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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Mar21

Morder e ladrar

Maria do Rosário Pedreira

O meu primeiro livro do ano só sai hoje, e tudo por causa do «confinamento» das livrarias. Perdeu-se a vinda da autora às Correntes d'Escritas, mas espera-se que as pessoas não percam o livro,  especialmente numa altura em que tantos casais substituem os filhos por animais de estimação e muita gente diz que, quanto mais conhece as pessoas, mais gosta dos animais... Na costa da Colômbia virada ao Pacífico – num lugar onde a paisagem luxuriante contrasta com uma pobreza extrema e o homem é uma migalhinha diante da força dos elementos – vive Damaris, uma negra com cerca de 40 anos que toda a vida quis ser mãe. A sua relação com o marido tornou-se, aliás, fria e turbulenta à medida que o casal foi sacrificando tudo o que tinha à obsessão de Damaris e, apesar disso, ela nunca conseguiu engravidar. Mas a vida desta mulher frustrada parece encontrar uma réstia de esperança no dia em que adopta a última cadelinha de uma ninhada. Só que, tal como os filhos nem sempre correspondem às ambições que os pais têm para eles, Chirli também não será a cadela com que a dona sonhou. A Cadela é uma novela brilhante sobre a maternidade, a traição, a lealdade, a culpa, e também sobre a relação enigmática e por vezes excessiva entre os donos e os seus animais. Chegou à final do National Book Award nos EUA em 2020, na categoria e literatura traduzida, e a sua autora ganhou há poucos meses o Prémio Alfaguara com Los Abismos.

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30
Mar21

Livros ilustrados

Maria do Rosário Pedreira

Tendemos a pensar que os livros ilustrados são só para meninos pequenos e que, quando uma criança os abandona e começa a ler apenas livros de texto, é porque se tornou um leitor independente. Leio no New York Times um artigo de uma especialista, Pamela Paul, que não concorda com isto e tem pena de que os pais privem filhos pré-adolescentes (e até se privem eles próprios) de livros com ilustrações, porque não os considera de forma alguma infantis (embora o possam ser, claro) e diz que frequentemente este preconceito pode acabar por afastar definitivamente as crianças da leitura. Além disso, Pamela Paul diz que os livros com ilustrações fundem duas artes distintas (a literária e a visual), oferecendo duas leituras: a do texto, claro, e a das imagens, que conta uma história paralela, não sendo uma mera tradução do enredo. Depois, as ilustrações contemporâneas, que já não são de meninas lindas e perfeitinhas e meninos certinhos e com a camisa entalada nas calças, ajudarão a que os leitores se identifiquem mais facilmente com as personagens, e isso é o que faz realmente um leitor, a afinidade  com as personagens. É também importante o facto de muitas vezes ser o desenho que esclarece sobre determinada palavra difícil ou nova, somando-a ao léxico da criança. Pamela diz que, para fomentar a leitura, não se devem tirar de repente os livros ilustrados às crianças para elas não os associarem às leituras por prazer e associarem depois os livros de texto à chatice e à obrigação. Razões mais do que suficientes para nunca banirmos os livros ilustrados das nossas bibliotecas e estantes, diria eu, que até gosto de ler romances gráficos e tenho alguns livros infantis guardados no coração.

29
Mar21

Os novos portugueses

Maria do Rosário Pedreira

Recebo uma mensagem da jornalista Anabela Mota Ribeiro, que me alerta para uma coisa em que não tinha ainda pensado: estamos em democracia há quase tantos anos como aqueles que vivemos em ditadura (apenas menos um). E quem são as pessoas que já nasceram ou foram criadas neste novo país que Portugal se tornou em 1974 e andam por aí a dar cartas (ou não)? Num programa de entrevistas que se estreia no próximo dia 1 de Abril (mas não é mentira!) na RTP 3 (e tem tudo para correr bem, diria eu), Anabela Mota Ribeiro vai falar com 25 Filhos da Madrugada (é este o título do programa). «Uns mais conhecidos do que outros. Diferentes sensibilidades políticas. De diferentes áreas de trabalho e geografias.» Haverá um pouco de tudo, naturalmente, mas o essencial é vermos como é a vida destas pessoas na actualidade em comparação com a vida que tiveram os seus pais e avós e o que sabem os «jovens» portugueses desses tempos longínquos (ou não tanto, que eu não me sinto velha e ainda os vivi durante 14 anos). A educação, o sexo, a religião, o preconceito, as oportunidades, tudo isto vai estar em causa nas conversas que terminam no dia 25 de Abril (um belo dia!) e darão a voz a gente muito distinta, de direita e de esquerda, para português ver. Eu cá estou muitíssimo curiosa.

26
Mar21

Os mortos e a literatura

Maria do Rosário Pedreira

Li algures uma frase de Voltaire que apontei logo no meu telemóvel: que devemos respeito aos vivos, mas, aos mortos, devemos apenas a verdade. Vem isto a propósito de um artigo que li no The Guardian há uns dias sobre o grande Thomas Bernhard, o mais talentoso dramaturgo (e romancista) austríaco, e além disso um homem poderosamente charmoso, como se vê pelas várias fotografias que se encontram por aí, incluindo uma do final dos anos 1950 que acompanha o artigo em questão. Parece, porém, que a sua imagem pública de disciplina, génio e generosidade é agora desmantelada por uma biografia escrita pelo seu meio-irmão Peter Fabjan (que, em português, se chamaria algo como Uma Vida ao lado de Thomas Bernhard: Um Relatório) e publicada em alemão há um par de meses, estando a fazer furor sobretudo na Áustria, onde se encontra no Top 10. Pois o meio-mano diz que o grande escritor era afinal um fantasma, até um demónio, e que viver ao seu lado foi penoso, porque se tratava de uma pessoa vulnerável, surda aos demais e que, quando os próximos já nada lhe podiam oferecer, os descartava sem dó nem piedade. Segundo a frase de Voltaire, talvez Fabjan esteja certo em contar tudo isto, mas importa realmente tantos anos depois da morte de Bernhard deixar um testemunho tão negativo de alguém que já não se pode defender? Há quem pense que, depois de mortos, não se deve denegrir a imagem dos escritores (que cai mal, enfim) mas, por outro lado, há também quem espere que o escritor se torne esqueleto ou cinza e afie logo as unhas para lhas enterrar na memória. Será Fabjan um oportunista ou alguém muito magoado a vingar-se de uma ferida que não sara? Em que podem, no fundo, os mortos servir a bela literatura?

25
Mar21

Os livros das caravanas

Maria do Rosário Pedreira

Gostaria muito de visitar uma exposição que estará apenas aberta até 9 de Abril em Las Palmas e, em Maio, se inaugura em Tenerife (mas não estou com planos de ir a nenhum desses sítios tão cedo). É uma mostra de fotografias de famílias mauritanas e dos documentos antigos que elas conservaram, alguns datados do século VIII, quando as rotas caravaneiras e mercantis atravessavam o deserto do Sara para trocar sal por ouro e iam parando pelo caminho. Pois parece que já nesse tempo levavam «livros» e documentos e que, ao deter-se nos oásis, os deixavam ali para serem copiados e lidos pelos que ali viviam, sendo apenas levantados no regresso. Eram copiados de forma mais ou menos rápida e ali ficavam depositados por séculos, servindo de meio de contacto com as cidades por quem ali estava tão isolado do mundo. Mais recentemente, foi dada formação a uma dezena de famílias em dois destes antigos oásis mauritanos para digitalizarem e restaurarem os documentos guardados, e a exposição mostra também, além das preciosidades, as fotografias destas famílias do deserto trabalhando para a conservação de um património incrível: tabuinhas, textos sobre astronomia, religião e matemática, tudo elementos que vêm mostrar que o Sara, longe de ser uma fronteira entre cidades povoadas, foi afinal uma espécie de «continuum cultural».

24
Mar21

Imaginação

Maria do Rosário Pedreira

Rosa Montero, versátil autora do país vizinho, escreveu o seu mais brilhante livro sobre a imaginação e chamou-lhe A Louca da Casa. Se não o leu ainda, não perca esta homenagem à nossa faculdade de imaginar. Hoje, porém, a imaginação está menos valorizada, pois parece que as pessoas preferem as séries da Netflix aos livros que, como se sabe, são instrumentos que desenvolvem inúmeras capacidades, nomeadamente a imaginação, e obrigam a uma participação mais activa do leitor (o espectador já tem a papa feita, digamos assim). Mas ainda há quem, no mundo dos livros, não se deixe abater pela concorrência e arranje maneira de replicar os tiques de quem está a roubar-lhe público, talvez para lho roubar depois. É o caso de uma bibliotecária inglesa, Jo Clarke, que não baixa os braços. O meu amigo facebookiano Nuno Ferreira da Silva partilhou na sua página a fotografia que aqui publico hoje e que mostra como é precisa imaginação e inteligência quando se pretende fazer leitores, incluindo os mais pequeninos. Este foi o cartaz que Jo pensou e realizou para a escola primária onde trabalha, replicando as listas de filmes e séries à disposição na Netflix. Se todos os nossos professores primários tivessem imaginação e iniciativa como Mrs Clarke, talvez houvesse mais leitores em Portugal.

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23
Mar21

Herdeiros de Saramago

Maria do Rosário Pedreira

Lembram-se certamente de que recentemente a RTP transmitiu cerca de uma dúzia de documentários sobre todos os vencedores do Prémio Literário José Saramago com o título genérico Herdeiros de Saramago, uma maravilha bastante invulgar na nossa produção televisiva, assinada por Carlos Vaz Marques com realização de Graça Castanheira. Pois agora o mesmo título serve de inspiração a Jerónimo Pizarro, o professor da Universidade dos Andes em Bogotá, responsável pela Cátedra Fernando Pessoa, e à revista colombiana Malpensante para uma série de encontros em modo de Clube de Leitura com alguns dos autores contemporâneos portugueses mais representativos (Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe e José Luís Peixoto) para se falar da obra do mestre e de temas como a revolução, a memória, a descolonização e a identidade nacional através de livros como O Retorno, A Máquina de Fazer Espanhóis, Morreste-me e Jerusalém. As sessões terão lugar nos dias 15, 22 e 29 de Abril e 6 de Maio, pelas 9 horas da noite portuguesas e as inscrições já estão abertas. Junto o link com mais informação.

Club de lectura - Los herederos de Saramago con Jerónimo Pizarro (google.com)

22
Mar21

Estupidez

Maria do Rosário Pedreira

Disse-se ao longo de mais de uma centena de anos que a América era a terra das oportunidades; infelizmente, passou a ser a terra da oportunidade de ficar calado, pois não se pode agora falar de nada sem que todas as nossas palavras, por mais inocentes que sejam, acabem julgadas da pior maneira. Recentemente soube que recusaram a obra de um autor português com um relatório em que, antes de mais nada, o descreviam como muitíssimo talentoso; mas esse talento era secundário para a editora norte-americana que decidiu não o publicar porque um dos romances falava de forma muito directa de um tema que, para a imprensa norte-americana, era muito sensível (a deficiência); e o outro tinha, entre as suas personagens, uma transexual (mas, como o autor não o é, certamente iria ser acusado de falar do que não sabe; ainda pensaram pedir um segundo relatório de leitura a alguém da comunidade LGBT lá do sítio, mas não encontraram nenhum trans que lesse português). É o que temos na terra das não-oportunidades. Então hoje para uma editora o talento é menos importante do que o assunto de um romance? E um agente cultural como uma editora mete o rabo entre as pernas, recusa-se a arriscar e abdica de mudar mentalidades mesmo quando diz que o autor tem muito talento? Não sei mesmo aonde vamos parar com este tipo de (in)decisões e ainda bem que eu já não vou durar muito para ver este tipo de censura encapotada tomar conta de tudo. É uma outra forma de preconceito que em nada ajuda as minorias, fingindo que as protege. Se os autores não podem falar do que não sentiram na pele, não é isso uma negação da imaginação? Albert Einstein disse que havia duas coisas infinitas: o universo e a estupidez. E que não sabia qual era mais antiga...

19
Mar21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Cannery Row, em Monterey, Califórnia, é um poema, um fedor, uma estridência, uma gradação de luz, um som, um vício, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é acumulação e desperdício; lata, ferro, ferrugem e gravetos; pavimentos escavacados, terrenos de urtigas e amontoados de cordame; fábricas de enlatar sardinhas de chapa ondulada, dancings, restaurantes, bordéis e pequenas mercearias atravancadas; laboratórios e albergues. Os seus habitantes são, como disse o homem certa vez, «pegas, alcoviteiras, batoteiros e filhos da mãe», com o que pretendia dizer «toda a gente». Tivesse o homem espreitado por outra frincha e talvez dissesse «Santos e anjos, mártires e homens bons»; e significaria a mesma coisa.

John Steinbeck, Bairro da Lata (tradução de Luiza Maria de Eça Leal)

18
Mar21

Poesia

Maria do Rosário Pedreira

Estes tempos de pandemia são tempos prosaicos e sem graça. Mas neste domingo celebra-se mais um dia da Poesia e convém, pelo menos nesse dia, ler poemas, mesmo que os Extraordinários sejam mais dados à ficção e alguns digam até que a poesia lhes diz pouco (suponho que apenas porque ainda não encontraram o poeta que os convenceu; ele há tantos e tão diferentes que o mais importante é insistir). Para este domingo, convidaram-me (a mim e a outros poetas, bem entendido) da Casa da América Latina para ler cinco poemas de autores latino-americanos. Escolhi José Emilio Pacheco do México, Eucanaã Ferraz do Brasil, José María Zonta da Costa Rica, Juan Gellman e Roberto Juarroz da Argentina (e não me venham chatear por serem tudo homens, porque aqui o que me interessou foram os poemas, não os poetas, como diz o próprio José Emilio Pacheco no texto que elegi). E, de cada vez que gravo estes pequenos vídeos e investigo, fico feliz por encontrar textos tão bonitos que não conhecia e por vezes até autores que nem sabia que existiam. Façam o mesmo neste domingo: procurem, para variar, um poeta qualquer de um país que escolham. Verão como a descoberta dará bons frutos.

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