma exposição de fotografias de Daniel Mordzinsky, que tem acompanhado o encontro desde os primeiros anos; e, além dos prémios e das mesas de escritores, haverá algumas surpresas, memórias, depoimentos... A revista este ano é dedicada ao escritor chileno Luís Sepúlveda que, infelizmente, veio a Portugal pela derradeira vez para a 21ª edição das Correntes no ano passado e perdeu a vida uns meses depois, vítima do estupor do vírus. Fiquem atentos, liguem-se e assistam. É o que vou fazer. Programa no link abaixo.

https://www.cm-pvarzim.pt/noticias/correntes-descritas-2021-conheca-o-programa-completo/

 

24
Fev21

Passe a mensagem

Maria do Rosário Pedreira

Portugal é um país muito pequeno e, dos jornais que havia na minha juventude (A Capital, o Diário Popular, o Diário de Lisboa, O Jornal, o Se7e...), muitos já desapareceram, incluindo todos os vespertinos, que depois de haver Internet deixaram de se imprimir. E a seguir, porque as pessoas não compravam as edições em papel, muitos jornais tornaram-se apenas digitais (o Diário de Notícias esteve um longo período sem edição impressa, por exemplo, excepto ao fim-de-semana). Hoje a imprensa é escassa, mas graças a Deus, para os lisboetas e os olisipógrafos (mas não só), apareceu agora uma preciosidade: Mensagem. (O título homenageia de certa forma Fernando Pessoa e a sede desta publicação digital é no café Brasileira, ao Chiado.) Tem na sua equipa alguns ex-DN (Catarina Carvalho e Ferreira Fernandes, por exemplo) e conta com o artista Nuno Saraiva nas ilustrações. Não é um desses jornais do dia que facilmente se tornam obsoletos, tendo muito que ler sobre a nossa capital e contando com vários cronistas, entre eles o escritor Afonso Reis Cabral. Eu tenciono em breve colaborar com uma crónica quinzenal, sobre a qual avisarei oportunamente. Entretanto, aqui vai o link para espreitarem e depois, claro, espalharem a Mensagem.

Mensagem de Lisboa - O novo jornal digital da cidade (amensagem.pt)

23
Fev21

Técnicas de venda

Maria do Rosário Pedreira

Toda a gente sabe que no século XXI o marketing atingiu as empresas como uma flecha e nunca mais nos livrámos dele. Tem coisas boas, claro, mas por vezes sobrepõe-se de uma forma estranha e opressiva aos outros departamentos e, na edição, isso foi muito visível quando se passou a tratar o livro como produto e o leitor como cliente e, consequentemente, o autor passou a ser apenas mais uma peça da engrenagem, e raramente a mais importante. De resto, as opções dos departamentos de marketing às vezes são um pouco absurdas, como contou recentemente Miguel Esteves Cardoso a propósito de um sabonete líquido que costuma comprar; quando esse sabonete chegou ao fim no primeiro confinamento, ele foi ao site da marca para o encomendar, mas encontrava-se esgotado. Havia uma opção para ser contactado assim que o sabonete estivesse de novo disponível, mas o jornalista não quis perder tempo nem dar o e-mail que provavelmente implicaria receber mensagens todos os dias sobre outros produtos que nada lhe interessavam. Agora,  no segundo confinamento, acontecendo-lhe o mesmo, encontrando-se de novo o sabonete «em ruptura de stock», resolveu ligar para o fabricante, temendo que o produto tivesse sido «descontinuado». E disseram-lhe que havia stock, mas faziam aquilo no site para que os clientes preenchessem a ficha e, desse modo, eles pudessem «seleccionar a clientela» (como se um sabonete líquido fosse um néctar dos deuses...). Está tudo maluco, enfim. Uma vez disseram-me que uma livraria portuguesa punha no Top da loja os livros que não se estavam a vender para ver se as pessoas assim lhes davam atenção e os levavam. É o marketing, senhores, ou seja, não nos podemos fiar nele...

22
Fev21

Gosto / Não gosto

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, num suplemento do Diário de Notícias chamado DNA, que foi dirigido originalmente pelo saudoso jornalista Pedro Rolo Duarte, havia uma secção muito interessante, na qual era convidada uma personalidade pública a escrever em cerca de vinte ou trinta linhas aquilo de que gostava e não gostava. Vamos imaginar que eu tinha sido convidada (não fui ou, se fui, não me lembro) e escrevia: «Gosto do verão. Não gosto de canja.» E por aí afora. Pois recentemente, num blogue chamado Redondo Vocábulo, de Luiz Robalo, encontrei um texto que me recordou essa coluna do DNA, embora claro, com a diferença de que aqui só se fala do que se gosta e gostou e disso se fale em tom muito mais poético, recordando sobretudo os avós e a infância. Agradeço, pois, a autorização para aqui partilhar o link desse texto, dando assim mais uma indicação de um blogue que os Extraordinários podem ir consultando à falta de actividades culturais presenciais.

AI DO QUE GOSTEI E DO QUE GOSTO (luizrobalo.blogspot.com)

19
Fev21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

[…] e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou «que você tem?», mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e foi só mesmo pela insistência da pergunta que respondi «você já jantou?» e como ela dissesse «mais tarde» eu então me levantei e fui sem pressa pra cozinha (ela veio atrás), tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e passei uma água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que me ia restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo que por baixo do seu silêncio ela se contorcia de impaciência, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente lhe parecesse, eu só sei que quando eu acabei de comer o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto.

Raduan Nassar, Um Copo de Cólera

18
Fev21

Blimunda

Maria do Rosário Pedreira

Blimunda é, como saberão os leitores deste blogue, o nome da personagem feminina de Memorial do Convento, de José Saramago. E é também o nome da revista gratuita e digital que a Fundação José Saramago publica mensalmente desde 2012, dirigida por Sérgio Machado Letria e com redacção de Andreia Brites, Ricardo Viel e Sara Figueiredo Costa. Esta Blimunda chegou aos 100 números no final do ano passado. O marco serviu então para repensar a revista e introduzir nela mudanças de formato que ajudarão o leitor a orientar-se melhor na leitura das secções que mais lhe interessam e, por outro lado, um formato que se adapte melhor a telemóveis e outros dispositivos digitais nos quais hoje muita gente a lê. Será ainda possível consultar os números anteriores em PDF, mantendo-se também os objectivos com que a Blimunda foi criada: dialogar com os leitores, propor assuntos pertinentes e não deixar morrer a memória de quem faz da Cultura um lugar a visitar. Espreite-a aqui e subscreva-a.

Blimunda (josesaramago.org)

17
Fev21

As casas

Maria do Rosário Pedreira

Octávio dos Santos, também leitor destas Horas Extraordinárias, partilhou comigo um projecto em que está envolvido e que, por me parecer meritório, divulgo aqui no blogue, mesmo que neste momento estejamos impedidos de pôr o pé na rua e a caminho de um desses sempre reveladores lugares. Trata-se, para ser mais clara, de Casas de Escritores, lares onde viveram alguns dos nossos mais célebres criadores literários e que foram, regra geral, posteriormente transformadas em casas-museus. Octávio dos Santos elaborou a lista das Casas de Escritores de língua portuguesa que existem actualmente e se mantêm abertas ao público e com actividade cultural. Pensei logo na casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, que visitei há bastantes anos, ou em Tormes, onde Eça comeu um dia frango e arroz de favas (e eu também o fiz no restaurante que abriram lá quando fui de visita). Mas estas são só as mais óbvias, porque a recolha inclui casas em Angola, no Brasil e espalhadas por este nosso Portugal, pretendendo Octávio dos Santos criar uma Rede de Casas de Escritores de várias épocas e estilos que, quanto a mim,  irá constituir, além de tudo, um excelente itinerário para quem queira viajar pela literatura portuguesa. Deixo-vos o link para aprofundarem o assunto. Obrigada ao Octávio dos Santos por esta bela sugestão e pelo seu trabalho.

https://octanas.blogspot.com/2021/02/outras-casas-listadas-para-serem.html

16
Fev21

Transparente ou opaca?

Maria do Rosário Pedreira

No jornal Público do passado domingo li um artigo bem interessante de Sílvia Lapa, terapeuta da fala e técnica especial de reabilitação e eduacção especial, sobre a maior ou menor ocorrência de erros de ortografia nos primeiros anos de aprendizagem da leitura e da escrita. A questão tem que ver com um conceito que não conhecia e que toma os vocábulos «transparente» e «opaco» para definir as línguas. Se um idioma tem uma escrita que pouco espelha a oralidade (o inglês, por exemplo, em que um i, um ch ou um gh podem ser lidos de várias maneiras), diz-se que é opaco, e é mais natural que as crianças dêem erros nessas línguas ou, pelo menos, demorem bastante mais tempo a apreender a grafia correcta das palavras. Se, por outro lado, a oralidade anda a par da escrita (como acontece com o finlandês, em que a grafia reflecte mais exactamente o fonema), então estamos diante de uma língua dita transparente. O português, ao que parece, é uma língua de opacidade média (i e p só têm um som, mas o x pode soar de imensas maneiras, como é visível em palavras como exigir (z), enxame (ch), fluxo (cs) ou máximo (ss), 4 sons distintos!). 85% das crianças espanholas (outra língua mais transparente) lêem com precisão no final do primeiro ano de escolaridade, enquanto só 50% das inglesas são capazes do mesmo. Numa língua cheia de excepções como a nossa, não faço ideia de quanto tempo levam as nossas crianças a ler com precisão. Mas lá que os adultos ainda dão erros, basta ver o Facebook...

15
Fev21

Versos

Maria do Rosário Pedreira

Por razões que agora não importa aqui referir (fá-lo-ei oportunamente), estive a reler muitas das letras de fados e canções que a nossa grande Amália Rodrigues escreveu e foram publicadas pela Cotovia num volume muito cuidado e bonito intitulado Versos. Amália, que não teve possibilidade de estudar (entrou na escola tarde e saiu logo a seguir, pois eram muito pobres lá em casa e não havia remédio senão trabalhar), tornou-se uma grande leitora de poesia, o que se percebe, de resto, pelo bom gosto de grande parte do seu repertório. Mas, além de leitora, era igualmente uma excelente autora de letras, e são da sua pena, embora muita gente não saiba, as palavras de fados tão célebres como Estranha Forma de Vida, Lágrima, Amor de Mel Amor de Fel e até Ó Gente da Minha Terra, que Mariza tornou ainda mais célebre. Tal como o Giotto levava as ovelhinhas a pastar e pintava nas pedras o que depois se descobriu ser obra de génio, a nossa grande fadista também escreveu para o fado melhor do que muitos poetas. Leiam-na para se distraírem deste nosso fado.

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