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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mar21

Novos desafios

Maria do Rosário Pedreira

Gosto muito quando uma arte provoca outra, e já aqui devo ter contado a história de uma joalheira que fez uma belíssima pregadeira sobre um poema meu (e outras peças alusivas a textos de outros autores portugueses). Desta feita, um fotógrafo e formador de Fotografia, Carlos Dias, desafiou-me a deixar que outro poema meu servisse de inspiração a cinco fotógrafas, que tinham a liberdade de pegar nele da forma que entendessem e criar. Responderam ao desafio Ana Botelho, Carla de Sousa (para quem, segundo li, a fotografia é também uma forma de terapia), Clara Moura, Fátima Lopes (que diz ter vestido o poema) e Teresa Valente (caso em que as imagens do corpo  são mais flagrantes). Os seus ensaios fotográficos estão agora reunidos num bonito livro com 63 fotografias (e mais 5 imagens impressas em papel fotográfico como bónus; as minhas autografadas) editado por Carlos Dias. Imagens de árvores outonais, campos, cabelos, nuvens, um abraço, um muro, um vidro estilhaçado... todas pegam no texto «O meu amor não cabe no poema» para nos oferecer uma arte que cabe nas páginas e as ultrapassa. O grafismo é belíssimo. Obrigada a Carlos Dias e às fotógrafas.

16
Mar21

À medida do freguês

Maria do Rosário Pedreira

Já sabemos que, quando um livro publicado não roda nos primeiros dez dias (o que é cada vez mais frequente, dada a falta de espaço para a crítica e a promoção), o livreiro tem de o mandar para trás na primeira oportunidade para não ficar com demasiados elefantes dentro da loja. Mas isso não quer dizer que alguém que, por qualquer razão, se atrasou na compra e na leitura, não queira, três meses passados da publicação, tentar apanhar o comboio. Geralmente, já não encontrará um só exemplar à venda nas lojas físicas, sendo obrigado a encomendá-lo numa delas ou comprá-lo online. Também acontece livros esgotados há muito não se reeditarem por só existir meia dúzia de pessoas interessadas neles (e ainda não haver, no tempo da sua publicação, essa novidade do e-book qjue agora, apesar de tudo, pode ajudar alguém que procura desesperadamente um livro). Por outro lado, num universo de milhões de títulos, uma livraria pode ter mais de dez ou vinte mil à venda? Os livros não vendidos ocupam muito espaço nos armazéns das editoras e, se não forem escoados, acabam quase sempre na guilhotina. A ideia expressa no vídeo abaixo, de uma máquina que imprime livros em sete ou oito minutos e à vontade do freguês pode ser, pois, bastante boa. Sobretudo para quem prefere o papel, como eu. Obrigada a Fausto Marsol, que me deu a conhecer este projecto sevilhano, embora através de outro vídeo. Talvez em breve tenhamos algo parecido em Portugal.

https://www.youtube.com/watch?v=e833YMcMclM

 

15
Mar21

Adiamentos

Maria do Rosário Pedreira

Fez no sábado um ano que vim para casa encerrar-me por causa do vírus (eu e mais de metade dos portugueses). Já tinha passado uma semaninha de reclusão quando se provou que Luis Sepúlveda estava infectado e tinha vindo de Portugal uns dias antes, mas dessa vez o Coronavírus ainda estaria para chegar à  pátria lusa. O 13 de Março é a data que está na minha memória como o princípio do terror e, simultaneamente, do teletrabalho. Em Agosto, passei a ir com máscara e cuidado à editora, mas eram ainda muitos os colegas que continuavam a trabalhar a partir de casa e alguns deles nunca abandonaram o lar, indo apenas esporadicamente à empresa. Muita coisa mudou nas nossas vidas pessoais e profissionais. Em 2020, o Prémio LeYa acabou por ser adiado, pois não havia ninguém para abrir envelopes (e sabia-se lá se o vírus não vinha dentro deles) e poucos eram os concorrentes que, no primeiro confinamento, tinham a coragem de quebrar as ordens de recolhimento obrigatório e pôr-se na fila dos Correios para mandar os seus originais. E, neste segundo período de encerramento, é o Prémio Literário José Saramago que salta para 2022. Como houve muitos lançamentos de livros adiados por conta do fecho de livrarias, a Fundação Círculo de Leitores, promotora do prémio desde o final dos anos 1990, quando Saramago venceu o Nobel, explica que é mais sensato passar a entrega do prémio para 2022 pois assim a próxima edição coincidirá com o centenário do escritor, o que realmente faz sentido. Em Outubro, espero, será conhecido mais um vencedor do Prémio LeYa. Dizem-me que os originais deste ano já começaram a chegar. Esperemos que não haja mais impedimentos até lá.

12
Mar21

O tempo das mulheres

Maria do Rosário Pedreira

Tenho a  sensação de que este é o tempo das mulheres. Uma boa novidade (se eu não estiver do meu lado, quem estará?), mas por vezes, infelizmente, mais forçada do que natural e mais porque tem de ser, e não porque é. Se numa lista de prémios literários não constam obras de mulheres, há logo um grande sururu; mas pôr lá um livro de uma mulher só por ser de uma mulher, convenhamos, é um erro tremendo, se o livro não merecer a distinção. Um dia destes, o organizador de um festival literário mandou a lista dos autores que queria convidar para eu reencaminhar aos  dois ou três que publico e dela faziam parte. Um deles (homem) aceitou o convite, mas fez notar à organização que faltavam mulheres na lista e que era melhor tomar medidas desde já, antes de lhe cair em cima o Carmo e a Trindade... Bem, não podemos de facto prolongar a velha situação em que as mulheres eram constantemente esquecidas ou convidadas de segundo plano, mas também convém ser coerente e não andar a dar prémios à toa só por causa do sexo do escritor ou da temática feminista das obras (voltarei a isto em breve para falar de uma obra específica cuja premiação achei realmente discutível). Em todo o caso, nem sempre é assim, e é muito bom ver que Presidente da República de Portugal substituiu a cadeira vazia de Eduardo Lourenço no Conselho de Estado por Lídia Jorge, talvez a escritora contemporânea que mais tem reflectido sobre os problemas da actualidade e que melhor expressa as preocupações dos intelectuais em relação a uma sociedade sem leitores, mais agressiva e menos empática. Uma pensadora inteligente, culta, coerente e com um discurso que é uma chamada de atenção urgente para quem governa e que pode e deve tomar medidas que salvem o País deste «analfabetismo» estrutural. Aplaudo e agradeço.

11
Mar21

Desdobrar

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se se lembram de há já bastante tempo vos ter falado aqui no blogue de um baú cheio de cartas fechadas que foi encontrado cerca de trezentos anos depois de elas terem sido escritas. Eram 2571 missivas do Renascimento que um «carteiro» dos Países Baixos nunca entregou aos destinatários. O que nelas está escrito fará certamente luz sobre vários aspectos da sociedade desse tempo, mas havia um problema que dizia respeito à imensa probabilidade de estragar tudo com um gesto precipitado, até porque, segundo leio no Público de 3 de Março, as cartas estão dobradas de formas incrivelmente engenhosas, em padrões complicados que eram também uma espécie de assinatura de quem enviava, e corriam o risco de se desfazer ao toque. Então, para não deitar tudo a perder, o grande desafio foi ler cada carta sem a desdobrar, ou seja, lê-la com raios-X através de um aparelho criado, vejam lá, para «coscuvilhar» os dentes humanos, que tem uma sensibilidade inédita em cartografia. Um raio-X à História feito, afinal, com a ajuda da medicina dentária, a que posteriormente se associa um programa informático que permite desdobrar virtualmente as cartas em três dimensões e ler, por exemplo, uma missiva de 1697 de um senhor que pede a seu primo, mercador residente na Haia, o envio de uma certidão de óbito do cavalheiro Daniel LePers. As maravilhas da Ciência dedicam-se às Letras. Muito bem.

10
Mar21

Tragédias

Maria do Rosário Pedreira

Uma colega minha mandou-me um recorte de jornal que, se não fosse bastante próximo do que eu já esperava, deitaria abaixo qualquer pessoa que trabalha no ramo dos livros, fazendo-a querer mudar imediatamente de sector. Tem que ver com o estado da leitura em Portugal... que é catastrófico, e não é de hoje. Segundo o Eurobarómetro, dos 27 países da União Europeia, Portugal era em 2013 o último da lista dos que tinham lido pelo menos três ou cinco livros num ano (só 12,5% dos portugueses tinham lido cinco livros num ano e, no país pior a seguir a nós, a Roménia, eram 18,5% os que o tinham feito; no caso dos três livros, a diferença era ainda mais gritante: de 18,7% para 30,5%). Entre 2007 e 2016, houve, porém, uma queda no número dos que tinham lido em Portugal pelo menos um livro (só um!), de 44,7% para 39,5%, concluindo o estudo que, no ano de 2015, houve cerca de 62% de portugueses que não leram um único livro. Com a pandemia e os períodos de confinamento obrigatório, em muitíssimos países europeus cresceu muito significativamente o número de leitores. Aqui, porém, com o fecho das livrarias, a proibição temporária de venda de livros noutros espaços, a desconsideração votada ao livro pelos responsáveis governamentais e, por outro lado, os meninos agarrados aos computadores o dia todo (para a escola e não só), não há esperança de os números melhorarem. Até tenho medo de ver os dados do Eurobarómetro de 2019. A leitura está cada vez mais confinada num grupelho de malucos como nós.

09
Mar21

Arte pobre

Maria do Rosário Pedreira

Leio no Público que a Fundação Calouste Gulbenkian vai apoiar os artistas com mais de um milhão de euros. No artigo, que não vem assinado, diz-se mesmo que o apoio às artes sempre esteve no «ADN» da Fundação que, até hoje, foi vista, aliás, por muita gente como «um Ministério da Cultura informal». É verdade que sim – e ainda bem, pois o Ministério da Cultura «formal» pouco tem servido aos artistas, sobretudo neste período catastrófico que atravessamos, apesar de uns míseros apoios anunciados. Reparo, porém, que as ajudas dos dois ministérios (o verdadeiro e o falso) são sempre para as artes visuais e performativas, mas nunca incluem os escritores que, sei lá porquê, ficam de fora como se não estivessem a sofrer na pele tal como os outros. Ora, com as livrarias fechadas há que tempos, com tantos livros que deixaram de se vender, quando os autores receberem os relatórios de vendas anuais vão levar um verdadeiro rombo nas suas contas. Um autor que conheço bem, por exemplo, passou, de uma semana para a outra, de cerca de 100 exemplares semanais vendidos do último título para 2, queda fulminante de que é difícil alguém recompor-se, até porque, mal abram as livrarias, os editores vão «despejar» nelas tudo o que ficou entretanto parado nos armazéns e os pobres livros saídos no início do ano que nem tiveram tempo para respirar serão logo chutados para fora das lojas para dar lugar aos novinhos em folha de três meses acumulados… Mas os escritores são artistas em que ninguém pensa. O MC formal dá umas bolsas de criação literária todos os anos e acha que chega para apoiar as Letras. E o MC informal não costuma incluí-los nestes programas de apoio. Uma outra arte pobre?

08
Mar21

Dietas

Maria do Rosário Pedreira

Devem estar quase a chegar os livros de dietas para nos apresentarmos elegantes nas praias do próximo Verão (isto, se conseguimos deixar o confinamento com juízo, claro, de contrário não haverá férias para ninguém). É natural que este ano se publiquem muitos, pois ouço dizer que, por causa do teletrabalho e do recolhimento (e do fecho dos ginásios), muita gente esteve sem se exercitar; e, pior, com a nervoseira e a depressão de não ver os amigos, acabou por se refugiar na comida e engordar uns quilitos (não caibo, felizmente, nesse figurino, pois a mim as chatices dão-me geralmente para a falta de apetite e, além disso, comendo em casa, como melhor e coisas mais saudáveis). Mas, como lembrou (e muito bem) Rita Pimenta no jornal Público (a propósito do fecho das livrarias), «ler não engorda» e, por isso, vale a pena prestar atenção ao jornalista João Morales, tem agora uma rubrica no Youtube chamada Alimente as Suas Estantes, na qual aconselha mensalmente títulos e ressuscita autores esquecidos que merecem ser visitados ou revisitados, como, por exemplo, foi o caso de Vasco da Lima Couto. Subscreva o canal 19 e dê saúde a este projecto!

05
Mar21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.

O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, emfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.

Trabalhos e Paixões de Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco

04
Mar21

Palavras proibidas

Maria do Rosário Pedreira

O mundo está cada vez desengraçado, sobretudo desde que, em plena democracia (pelo menos, em teoria, é uma democracia), o que começou por ser um politicamente correcto cheio de boas intenções passou de repente a crítica feroz a determinado tipo da linguagem, mesmo inocente, que leva depois a uma permanente autocensura e a um cuidado excessivo que nos retira qualquer espontaneidade. Li, consternada, a notícia de que num hospital do Reino Unido as parteiras foram aconselhadas a prescindir da expressão «leite materno» para não ostracizar pessoas transgénero e abranger famílias não tradicionais (e cito: «incluindo agenderbigender e genderqueer»), substituindo-a por «leite humano», que é uma coisa que, na minha modesta opinião, cheira quase a filme de terror. Mas, se a arte parecia uma coisa à parte, livre desta «censura» da linguagem, desenganem-se. O medo de ofender chegou à literatura (em certos países mais do que noutros) e deve estar presente na cabeça dos escritores norte-americanos todos os dias. Agora, que tenho mais livros de autores que publico em, Portugal traduzidos noutras línguas, nomeadamente em inglês, tenho verificado que certas metáforas até algo ingénuas (como, por exemplo, referências a índios e cowboys em brincadeiras infantis) são mal acolhidas pelos tradutores norte-americanos, que as acham inaceitáveis e ofensivas para os nativos, pedindo simplesmente para as omitir ou permitir a troca por outras, mais amigas das minorias. Se um autor estiver, por isso, apostado sobretudo em internacionalizar-se, cuidado, pois em certos países vai ter de abdicar de muito do que escreveu.

Deixo o link donde tirei a notícia para que alguns comentadores vejam que aqui as expressões são mesmo as que citei:

https://zap.aeiou.pt/hospital-pede-que-parteiras-nao-digam-amamentacao-e-leite-matern-380356?fbclid=IwAR1B4K9b3wP7RYMo27wfFK4hhe4QkUTgRCst-0NYA3VXUyckhChT-l0cQ7w

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